Psicologia e Desenvolvimento Pessoal

Quer falar-me melhor sobre isso? O propósito da psicoterapia.

Olá de novo caro leitor, se tem acompanhado o meu trabalho lembrar-se-á de que na minha última rúbrica começámos a explorar o conceito de psicoterapia falando sobre as várias maneiras de a praticar. Concluímos que existem diversos modelos teóricos, com diferentes formas de realizar o trabalho psicoterapêutico e que, segundo a investigação, parecem ter níveis de eficácia equivalente. Para continuarmos a explorar o conceito, hoje pretendo focar-me na questão “Qual o propósito da terapia?”. O leitor poderá neste momento estar a pensar “A cura/alivio dos sintomas de problemas de saúde mental!”, embora concorde parcialmente torno a lançar a dúvida: será apenas esse? Trago hoje três estudos que nos fornecem algumas conclusões interessantes sobre o assunto.

Para começar, considero que ninguém melhor para nos ajudar a compreender o propósito da psicoterapia que os seus próprios clientes. Um estudo de 2015 desenvolvido por Olivera, Penedo e Roussos propôs-se a estudar em antigos clientes de psicoterapia, a percepção do que mudou e as razões que os levou a procurar a terapia. Através de entrevistas a antigos clientes de psicoterapia descobriram que as principais razões de consulta foram: Problemas interpessoais (i.e. problemas conjugais, com a família etc), Problemas emocionais (nomeadamente depressão, ansiedade, entre outros) e Crises Relacionadas a eventos de vida (i.e. Divórcios, entre outros). Os autores classificaram os tipos de mudança referidos pelos participantes como: Mudanças cognitivas (i.e. mudança da forma de pensar ou de processar os acontecimentos à sua volta); Mudanças emocionais (i.e. diminuição de depressão ou ansiedade); Melhoria da qualidade de vida (i.e. melhoria do bem-estar e da vontade de viver); Mudanças interpessoais (i.e. mudanças nas relações com os outros); Mudanças intrapessoais (i.e mais aceitação de si, maior autoconfiança) e Mudança de comportamentos (i.e mudança da forma de responder às situações). A maior parte dos participantes referiu notar mudanças em mais do que uma área.

Em 2010, outro estudo desenvolvido por Binder, Holgoersen e Nielsen procurou responder à questão “O que é um bom ganho terapêutico para o cliente de psicoterapia?” e para o efeito entrevistaram antigos clientes de psicoterapia e descobriram cinco temas importantes: Desenvolver novas formas de se relacionar com os outros – nomeadamente, uma maior segurança, autenticidade, assertividade, sensibilidade e empatia nas relações; Redução dos sintomas; Mudanças no comportamento relacionado ao sofrimento; Melhor capacidade de introspecção e auto-compreensão e melhor aceitação e valorização de si próprio.

Estes dois estudos elucidam aspetos importantes relativamente à pergunta que lancei ao leitor no parágrafo anterior. Em primeiro lugar, percebemos que a psicoterapia pode servir não apenas para redução ou gestão de sintomas do nosso sofrimento psicológico, mas também como forma de suporte e amparo a problemas de relação com os outros ou a eventos de vida que nos causem impacto. Em segundo, podemos perceber que os ganhos psicoterapêuticos não se limitam exclusivamente à eliminação do sofrimento. De facto, estendem-se bem para lá disso, permitindo mudar a nossa forma de pensar sobre nós, os outros e o mundo, mudar os nossos estados emocionais, ajudar-nos a viver melhor e melhorar a nossa relação connosco e com os outros.

Há no entanto outra pergunta que me parece ser pertinente fazer se queremos perceber as implicações do propósito da psicoterapia. Se por um lado a investigação parece apontar para o potencial de uma panóplia de mudanças, até que ponto a terapia pode verdadeiramente mudar-nos? Roberts e colaboradores publicaram este ano uma meta análise[1] sobre o efeito da psicoterapia nos traços de personalidade que traz algumas conclusões interessantes a esse respeito. Em mais de 200 estudos diferentes, os autores verificaram que existem mudanças nos traços de personalidade após intervenção psicoterapêutica, sendo que os dois traços de personalidade que mostraram uma mudança positiva mais acentuada denominam-se de estabilidade emocional[2] e extraversão[3]. Os autores referem que os seus dados corroboram a ideia de que a psicoterapia pode levar a uma alteração duradoura da personalidade e que esta não parece estar associada a um típico específico de modalidade terapêutica. Os autores referem ainda que embora exista a possibilidade de que as mudanças se desvaneçam com o tempo, a evidência parece apontar que tal não sucede.

Considerações finais

            Como o leitor certamente poderá imaginar, este pequeno texto não pode fazer jus a toda a literatura existente sobre psicoterapia, pelo que poderão existir outros estudos igualmente relevantes que não estão aqui incluídos. No entanto, o propósito da apresentação destas três investigações é apenas testar algumas concepções que podemos ter sobre esta área, influenciadas pela ideia socialmente construída daquilo que é a psicoterapia.

            Mais uma vez reitero, a psicoterapia (e por conseguinte, a psicologia) é uma poderosa forma de nos ajudar a viver melhor, mais estáveis e mais livres. Embora a ideia de eliminação de sintomas não esteja totalmente errada, para alguns modelos teóricos não é sequer o foco da intervenção (i.e. pode ser encarada como um subproduto da mudança). Como pudemos ver, há uma grande quantidade de situações que podem ser indicadas para trabalhar em psicoterapia sem que tal implique uma gestão ou eliminação de sintomas. Se ainda estiver céptico, ficam então as palavras de Norcross, um reconhecido investigador na área, sobre o conceito de psicoterapia: “A psicoterapia é a aplicação intencional e informada dos métodos clínicos e posturas interpessoais derivadas de procedimentos psicológicos estabelecidos para o propósito de assistir pessoas na modificação dos seus comportamentos, pensamentos, emoções e/ou outras características pessoais na direcção considerada desejável pelos participantes” (Norcross citado por APA, 2013).

Referências Bibliográficas:

American Psychological Association. (2013). Recognition of psychotherapy effectiveness. Journal of Psychotherapy Integration, 23(3), 320-330. http://dx.doi.org/10.1037/a0033179

Binder, P. E., Holgersen, H., & Nielsen, G. H. (2010). What is a “good outcome” in psychotherapy? A qualitative exploration of former patient’s point of view. Psychotherapy Research, 20, 285-294. doi:10.1080/10503300903376338

Olivera, J., Braun, M., Gómez Penedo, J. M., & Roussos, A. (2013). A qualitative investigation of former clients’ perception of change, reasons for consultation, therapeutic relationship, and termination. Psychotherapy: Theory, Research, & Practice, 50, 505–516. http://dx.doi.org/10 .1037/a0033359

Roberts, B. W., Luo, J., Briley, D. A., Chow, P. I., Su, R., & Hill, P. L. (2017). A systematic review of personality trait change through intervention. Psychological Bulletin, 143(2), 117-141. doi:10.1037/bul0000088

[1] Tipo de estudo que procura analisar um grande número de estudos diferentes sobre um determinado tema de modo a integrar e resumir os seus resultados.

[2] A capacidade de manter um equilíbrio emocional em circunstâncias stressantes.

[3] Grau de sociabilidade e assertividade de um individuo.

 

Texto de Rodrigo Pires

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rodrigopiresuevora@hotmail.com

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