Palavras e Fotografia

As Raízes da Saudade – VII (Parte I)

Eu tinha 6 anos.

Estava um dia de sol e de calor e íamos dar uma das nossas voltas pelo bairro. Saíamos de casa de mãos dadas, tu com o teu boné na cabeça e eu com o meu, que levava sempre muito contrariada. Subíamos a rua e eu observada os cães dos vizinhos que latiam à nossa passagem. Lembro-me de pensar que nos estavam a dizer olá, e sorria enquanto lhe acenava com a minha mãozinha pequenina. Enquanto subia a rua, sentia os raios de sol tocarem-me a pele das costas que espreitava por entre as alças do meu top branco, ouvia as cães a latir e os pássaros. Ao cimo da rua virávamos à esquerda e seguíamos caminho. Olhei para o chão e estava uma cobra a passar à nossa frente.

– Avô! Uma cobra! – dizia assustada ao mesmo tempo que te agarrava a mão com mais força.

– Não faz mal. Ela tem mais medo de ti do que tu dela! – disseste tu com um sorriso.

Com uma enorme rapidez tiravas o boné, pegavas na cobra e atirava-la para o mato. Eu admirava a tua coragem. Uma vez vimos uma tão grande que me agarrei ao teu braço. Tu repetiste o gesto de sempre e disseste:

-Anda cá ver! Não tenhas medo.

Eu aproximei-me devagar. Tinhas a cobra nas mãos como que morta. Quis tocar para saber o que se sentia. Lembro-me que parecia escorregadia e era fria! Tirei a mão muito depressa pela estranheza daquela sensação. Tu rias. Aquele sorriso ternurento que sempre te conheci.

– Vês, não te faz mal nenhum. As cobras aqui não são venenosas e têm mais medo das pessoas do que as pessoas deviam ter delas. E para além disso são óptimas para apanhar os ratos. – disseste enquanto me olhavas nos olhos, transmitindo uma segurança que nunca senti nos olhos de mais ninguém.

Atiraste-a para o mato, deste-me a mão e continuámos o nosso passeio. Talvez por isso ainda hoje adore cobras.

Lembro-me de pararmos sempre para cumprimentar os vizinhos. Não havia quem não te conhecesse.”Olhó ti Jaime” diziam eles com um sorriso enquanto estendiam a mão. “Estás uma mulherzinha”, diziam quando me viam ao teu lado. Eu encolhia-me ao lado da tua perna na esperança de passar despercebida.

Gostava daqueles passeios contigo. Gostava de ser criança naquele momento. Perguntava-te pelas pessoas, quem eram, o que faziam e em qual das casas é que viviam. Dizias-me os nomes e os graus de parentesco de quem vivia em cada casa por onde passávamos e eu criava histórias de encantar na minha imaginação. Conhecias toda a gente e toda a gente gostava de ti.

Ali, de mão dada contigo, ou simplesmente a caminhar ao teu lado, sentia que ninguém me podia fazer mal porque tu nunca ias deixar. Ali criava histórias de encantar e contos de fadas. Ali aprendia coisas sobre a vida, sobre o amor e sobre a amizade. Aprendia sobre paciência, resiliência e simpatia. Ali era feliz.

Os anos passaram e os passeios foram deixando de acontecer. Hoje faço longos passeios contigo nas minhas memórias,choro e sorrio ao mesmo tempo,pela saudade e por ter tido a oportunidade de viver todos estes momentos contigo!

Quando preciso de encontrar o meu centro saio de casa e vou dar esse mesmo passeio. As pessoas já não são as mesmas, já não param para cumprimentar e já não lhes sei os nomes nem os graus de parentesco, os cheiros mudaram muito, mas continuo a ouvir o latir dos cães à minha passagem e o chilrear dos passarinhos e de vez em quando até aparecem cobras.

Nesses momentos caminho sozinha, mas é como se ali estivesses ao meu lado. De novo a ensinar-me sobre a paciência, sobre a calma e sobre o que é realmente importante na vida. De novo a fazer-me sentir que vai tudo correr bem e que tanto as cobras, como algumas pessoas “elas têm mais medo de mim do que eu delas”.

 

Texto de Cláudia da Silva Mousinho

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