Psicologia

Quer falar-me melhor sobre isso? O mais importante.

Olá de novo caro leitor, hoje farei a última rúbrica sobre a primeira série de textos ligados ao conceito de auto-cuidado. É comum encontrar quem nos tente vender a felicidade como um objectivo supremo de vida. São vários os produtos que nos chegam com promessas de melhoria radical das nossas vidas. Contudo, alguns psicólogos defendem que a felicidade não é a única coisa que pode dar cor à nossa existência. Certos acontecimentos ou hábitos podem ser a antítese total da felicidade e ainda assim algumas pessoas persistirão neles pelo sentido por eles atribuído às suas vidas. A investigação tem mostrado que a sensação de viver uma vida plena de sentido é uma preocupação central dos seres humanos (Baumeister citado por Park & Baumeister, 2017) que está associada ao bem-estar (Ho, Cheung & Cheung, 2010) e uma maior resistência a stressores (Park & Baumeister, 2017). Por esta razão, defendo que estar em contacto com as fontes de sentido – que fazem com que sintamos que a vida que levamos vale a pena – pode ser uma forma de nutrirmos a nossa vida.

Onde encontrar as nossas fontes de sentido?

De facto, esta é a verdadeira questão que intriga os investigadores. Embora pareçam existir várias formas de encontrar sentido nas nossas vidas, uma corrente de pensamento dentro da psicologia defende que uma vida tem significado quando vivida de acordo com os próprios valores. Antes de passarmos a aprofundar esta ideia, apresento-lhe a terapia de aceitação e compromisso (doravante, ACT). Friso ainda que dado que não possuo formação formal neste modelo e por essa razão, esta publicação é apenas informada pela ACT. Caso o leitor tenha mais interesse em trabalhar aspectos da sua vida através deste modelo, recomendo-lhe que procure um profissional devidamente especializado.

Valores: O que são?

Numa perspectiva de ACT, falar em valores não significa falar de aspirações, objectos ou sentimentos, mas sim das qualidades pessoais através das quais nos queremos definir (Brown & Gillard, 2016). Para melhor explicar este termo, cito também Ray Owen, terapeuta ACT sediado no Reino Unido (Lucas, 2017), que defende que os valores se referem “à forma como queremos actuar no mundo. São as coisas que ajudam a reforçar a nossa forma de estar”. Nesse sentido, os valores podem cumprir uma função de bússola orientadora: Ao clarificá-los, podemos ter uma ideia de como queremos comportar-nos e actuar perante a vida (Brown & Gillard, 2016), ajudando assim a organizá-la – especialmente quando as nossas circunstâncias se alteram. Por exemplo, se um dos meus valores for “A sustentabilidade ambiental” posso começar a tomar acções congruentes com o mesmo, começando a reciclar, participando em activismo ambiental e tomando escolhas de vida mais sustentáveis (Brown & Gillard, 2016).

 Implicações práticas

Clarificar e actuar em função dos próprios valores pode nem sempre significar ter como finalidade “sentir-se bem” ou “Ser feliz”, mas sim agir em função das qualidades que mais nos importam a cada um de nós. Provavelmente o leitor poderá estar a questionar-se “mas como perceber quais os meus valores?”, nesse caso, se estiver disposto a reflectir sobre o assunto convido-o a seguir as recomendações de Owen (Lucas, 2017): “A menos que estejamos realmente focados no que se passa à nossa volta, todo o conceito de valores não passa de uma ideia abstracta. Por essa razão, o mais importante é desenvolver a nossa capacidade de estar consciente e conseguir reparar nos nossos pensamentos e sentimentos, pois só assim conseguiremos fazer a ligação entre os nossos comportamentos e os nossos valores”.

Se tem acompanhado esta série de textos centrados nas questões do auto-cuidado poderá reparar que Owen está, no fundo, a convidar-nos a desenvolver atenção plena ao nosso redor de modo a que consigamos estar em contacto com aquilo que mais importante é para nós e, consequentemente, possamos sentir o quão significativo isso é. Para terminar, estas três rúbricas são de certo modo, complementares: Em primeiro lugar, convidei o leitor a desenvolver a sua capacidade de atenção plena como forma de aumentar a consciência das suas necessidades e limites. Em segundo lugar, falei ao leitor da importância das relações com os outros e do quanto a nossa vida gira muitas vezes em redor dos grupos de pessoas com quem vamos tendo contacto ao longo da nossa vida. De facto, é também nesta dimensão social que surgem as oportunidades de experienciar aquilo que mais significativo pode ser para cada um de nós. Por essa razão terminei esta série falando sobre valores, desafiando o leitor a reflectir sobre quais são as qualidades que mais gostaria que o definissem – bem como desafiando-o a cultivá-las. Por último, durante a próxima semana, convido o leitor a procurar prestar atenção aos momentos que lhe trazem alegria e felicidade e pergunte-se a si mesmo “Neste momento em que estou, o que é o mais importante para mim?” (Lucas, 2017).

Referências Bibliográficas:

Brown, F., J. & Gillard, J. (2016) Acceptance and Commitment for Dummies. Chichester, West Sussex: John Wiley & Sons Ltd.

Ho, M. Y., Cheung, F. M., & Cheung, S. F. (2010). The role of meaning in life and optimism in promoting well-being. Personality and individual differences48(5), 658-663.

Jim Lucas, JL. (2017). Getting deeper with Values and what you truly care about. Open Forwards. Retirado de: http://www.openforwards.com/podcast/self-help-sat-nav/14-getting-deeper-with-values-ray-owen/

Park, J., & Baumeister, R. F. (2017). Meaning in life and adjustment to daily stressors. The Journal of Positive Psychology12(4), 333-341.

 

Texto de Rodrigo Pires

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Psicologia

Quer falar-me melhor sobre isso? Relações Sociais: O Inferno sem os Outros.

Uma das características que definiu a história evolutiva dos seres humanos, foi a sua propensão e aptidão para funcionar em pequenos grupos. Há centenas de milhares de anos atrás, a pertença a um grupo ditaria de forma quase certa, o futuro de um elemento da nossa espécie e o isolamento seria uma sentença de morte imediata. É esta a razão pela qual ouvimos frequentemente chamar ao Ser Humano, um “animal social”. Contudo, com o avanço das eras e das formas de vida em sociedade, é hoje consideravelmente diferente viver em grupo. O isolamento continua a estar presente na nossa sociedade, contudo, numa parte considerável das zonas em que habitamos não teremos predadores que possam ameaçar a nossa sobrevivência. Antes que respiremos todos de alívio perante esta constatação aparentemente optimista, a investigação científica tem mostrado que os efeitos da solidão estão bem para lá do que nos parece mais aparente.

A solidão no século XXI

O isolamento social é cada vez mais considerado um problema dos nossos dias, de tal maneira que até alguns países, como é o caso do Reino Unido, já criaram especificamente novos ministérios dedicados à sua erradicação. Mas porque é o isolamento social um problema tão importante e qual é a sua relevância para o leitor? Comecemos por analisar algumas evidências:

  1. O ambiente social tem influência na saúde psicológica dos seres humanos: Segundo o Inquérito Social Europeu (citado por Nós e os Outros), quem mantém boas relações com os outros apresenta maiores níveis de felicidade do que aqueles que não mantêm.
  2. O ambiente social tem influência na saúde física dos seres humanos: Aqueles que têm melhores relações com os outros tendem a ter menos doenças e uma maior esperança de vida comparativamente a quem não tem boas relações com os outros. Mais ainda, o isolamento social pode aumentar o risco de morte prematura em cerca de 45%. O que nos permite afirmar que, estar isolado e sentir-se sozinho é tão nocivo quanto fumar 15 cigarros por dia (Holt-Lundstad, Smith & Layton citado por Lima, 2018).
  3. Portugal é um dos países que apresenta maiores taxas de isolamento social. Estima-se que cerca de 22% dos portugueses com 65 ou mais anos viva sozinho. O inquérito social europeu de 2014 mostrou ainda que cerca de 12,5% dos Portugueses se sentiram na última semana, muitas vezes ou quase sempre sós. Embora nos jovens adultos este valor seja baixo, no caso dos mais velhos sobe para cerca de 18%, isto é, quase 1 em cada 5 portugueses com idade igual ou superior a 65 anos referiu sentir-se sozinho na grande maioria do tempo. Estes dados tornam-se consternadores se nos recordarmos que Portugal é dos países da Europa com maiores taxas de envelhecimento populacional.

Asseguro ao leitor que existem muitas mais evidências para outros problemas associados ao isolamento e solidão, mas que infelizmente, por questões de espaço não poderei abordar aqui. Contudo, a principal conclusão que devemos retirar é que um mau ambiente social tem sérias implicações na saúde dos seres humanos. Por este motivo, ao falar em autocuidado é de extrema importância lembrar que as nossas relações sociais devem também ser elas alvo de investimento.

Relações Sociais – A sua importância

Como referi no inicio desta rúbrica, as relações sociais são um dos ingredientes que ditaram e influenciaram a nossa sobrevivência e evolução enquanto espécie. Por esta razão, o contexto social tem influência contínua não apenas na nossa satisfação com as nossas relações, mas também com o nosso funcionamento em geral ao longo do ciclo vital – influindo sobre os nossos estados de humor, níveis de stress, bem-estar, persecução de objectivos, sensação de segurança, sentido de propósito e de significado da nossa vida. Isto significa que as relações sociais modelam-nos, influenciando o nosso comportamento e o nosso bem-estar (Holman, Kanter, Tsai & Kohlenberg, 2017). A qualidade das nossas relações sociais pode ser uma fonte de resiliência ou uma agravante do risco de desenvolvimento de problemas de saúde físicos e psicológicos – algo que se verifica especialmente na maioria dos principais casos de doença mental (Beck citado por Holman, Kanter, Tsai & Kohlenberg, 2017, ; Leach & Kauzler citado por Holman, Kanter, Tsai & Kohlenberg, 2017; Pettit & Joiner citado por Holman, Kanter, Tsai & Kohlenberg, 2017)

Implicações práticas

O leitor poderá estar a questionar-se que soluções existem para combater o problema da solidão e do isolamento social. Quero começar por concordar com Lima (2018) dizendo que “a solidão não se cura com um psicólogo ou com uma linha de apoio 24 horas por dia” – embora a psicologia seja uma das ciências que tanto tem ajudado a compreender as implicações deste problema nas nossas vidas, a sua resolução transcende-se para todos nós. Por esta razão, defendo que é imperativo cuidar das nossas relações sociais. Contudo, tal não significa tornar-se a nova estrela em ascensão com milhares de seguidores nas redes sociais, ou coleccionar uma legião de amizades apenas porque sim. O cuidado implica reciprocidade – não apenas para que possamos falar sobre o que sentimos, mas sim criar um espaço onde o cuidado se dá e recebe (Lima, 2018). Este maior contacto psicológico que pauta as relações de proximidade (Holman, Kanter, Tsai & Kohlenberg, 2017) permite-nos desenvolver a sensação de que iremos ter o apoio e suporte quando mais necessitarmos (Lima, 2018) – eliminando assim o sentimento de isolamento e solidão e todos os seus agravantes para a nossa saúde e bem-estar.

Em suma caro leitor, a solidão é de tal forma corrosiva para a nossa saúde e bem-estar, que vivê-la é, parafraseando Sartre, sentir não que “O inferno são os Outros” mas sim “O inferno sem os Outros”. Não deixe de assegurar um espaço no seu dia-a-dia para cuidar e usufruir das relações com quem sente que lhe faz bem – sejam os seus amigos, família, colegas de trabalho ou qualquer outra actividade de grupo da qual faça parte – pois cuidando deles, cuidará também de si.

 

Texto de Rodrigo Pires

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rodrigopiresuevora@hotmail.com

Psicologia

O sabor dos (loucos) vinte de hoje.

Lembraste quando eras adolescente e sentias que não eras carne nem peixe, mas estavas à beira de ser servido/a numa bandeja anyway? Pois é. Bem-vindo aos teus vinte e tais, onde a única coisa que muda é que tens (na maioria dos casos) uma identidade profissional parcialmente delineada. O que não quer dizer que não a questiones todos os dias e não acabes, até, por ingressar noutro trajeto completamente diferente.

Aos vinte e tais começas, também, a renovar o teu guarda-roupa. Os vestidos de festa aumentam e o teu roupeiro torna-se mais apelativo, digno de uma verdadeira socialite. São vestidos que só vestes uma vez, mas com os quais vais andar de “peito inchado” a tirar fotos que te vão garantir uma boa centena de likes no instagram. E porque é que os vestidos de festa aumentam? Porque (aí vem a grande diferença) as tuas amigas começam a casar! Deparas-te com o calendário de Junho a Setembro cheio e dás por ti a esperar que a onda casamenteira tenha uma interrupção de um aninho ou dois porque a tua carteira precisa de engordar novamente até ao próximo presente.

Nos teus vintes quase intas também começas a ter mais contacto com bebés. Seres dos quais há muito que não ouvias falar mas que, num ápice, voltam a estar no centro das dinâmicas das tuas amizades. As tuas amigas dividem-se entre as que se tornam tias e invadem o teu facebook com páginas de artigos de bebé e convites para concertos da patrulha pata, e aquelas que se tornam mães e te começam a desejar os parabéns terminando com um orgulhoso e maduro “são os votos da família Santos-Silva”. E até te sentes mais crescidinha quando deixas de ser cumprimentada com um “que saudades minha atrasada” e passas a ouvir e a viver um “diz olá à tia Pipa”. Confesso que os gugudádás não são conversas menos cognitivamente estimulantes que os “ele mandou-me uma mensagem para o face. O que faço?”. Na verdade, começas a sentir-te bem por alastrares os teus laços familiares e te deixares ser tia da criançada.

Começas a dar por ti a pensar numa lista de nomes infindáveis para menino e menina. (sim, vais dar por ti a divagar neste assunto!). E eis quando acabas por ter um cão chamado Bernardo ou uma gata chamada Clarinha.

Aos vinte e tais, vais sentir que não terminaste nem começaste nada e vais-te dar conta que os teus amigos estão a começar uma família enquanto tu ainda andas a estorvar a tua, ou porque lhes deixas o cão ao fim de semana ou porque continuas a pedinchar tupperwares. Vais sentir uma certa ansiedade relativamente ao futuro (não, não te tornas mais saudável ao nível mental, pelo menos até à entrada nos intas). De um lado tens ainda alguns resquícios da vida universitária e as party people. E olhas para essas pessoas já com uma certa distância … já não tens fígado nem estomago para tanta festa regada a tudo menos água. As séries passam a estar novamente no centro dos teus serões (já não recorres às séries só para procrastinar no estudo para uma frequência daquela cadeira que achas insuportável). Do outro lado, tens os teus amigos a enveredar numa nova aventura, a do casamento e dos filhos. E sentes-te ainda tão distante dessa realidade. Estás num impasse … vais começar a sentir-te um tanto ao quanto desintegrada. Tão welcome my dead adolescent me. Vais querer viver intensamente, mas substituis o capítulo 8 e a praxis por um bilhete de avião para Praga.

Nos teus vintes vais viajar muito. Vais-te viciar em viagens e vais começar a pensar que é isso que queres fazer para sempre. Embora também acabes por compreender que isso requer fundos e que os fundos requerem que vás aceitando estagiar ao abrigo de uns 500€ ao mês (que até te vão parecer muito, até começares a chegar ao segundo dia após o dia de S. Receber com apenas 10€ na conta).

Resumindo, sim! É tão difícil sair da casa dos vintes como foi entrar.

O meu conselho para ti: tudo tem o seu tempo. Este é o tempo de ser sem ser. O que traz uma boa novidade para ti. Podes continuar a descobrir-te por mais um bocadinho. A psicologia do desenvolvimento permite-te isso ao chamar-te Adulto (a) Emergente. Vive, controla essa ansiedade. Dizem, por aí, que os intas são diferentes!

 

Texto de Filipa da Piedade Rosado

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Psicologia

Quer falar-me melhor sobre isso? O melhor presente é estar presente.

Bom dia caro leitor, seja bem vindo a mais uma rúbrica da minha autoria no LQ, na qual continuaremos a conversar sobre auto-cuidado. Todos os dias ouvimos alguém proferir a máxima de que devemos cuidar de nós, cuidar da nossa alimentação, cuidar das nossas relações, cuidar da forma como respondemos aos outros ou a nós próprios, e a lista por aí segue. Várias vezes encontramos outras pessoas que prometem saber o segredo para a felicidade, convidando-nos a amar-nos, ou a mudar a nossa rotina, ou a fazer transformações radicais na nossa vida…por um preço. É aqui que facilmente se cai numa armadilha que abunda no campo do auto-cuidado e da auto-ajuda: a mercantilização das soluções. É fácil ficar a achar que “É preciso  comprar o programa X para vivermos melhor” ou que “As respostas para os nossos problemas estão todas no livro Y”. Para algumas pessoas isto pode ser verdade, no entanto, nem sempre estamos alheados do que nos faz bem. Para alguns de nós (inclusive para mim) a grande dificuldade na hora de começarmos a investir em nós passa por conseguir fazê-lo desligando das restantes obrigações e deveres do nosso dia a dia. Por essa razão, o texto de hoje foca-se numa competência que considero ser transversal a qualquer forma de auto-cuidado: a capacidade de permanecer no momento presente – ou se quisermos, o mindfulness.

Muito se tem escrito sobre este assunto e todos os dias se descobrem novas aplicações desta técnica, umas mais uteis e realistas que outras, contudo o conceito de mindfulness pode ainda estar pouco claro para quem não o conhece. Vemos frequentemente o conceito associado à meditação, mas será essa a única forma de praticá-lo? E quando falamos em prática, será necessário despender de horas a fio, todos os dias, para colhermos algum ganho? Vejamos então:

Afinal de que falamos quando falamos de midnfulness?

Grosso modo, o conceito de mindfulness deriva do estudo científico da meditação budista. No entanto como já referi, a meditação não é a única forma de o cultivar. Para que fiquemos com uma definição mais clara, gostaria que mantivesse em mente que o mindfulness é “o acto intencional de focar a atenção no presente” (Linehan citado por Baer, 2018) – isso mesmo, é uma forma muito específica de focar a atenção. Mas aparentemente, esta forma de atenção pode trazer-nos inúmeros benefícios. Vejamos quais são:

O que nos dizem os estudos?

Uma revisão sistemática de literatura de Creswell (2017) aponta que a prática regular de mindfulness pode ajudar a reduzir uma vasta gama de sintomas fisiológicos associados ao stress, aumentando também a qualidade de vida do praticante. Já ao nível da saúde mental, a prática de mindfulness parece ser especialmente benéfica para a redução e gestão da depressão e da ansiedade, melhorando também certas funções mentais como é o caso da atenção.

Mas qual a utilidade desta prática para mim?

A minha sugestão para que o leitor experimente a prática de mindulness debruça-se sobre a questão da intencionalidade: muitas vezes queremos mudar-nos, ou mudar algo na nossa vida. Porém, nem sempre é fácil manter-nos focados na mudança. Poderá estar a perguntar o leitor:Como é que o mindfulness pode ajudar neste ponto? Ora bem, na minha opinião, a prática deliberada do foco atencional no presente ajuda-nos a tomar consciência de nós próprios, dos nossos estados internos, das nossas reacções e das nossas necessidades. Nesse sentido, estar presente no aqui e no agora e conseguir observar cada momento à medida que o vivemos permite-nos escolher como responder às nossas experiências. Assim, perante o stress do dia a dia, podemos mais facilmente perceber que pode ser uma boa hora para fazer uma pausa, ou para procurar alguém com quem possamos conversar sobre um assunto que esteja a ser difícil para nós. Mas isto não significa que esta capacidade sirva apenas nos momentos negativos, estar presente pode ser particularmente frutífero quando escolhemos dedicar-nos a nós ou àqueles que mais gostamos, mantendo-nos ali, onde nada mais importa. Só nós, e quem ou o que mais precisamos.

Tenho interesse, o que posso tentar?

No inicio da rúbrica frisei ao leitor que a prática de mindfulness não se cinje unicamente à meditação. Contudo, volto atrás na minha palavra e recomendo-lhe que comece por aí. Atenção, meditar não implica acender uma dúzia de velas e incensos e tornar-se no novo Dalai Lama da Europa Ocidental. Como expliquei no inicio, apenas é necessário sentar-se num local onde não seja incomodado e onde possa focar a atenção na sua respiração. Se desejar experimentar com instruções guiadas aqui tem uma ligação que lhe permitirá perceber como tudo funciona.

Quanto tempo deverei dedicar a esta prática?

Caro leitor, como em grande parte das coisas da vida: Não há uma receita universal para todos. O que os estudos nos mostram é que os ganhos obtidos são mais pronunciados à medida que o tempo de prática avança. O meu conselho para já é que experimente e tente perceber quais os formatos que resultam para si, tente perceber que diferenças nota com a prática e crie um regime de prática adequado às suas necessidades. O autocuidado implica adequar as nossas práticas às nossas necessidades e a melhor maneira de o fazer é experimentando :)!

 

Referências Bibliográficas:

Baer, R. (2018). Mindfulness Practice. Em:  Hayes, S. C., & Hofmann, S. G. (1ª Ed.). Process-based CBT: The science and core clinical competencies of cognitive behavioral therapy. Oakland: New Harbinger Publications.

Creswell, J. D. (2017). Mindfulness interventions. Annual Review of Psychology, 68(1).

 

Texto de Rodrigo Pires

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Psicologia

Quer falar-me melhor sobre isso? Auto cuidado.

Olá de novo caro leitor, espero que se encontre bem. Até agora tenho escrito sobre a utilidade da psicologia ao serviço do ser humano, na tentativa de desmistificar ou clarificar algumas concepções que possam ser ter vindo a ser criadas por outras fontes fora da psicologia. Começarei a rúbrica de hoje com uma pequena analogia: Todos os anos, por volta do inicio da época do inverno começam a surgir as recomendações de vacinação contra a gripe – com especial foco nos grupos vulneráveis. A prevenção é uma estratégia muito eficaz de redução dos problemas de saúde, poupança de recursos e com a qual todos saímos a ganhar. Contudo, a vacinação não é uma realidade aplicável ao campo da saúde mental…ou será que sim? Existirão formas de nos protegermos a nós e à nossa saúde mental? E se, caro leitor, lhe dissesse que elas existem e estão à disposição de qualquer pessoa? Se continua interessado, avancemos então, vou mostrar-lhe um pouco do que estou a falar.

A ciência psicológica tem vindo a dar algumas respostas neste sentido, vejamos: No campo de estudo da saúde mental, os psicólogos têm ao longo das décadas identificado aspectos que, quando presentes, podem aumentar ou reduzir a probabilidade que os seres humanos possuem de desenvolver problemas relacionados com a sua saúde psicológica. Por motivos de espaço, não falarei muito sobre este assunto, mas o importante a reter é que denominamos os factores que reduzem esse risco de “Factores Protectores”. Alguns factores protectores são inerentes aos seres humanos e por essa razão muito complicados de influenciar (pensemos por exemplo nos determinantes biológicos). Contudo, existem outros que podem ser adquiridos ou desenvolvidos (darei aqui como exemplo a prática de exercício físico, que hoje em dia se sabe ser um factor protector da saúde mental (Korge & Nunan, 2018) ).

Portanto, existem certos aspectos que podemos desenvolver para melhor cuidar da nossa saúde psicológica. Estes aspectos, na forma de hábitos, comportamentos ou atitudes podem ser designados de “auto cuidado”. Irei agora falar um pouco melhor sobre alguns aspectos associados a este termo:

Mas como assim “Auto cuidado”?

Eventualmente, alguns dos nossos leitores podem já ter dado por si a ponderar hipóteses de auto cuidado como “Vou começar a praticar desporto” ou “Vou começar a descansar mais”  para no entanto as realizar apenas pontualmente. No entanto, ao invés de pontual, o auto cuidado deve tornar-se parte integrante do nosso dia a dia para que nos seja realmente proveitoso (Pulianda, 2017). É também importante relembrar que quando falamos neste assunto, quantidade e qualidade são conceitos bem diferentes. Muito facilmente poderemos cair na ideia de que para cuidar bem de nós temos de nos envolver em acções, actividades, desenvolver projectos e, em suma, continuar a trabalhar. Contudo, para alguns de nós, o melhor auto cuidado poderá consistir em aprender a desligar: Tirar férias, descansar, conciliar melhor o trabalho com o lazer e no fundo, permitir-se disfrutar a vida. O importante, por isso, é não empreender um plano ambiciosíssimo de desenvolvimento e melhoria pessoal, mas sim perceber o que nos ajuda a viver melhor e a atenteder às nossas necessidades. (Pulianda, 2017).

Epílogo.

Esta rúbrica dá inicio a uma nova série no blog sobre auto cuidado. Nos próximos meses irei escrevendo sobre algumas das suas várias formas. Ao leitor lanço o repto de acompanhar os próximos lançamentos e se lhe aprouver, experimentar algumas das formas que aqui apresentarei. É certo que nenhuma forma de auto cuidado será uma cura para todos os males, nem tão pouco irá substituir a ajuda profissional quando necessário. Contudo, cuidar de nós é um investimento que trará inúmeros ganhos a quem estiver disposto a fazê-lo, ajudando-nos a manter a nossa saúde física e mental mesmo na presença de sobrecargas/dificuldades  – ou como os psicólogos adoram chamar-lhe: ser mais resilientes (Sapienza & Masten citado por Chmitorz et al., 2018)

“Posso ter defeitos, viver ansioso e ficar irritado algumas vezes,

mas não me esqueço de que a minha vida é a maior empresa do mundo,

e posso evitar que ela vá à falência.”

Fernando Pessoa.

 

Referências Bibliográficas:

Chmitorz, A., Kunzler, A., Helmreich, I., Tüscher, O., Kalishc, R., Kubiak, T., … Lieb, K. (2018). Intervention studies to foster resilience –A systematic review and proposal for a resilience framework in future intervention studies. Clinical Psychology Review, 59, 78–100. Doi: https://doi.org/10.1016/j.cpr.2017.11.002

Korge, J. & Nunan, D. (2018). Higher participation in physical activity is associated with less use of inpatient mental health services: A cross-sectional study. Psychiatry Research, 259, 550–553. doi: https://doi.org/10.1016/j.psychres.2017.11.030

Pulianda, M. (2017, Maio 25). The Self-Care Reality Check – I don’t really like yoga, and other confessions. Retirado de: https://www.psychologytoday.com/blog/the-in-between/201705/the-self-care-reality-check

 

Texto de Rodrigo Pires

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rodrigopiresuevora@hotmail.com

Psicologia

Sobre o Amor

A aproximação do dia 14 de Fevereiro, ou dia de S. Valentim, ilustra o nosso cotidiano com cores fervorosas, peluches sorridentes e frases calorosas. A palavra Amor é elevada ao expoente da loucura e apregoada em todas as freguesias como um sermão do Padre António Vieira. No entanto, tal como os peixes, também alguns terráqueos parecem padecer de memória curta, lembrando apenas o conceito da palavra Amor durante os saldos da Victoria Secret e durante as campanhas que o sector do turismo promove para que todos (as) possamos ser atingidos (as) pela flecha do cupido à mesa de um bom restaurante (1 estrela Michelin, mínimo!) ou num spa com circuito termal rejuvenescedor.

Não me interpretem mal, não sou contra estas pequenas manifestações materialmente amorosas e confesso que já sorri genuinamente ao receber um peluche com um coraçãozinho a dizer “I Love You”. Apenas acredito que os detalhes supérfluos só fazem sentido se o Amor já é “presenteado”, expressado e experienciado diariamente através do olhar, do abraço, através dos afetos.

O Amor é despretensioso. O Amor não é de modas nem se maquilha. O Amor é o Amor, sem heterónimos. Sem amarras da efusividade da flecha do Cupido com duração limitada.

O amor não significa borboletas no estomago, nem significa viver incendiado pelo Outro, consumido por e consumindo um “fogo que arde sem se ver”.  O Amor, acreditamos, transcende essa agitação quase fisiológica. Amar trata-se de viver o desassossego em sossego. Viver o outro e com o Outro, amar é respirar o Nós sem comprometer o Eu. Amar eleva-se à paixão. O Amor permite às borboletas planar sobre as nuvens, acalmando o frenesim do voo caótico que desperta as nossas entranhas e leva às “arritmias românticas” e às contrações estomacais.

Amar é ter espaço para existir, não é ser consumido no e pelo fogo, amar é acender a lareira e deixar o fogo respirar, fazendo com que este não extinga. Amar é lançar achas para uma fogueira que não nos derrete, mas nos aquece.

Na minha freguesia o sermão dita que o Amor é vivenciado antes de ser materializado. Na minha freguesia o Amor não é apregoado antes de ser definido.

 

Texto de Filipa da Piedade Rosado

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Psicologia

Quer falar-me melhor sobre isso? Algumas reflexões sobre a mudança.

Olá de novo caro leitor, bom ano novo! É frequentemente nesta altura que nos encontramos a planear os próximos 365 dias, alguns traçam até objectivos para a atingir no ano vindouro (as chamadas “Resolutions” pelos anglo saxónicos) e por essa razão iremos hoje debruçar-nos sobre o conceito da mudança.

A mudança é um conceito central em psicologia e em psicoterapia. Porém, no mundo académico ainda hoje nos debruçamos sobre a pergunta “Como mudam as pessoas?”. Existem hoje diversas teorias que tentam explicar esse fenómeno e hoje apresento uma que nos poderá ajudar a pensar um pouco sobre “O que é mudar?”.

O modelo em questão denomina-se “O Modelo Transteórico dos Estágios de Mudança” e foi criado por James Prochaska e Carlo DiClemente, dois psicólogos norte americanos. Actualmente, este é um dos modelos mais conhecidos da mudança e defende que a mudança é um processo que ocorre por intermédio de um conjunto de etapas pelas quais um individuo passa. São elas [1]:

  1. Pré contemplação – não existe uma intenção de mudar num futuro próximo.
  2. Contemplação – Inicio do reconhecimento da necessidade de mudança e ponderação dos prós e dos contras da mesma.
  3. Preparação para Acção – Preparação para iniciar a mudança; começo dos primeiros passos na sua concretização.
  4. Acção – A pessoa toma passos concretos para alterar o seu comportamento ou desenvolver novos hábitos mais saudáveis.
  5. Manutenção – A acção mantém-se há pelo menos seis meses e existe um investimento na prevenção da recaída.
  6. Recaída – Existe uma regressão para fases anteriores do processo de mudança.

Devemos pensar nas seguintes etapas como parte de um ciclo. Idealmente, a mudança conclui-se na fase da manutenção, onde se consolida até se tornar um novo hábito. O facto da recaída ser mencionada por este modelo não significa que ela ocorra sempre, mas sim que pode ser uma consequência possível do processo da mudança (ex. – alguém que volta a fumar após décadas de abstinência).

Um pequeno passo para o Homem, um grande passo para a mudança

Coloquemos agora a teoria de parte e façamos agora a questão que realmente importa: “Em que é que isto me pode ser útil?”. Na minha opinião, o leitor está perante um bom exercício mental que poderá realizar consigo mesmo em qualquer altura em que deseje mudar algo em si. Como? Em seguida explicarei:

Se bem se lembra, comecei por falar nas resoluções de ano novo no início deste texto porque muitos de nós começam o ano com aspectos da sua vida que desejam melhorar. No entanto, no plano das nossas ideias as coisas correm sempre de forma mais fácil do que na prática e muitas vezes acabamos por desistir de mudar coisas que gostaríamos, ou reorientar os nossos desejos de modo a atingir um nível intermédio entre o nosso estado inicial e o nosso estado ideal.

O importante é perceber que a mudança é um processo e não um estado. Ou seja, não passamos de estar “não mudados” para “plenamente mudados”. A mudança é gradual, implica esforço, tentativas, falhas, mas também sucessos. Implica começar a desenvolver esforços para chegar onde queremos e acima de tudo, perceber aquilo que resulta para nós. Por essa razão, a mudança não é um processo igual para todos, algumas pessoas terão mais facilidade em trabalhar sobre determinados aspectos, outros nem tanto, mas isso não significa que seja impossível mudar. Acima de tudo, se queremos mudar algo em nós mas por alguma razão nos sentimos constantemente a regressar à estaca zero, talvez seja um sinal de que precisamos de ajuda a chegar onde queremos.

É aqui que a Psicologia pode entrar ao serviço do leitor. As intervenções psicológicas (nas quais se inserem a psicoterapia, por exemplo e na qual temos vindo a falar nos últimos tempos) são uma ferramenta que se encontra ao serviço do cliente para o guiar na direcção que mais lhe aprouver: Seja uma mudança com vista ao próprio bem-estar, à alteração de formas de pensar, sentir ou agir, padrões de relacionamento, adopção de novos hábitos de vida, mudança de carreira, melhor gestão do tempo, conciliação entre o trabalho e a família e muitas outras finalidades. Como já referi outras vezes por aqui: se o leitor está em dúvida ou com dificuldades, consulte um psicólogo!

Em suma, as mensagens que pretendo passar ao leitor com esta pequena rúbrica são:

  1. Mudar implica um processo contínuo de investimento nos nossos objectivos.
  2. No entanto, a mudança é algo em constante transformação: Poderemos estar plenamente motivados em alguns momentos, noutros poderemos ver-nos tentados a deixar o progresso que já alcançámos. Para além disso, existirão alturas em que mudar será mais fácil do que noutras. Tudo isso é normal e faz parte do processo.
  3. O processo de mudar algo em nós não é universal: algumas pessoas terão mais dificuldades do que outras em determinadas áreas, ou até, em fases diferentes do processo. É importante que não nos deixemos levar por comparações com terceiros ou até com as nossas próprias expectativas sobre o que seria “o ideal” para nós.
  4. A mudança é uma aprendizagem: Através dos nossos esforços e/ou do apoio de outros vamos aprendendo o que nos ajuda a chegar onde queremos e o que não resulta para nós.
  5. Por vezes podemos querer mudar coisas que fazem parte de nós e da nossa vida mas reparar que voltamos constantemente à estaca zero. Nestes casos poderá ser uma boa altura para procurar o auxílio de um profissional especializado que nos ajude a chegar onde queremos.

Referências:

  1. Prochaska, J., O. & Prochaska, J., M. (2016). Changing to thrive: Using the Stages of Change to Overcome the Top Threats to your Health and Happiness. Minnesota: Hazelden Publishing.

 

Texto de Rodrigo Pires

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rodrigopiresuevora@hotmail.com

Psicologia

Quer falar-me melhor sobre isso? A relação terapêutica.

Olá de novo caro leitor, se tem acompanhado a minha rúbrica no Life Quadrants lembrar-se-á de que este é o último de uma série de três textos que procuram iluminar um pouco o conceito de “Psicoterapia”. Ao longo do tempo tenho referido várias vezes a importância do conceito de relação terapêutica na concepção de “psicoterapia”, contudo, até ao momento esse conceito não foi ainda aprofundado. Por essa razão, o propósito desta rúbrica é o de elucidar, o melhor possível, que tipo de relação caracteriza esta prática. Não esconderei ao leitor que não será tarefa fácil, uma vez que este assunto é tema de debate há várias décadas na comunidade científica de psicologia e que tem dado origem a muitas páginas sobre o assunto. Preparado? Aqui vamos então:

Como ponto de partida, comecemos por dizer que a psicoterapia funciona como um “microcosmo” da vida do cliente (Spinelli citado por Finlay, 2016). Tal significa que é através dela que, momento-a-momento, o terapeuta consegue observar como os seus clientes sentem, pensam e vêem o seu mundo psicológico e social – ou ainda, de que forma se relacionam com o mesmo. Este processo estende-se também para o terapeuta, e neste sentido, é na relação terapêutica que a vida relacional do cliente se revela. Mas quererá isso dizer que a relação terapêutica é sinónimo de uma relação de proximidade e amizade? Bem, a resposta é sim e não. Na relação terapêutica o terapeuta mostra-se como uma figura presente, segura, constante e incondicionalmente disposta para estar com o cliente (Filnlay, 2016), o que significa que independentemente do sucedido, ele estará lá para o escutar e aliviar o seu sofrimento. O terapeuta procura também comunicar genuína e honestamente, permitindo-se ser emocionalmente “tocado” pelo cliente (Jacobs citado por Finlay, 2016).

Outra qualidade da relação terapêutica é o seu cariz colaborativo, o que significa que é uma relação que implica não uma postura assimétrica entre um “especialista” e um “doente”, mas sim uma relação em constante transformação, evolução e negociação que é co-criada por dois seres humanos que se encontram com o objectivo de promover o desenvolvimento e o bem-estar daquele que procura ajuda (Evans & Gilbert citado por Finlay, 2015). Ainda assim, devemos pensá-la como uma relação que implica alguma desigualdade, pois o centro das atenções reside em última instância no cliente e no seu bem-estar. Para além disso, salvo raras e devidas excepções, a relação terapêutica é circunscrita ao contexto específico da terapia – algo a que nós psicólogos denominamos de setting terapêutico.

Em suma, a relação terapêutica que caracteriza a psicoterapia, é uma relação que procura criar as condições ideais para fomentar a mudança e o bem-estar do cliente. É uma relação que implica segurança, empatia, respeito, compaixão e de ausência de julgamento de qualquer aspecto que o cliente leve à terapia.

Ao longo da história da psicoterapia, o papel da relação terapêutica tem sido cada vez mais estudado e investigado, sendo que, como já referi em textos anteriores, actualmente existem evidências que parecem indicar que a qualidade da relação terapêutica contribui mais do que a utilização de técnicas específicas no alívio do sofrimento humano. Por esta razão e como já começa a ser tradição nas minhas rúbricas do LQ, termino com uma citação de John Norcross (2011) sobre o assunto:

A psicoterapia é na sua essência uma relação humana. Mesmo quando feita à distância ou via computador, a psicoterapia é, irredutivelmente, um encontro humano. Ambas as partes trazem aspectos de si – as suas origens, culturas, personalidades, psicopatologia, expectativas, vieses, defesas e forças – para a relação humana. Alguns defenderão que a relação é um pré-requisito da mudança e outros um processo da mudança, no entanto, todos concordam de que se trata de um investimento relacional. (p.429) “

 

Referências:

            Finlay, L. (2016) Relational Integrative Psychotherapy: Engaging Process and Theory in Practice. West Sussex: John Wiley & Sons Ltd.

            Norcross, J. C. (2011) Psychotherapy Relationships that Work: Evidence-Based Responsiveness. Nova Iorque: Oxford University Press.

 

Texto de Rodrigo Pires

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rodrigopiresuevora@hotmail.com

Psicologia

Quer falar-me melhor sobre isso? O propósito da psicoterapia.

Olá de novo caro leitor, se tem acompanhado o meu trabalho lembrar-se-á de que na minha última rúbrica começámos a explorar o conceito de psicoterapia falando sobre as várias maneiras de a praticar. Concluímos que existem diversos modelos teóricos, com diferentes formas de realizar o trabalho psicoterapêutico e que, segundo a investigação, parecem ter níveis de eficácia equivalente. Para continuarmos a explorar o conceito, hoje pretendo focar-me na questão “Qual o propósito da terapia?”. O leitor poderá neste momento estar a pensar “A cura/alivio dos sintomas de problemas de saúde mental!”, embora concorde parcialmente torno a lançar a dúvida: será apenas esse? Trago hoje três estudos que nos fornecem algumas conclusões interessantes sobre o assunto.

Para começar, considero que ninguém melhor para nos ajudar a compreender o propósito da psicoterapia que os seus próprios clientes. Um estudo de 2015 desenvolvido por Olivera, Penedo e Roussos propôs-se a estudar em antigos clientes de psicoterapia, a percepção do que mudou e as razões que os levou a procurar a terapia. Através de entrevistas a antigos clientes de psicoterapia descobriram que as principais razões de consulta foram: Problemas interpessoais (i.e. problemas conjugais, com a família etc), Problemas emocionais (nomeadamente depressão, ansiedade, entre outros) e Crises Relacionadas a eventos de vida (i.e. Divórcios, entre outros). Os autores classificaram os tipos de mudança referidos pelos participantes como: Mudanças cognitivas (i.e. mudança da forma de pensar ou de processar os acontecimentos à sua volta); Mudanças emocionais (i.e. diminuição de depressão ou ansiedade); Melhoria da qualidade de vida (i.e. melhoria do bem-estar e da vontade de viver); Mudanças interpessoais (i.e. mudanças nas relações com os outros); Mudanças intrapessoais (i.e mais aceitação de si, maior autoconfiança) e Mudança de comportamentos (i.e mudança da forma de responder às situações). A maior parte dos participantes referiu notar mudanças em mais do que uma área.

Em 2010, outro estudo desenvolvido por Binder, Holgoersen e Nielsen procurou responder à questão “O que é um bom ganho terapêutico para o cliente de psicoterapia?” e para o efeito entrevistaram antigos clientes de psicoterapia e descobriram cinco temas importantes: Desenvolver novas formas de se relacionar com os outros – nomeadamente, uma maior segurança, autenticidade, assertividade, sensibilidade e empatia nas relações; Redução dos sintomas; Mudanças no comportamento relacionado ao sofrimento; Melhor capacidade de introspecção e auto-compreensão e melhor aceitação e valorização de si próprio.

Estes dois estudos elucidam aspetos importantes relativamente à pergunta que lancei ao leitor no parágrafo anterior. Em primeiro lugar, percebemos que a psicoterapia pode servir não apenas para redução ou gestão de sintomas do nosso sofrimento psicológico, mas também como forma de suporte e amparo a problemas de relação com os outros ou a eventos de vida que nos causem impacto. Em segundo, podemos perceber que os ganhos psicoterapêuticos não se limitam exclusivamente à eliminação do sofrimento. De facto, estendem-se bem para lá disso, permitindo mudar a nossa forma de pensar sobre nós, os outros e o mundo, mudar os nossos estados emocionais, ajudar-nos a viver melhor e melhorar a nossa relação connosco e com os outros.

Há no entanto outra pergunta que me parece ser pertinente fazer se queremos perceber as implicações do propósito da psicoterapia. Se por um lado a investigação parece apontar para o potencial de uma panóplia de mudanças, até que ponto a terapia pode verdadeiramente mudar-nos? Roberts e colaboradores publicaram este ano uma meta análise[1] sobre o efeito da psicoterapia nos traços de personalidade que traz algumas conclusões interessantes a esse respeito. Em mais de 200 estudos diferentes, os autores verificaram que existem mudanças nos traços de personalidade após intervenção psicoterapêutica, sendo que os dois traços de personalidade que mostraram uma mudança positiva mais acentuada denominam-se de estabilidade emocional[2] e extraversão[3]. Os autores referem que os seus dados corroboram a ideia de que a psicoterapia pode levar a uma alteração duradoura da personalidade e que esta não parece estar associada a um típico específico de modalidade terapêutica. Os autores referem ainda que embora exista a possibilidade de que as mudanças se desvaneçam com o tempo, a evidência parece apontar que tal não sucede.

Considerações finais

            Como o leitor certamente poderá imaginar, este pequeno texto não pode fazer jus a toda a literatura existente sobre psicoterapia, pelo que poderão existir outros estudos igualmente relevantes que não estão aqui incluídos. No entanto, o propósito da apresentação destas três investigações é apenas testar algumas concepções que podemos ter sobre esta área, influenciadas pela ideia socialmente construída daquilo que é a psicoterapia.

            Mais uma vez reitero, a psicoterapia (e por conseguinte, a psicologia) é uma poderosa forma de nos ajudar a viver melhor, mais estáveis e mais livres. Embora a ideia de eliminação de sintomas não esteja totalmente errada, para alguns modelos teóricos não é sequer o foco da intervenção (i.e. pode ser encarada como um subproduto da mudança). Como pudemos ver, há uma grande quantidade de situações que podem ser indicadas para trabalhar em psicoterapia sem que tal implique uma gestão ou eliminação de sintomas. Se ainda estiver céptico, ficam então as palavras de Norcross, um reconhecido investigador na área, sobre o conceito de psicoterapia: “A psicoterapia é a aplicação intencional e informada dos métodos clínicos e posturas interpessoais derivadas de procedimentos psicológicos estabelecidos para o propósito de assistir pessoas na modificação dos seus comportamentos, pensamentos, emoções e/ou outras características pessoais na direcção considerada desejável pelos participantes” (Norcross citado por APA, 2013).

Referências Bibliográficas:

American Psychological Association. (2013). Recognition of psychotherapy effectiveness. Journal of Psychotherapy Integration, 23(3), 320-330. http://dx.doi.org/10.1037/a0033179

Binder, P. E., Holgersen, H., & Nielsen, G. H. (2010). What is a “good outcome” in psychotherapy? A qualitative exploration of former patient’s point of view. Psychotherapy Research, 20, 285-294. doi:10.1080/10503300903376338

Olivera, J., Braun, M., Gómez Penedo, J. M., & Roussos, A. (2013). A qualitative investigation of former clients’ perception of change, reasons for consultation, therapeutic relationship, and termination. Psychotherapy: Theory, Research, & Practice, 50, 505–516. http://dx.doi.org/10 .1037/a0033359

Roberts, B. W., Luo, J., Briley, D. A., Chow, P. I., Su, R., & Hill, P. L. (2017). A systematic review of personality trait change through intervention. Psychological Bulletin, 143(2), 117-141. doi:10.1037/bul0000088

[1] Tipo de estudo que procura analisar um grande número de estudos diferentes sobre um determinado tema de modo a integrar e resumir os seus resultados.

[2] A capacidade de manter um equilíbrio emocional em circunstâncias stressantes.

[3] Grau de sociabilidade e assertividade de um individuo.

 

Texto de Rodrigo Pires

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rodrigopiresuevora@hotmail.com

Psicologia

Geração One-Night Stand

Hoje venho falar-vos de um tema que se insere dentro de um dos Life Quadrants que considero ser, simultaneamente, um dos pilares da nossa civilização: a Relação. Mais concretamente, venho falar-vos de um fenómeno polémico e provocador que, ao longo da última década, tem vindo a captar o interesse da comunidade cientifica, ao ter ganho uma expressão tremenda nas dinâmicas relacionais dos (as) nossos (as) jovens. Hoje, venho falar-vos do fenómeno do One-Night Stand.

Os One-Night Stands (ONS) – encontros breves de sexo ocasional – têm vindo a enraizar-se no seio das dinâmicas dos (as) estudantes no Ensino Superior. Contexto onde diversos estudos têm encontrado uma taxa de prevalência desta prática superior a 50% (Claxton & vanDulmen, 2013; Garcia, Reiber, Mass & Merriwether, 2012; Stinson, 2010). As relações românticas (como o namoro), que outrora dominavam o campus académico, hoje praticamente despareceram do reportório comportamental dos (as) estudantes (Glenn & Marquardt, 2001) que substituíram os afetos pelo sexo e o compromisso pela diversão. Popularizando e normatizando as práticas de Sexo Ocasional (Paul, McManus & Hayes, 2000; Garcia, Reiber, Massey & Merriwether, 2012), colocando o One-Night Stand como a principal forma de interação íntima entre jovens heterossexuais no Ensino Superior (Bogle, 2008; Grello, Wesh & Harper, 2006; McAnulty, 2012; Townsend & Wasserman, 2011).

Embora estes dados sejam consistentes com a Teoria da Adultez Emergente (Arnett, 2000) que defende que este período de desenvolvimento, rico em oportunidades de transformação do self, leva a que os (as) jovens sucumbam à ânsia da experimentação sem olhar às consequências, a incursão em ONS não está isenta de riscos. Associada a elevados consumos de álcool e à prática de sexo desprotegido, coloca os (as) jovens em rota de colisão com DSTs, gravidezes indesejadas, violações e agressões, e despoleta sentimentos de arrependimento, culpa e vergonha (Campbell, 2008). Foi a consciencialização do paradoxo entre esta alteração na estrutura das relações sociais dos (as) jovens e os riscos que poderão advir da prática de ONS, que deu o mote ao estudo que realizei no âmbito da minha dissertação de mestrado e que, em seguida, vos descrevo de forma breve.

OBJETIVO DO ESTUDO: Explorar a vivência do fenómeno do ONS. Compreender as suas definições e funções, os sentimentos e pensamentos associados às suas dinâmicas e explorar o papel do Ensino Superior na prática de sexo ocasional.

MÉTODO: A amostra contou com a participação voluntária de 11 estudantes do sexo masculino (subgrupo masculino) e 11 estudantes do sexo feminino (subgrupo feminino) de 1o ciclo da Universidade de Évora, com idades compreendidas entre os 18 e os 25 anos. Todos (as) os (as) participantes reportaram já ter incorrido, pelo menos uma vez, num ONS.

Selecionámos como instrumento principal a entrevista semiestruturada e realizámos um pequeno estudo piloto com o fim de averiguar o caráter unívoco dos itens o guião. As entrevistas foram realizadas presencialmente. Os dados foram analisados através da análise de conteúdo com o seguinte procedimento: (1) leitura flutuante e análise te- mática do corpus, (2) agrupamento diferencial dos dados em termos de conteúdo e (3) repetição do processo de codificação para averiguar a estabilidade temporal dos resultados. Recorremos a um juiz independente, com o qual refletimos, conjuntamente, o processo.

RESULTADOS: Ambos os subgrupos consideraram a prática uma interação física. No entanto, tanto rapazes como raparigas se mostraram confusos relativamente ao caráter exclusivamente sexual desta interação e algumas diferenças de género começaram a ganhar forma através das definições que os (as) jovens atribuem ao ONS. As funções que o ONS subjaz na vida relacional dos (as) jovens apareceram muito centradas no Self, desvalorizando e instrumentalizando o (a) parceiro (a), que é utilizado (a) unicamente para gratificar este Self. Parecendo a experiência não contribuir para a descoberta do Outro ou para a descoberta de um Eu relacional. O momento que antecede o encontro foi realçado como o mais gratificante para os rapazes, com 73% a relatarem sentir desejo sexual, contra apenas 27% das raparigas. Para estas é a adrenalina e a ausência de pensamentos que domina este momento pré-incursão. Durante o encontro, 63% dos rapazes e 54% das raparigas reportam não ter qualquer sentimento ou pensamento, parecendo sugerir que a passagem ao ato leva ao desvanecimento do prazer. Após o ONS, a experiência parece remeter 73% dos rapazes para um paradoxo entre o sentimento de bem estar (físico e psíquico) e o aparecimento de sentimentos de arrependimento

Para 82% dos rapazes e 73% das raparigas é a universidade que incita e promove a incursão em One-Night Stand. Ambos os subgrupos destacaram o facto de terem mais autonomia e menos controlo parental, a pluralidade (na oferta) de interações sociais, a falta de imposição de responsabilidades adultas e a normatização das práticas sexuais como as principais caraterísticas que, neste contexto, promovem o ONS.

Em suma, o estudo pareceu sugerir que a incursão em ONS é mais intencional nos rapazes do que nas raparigas, dado que para estas o consumo de álcool e a ausência de pensamentos são os propulsores que levam à experiência. O ONS não parece ser sentido como uma experiência gratificante nem pessoal nem sexualmente, particularmente para as raparigas. Embora a falta de proteção tenha sido referida como comum nestes encontros, apenas 18% dos rapazes e 45% das raparigas afirmaram que não usar preservativo os (as) levaria ao arrependimento.

Ainda que os resultados do estudo não possam ser generalizados a toda a comunidade académica, esperamos ter fomentado a critica entre os nossos leitores, a quem deixamos uma reflexão de Mario Vargas Llosa (na sua obra “La Civilización del Espectáculo)

o ato sexual retorna a ser un ejercicio puramente físico (…)en el organismo humano de la que el hombre y la mujer son meros instrumentos pasivos (…) desacralizar la vida sexual convirtiéndola en una práctica tan común y corriente como comer, dormir e ir al trabajo, tengan como consecuencia desilusionar precozmente a las nuevas generaciones de la práctica sexual. Ésta perderá misterio, pasión, fantasía y creatividad y se habrá banalizado hasta confundirse con una mera calistenia(Vargas Llosa, 2012).

  • Arnett, J. (2000). Emerging adulthood: A theory of development from the late teens through the twenties. American Psychologist, 55, 469-480. doi:10.1037/0003066X.55.5.469
  • Bogle, K. A. (2008). Hooking-Up: Sex, Dating and Relationships onCampus.NewYork:NewYorkUniversityPress.
  • Campbell,A.(2008). AffectivereactionstoOne-NightStandsamongMatedandUnmatedWomenandMen.HumanNature,19,157-173.doi:10.1007/s12110-008-9036-2.
  • Claxton, S. & van Dulman, M. (2013). Casual Sexual Relationships and Experiences in Emerging Adulthood. Society for the Study of Emerging Adulthood, 1, 138-150. doi: 10.1177/2167696813487181 // Garcia, J., Reiber, C., Massey, S. & Merriwether, A. (2012). Sexual Hookup Culture: A Review. Review of General Psychology, 16, 161-176. doi: 10.1037/a0027911 // Stinson, R. (2010). Hooking Up In Young Adulthood: A Review of Factors Influencing the Sexual Behavior of College Students. The Journal of College Stu- dents Psychotherapy, 24, 98-115. doi: 10.1080/87568220903558596
  • Mario Vargas Llosa. La civilización del espectáculo. Santillana Ediciones Generales, S.L. Alfaguara.

 

Texto de Filipa da Piedade Rosado

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filipa.p.rosado@gmail.com