Palavras e Fotografia

As Raízes da Saudade – II (Parte II)

Eu era adolescente. Como todos os outros lutava pela minha autonomia, pela minha liberdade. Queria sair das aulas e ainda ter tempo para conversar com as amigas mais quinze minutos, mas contigo, esses quinze minutos eram quase sempre interrompidos.

Ligavas-me para o telemóvel:

– Onde é que tu andas? – perguntavas furiosa por eu ainda não ter chegado.

– Estou a caminho. Ainda há bocado saí das aulas. – respondia eu já irritada por nunca sentir que me davas espaço para crescer.

– Já devias estar em casa há mais de vinte minutos! – praguejavas qualquer coisa e desligavas-me o telefone na cara.

Eu respirava fundo e fazia-me ao caminho, com a certeza de que chegar a casa ia valer uma discussão, como tantas outras vezes. Era certo, quando descia a rua estavas tu ao portão à espera de me ver chegar. Eu enchia-me de coragem e enfrentava-te com a certeza de que não estava a fazer nada de errado.

Estavas quase sempre vermelha de raiva por te deixar preocupada, apenas por me atrasar vinte minutos para além do que era habitual.

Só anos mais tarde vim a compreender a tua preocupação. As perdas que não controlamos fazem-nos temer o mundo.

Entrava em casa contigo a praguejar e eu numa tentativa inútil de me fazer entender. Até que desistia. Pousava a mochila, tomava um banho e vestia o pijama. O resto da tarde era passada a tentar evitar discutir. Eu isolava-me nos meus livros e cadernos a fazer deveres que não existiam, apenas para não ter que voltar a discutir.

Vinhas de vez em quando ter comigo para saber como estava, já com outro tom, mas eu continuava tão zangada que te respondia com meia palavras e tu nunca soubeste entender.

– Raios partam a miúda! Tu pões-me doente – dizias tu enervada com a minha tentativa de marcar o meu território, de pôr a minha palavra no mundo.

E eu chorava… depois de muitas horas a tentar manter-me forte chorava. Porque nunca percebia o que havia feito de tão grave para que ficasses sempre tão zangada comigo. Era como se nada fosse o suficiente. Por mais que tentasse ficava sempre aquém do que esperavas de mim, que no fundo, eu não sabia bem o que era.

 

Texto de Cláudia da Silva Mousinho

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