Nutrição

Comfort food e fome emocional

“Desde que me casei que engordei. A minha esposa tem mão para a cozinha”, “é delicioso não dá para comer só um”, “Estou cheio mas para a sobremesa arranja-se sempre um espacinho”, “comi pouco, a comida estava sem sabor”.

No nosso dia a dia é fácil concluir que comemos mais quando a comida nos sabe melhor. A literatura científica parece concordar que comemos para além das nossas necessidades quando a componente hedónica da refeição é mais forte. Ou seja, refeições que nos dão prazer estimulam-nos a comer mais. Estas refeições são normalmente ricas em açúcar, sal e/ou gordura.

Atualmente surgiu um novo título para refeições apetitosas: “comfort food”. As comidas de conforto não são mais do que refeições saborosas, normalmente com um equilíbrio entre açúcar, sal e gordura. Há uma explicação para este nome. Sabemos, por exemplo, que após uma refeição rica em hidratos de carbono, a libertação de insulina estimula a libertação do neurotransmissor serotonina dando-nos uma sensação de conforto e relaxamento. Mas se é certo que comer nos dá prazer será que procura-lo diariamente na comida é saudável?

A fome emocional é a procura de sensação de conforto na comida, o chamado “ não é fome, é vontade de comer”. Tema que deixarei em aberto para os psicólogos do Life Quadrants. Num processo de emagrecimento, especialmente em dietas muito restritas, um estado de depressão transitória associado ao défice calórico e de hidratos de carbono é normal. Tentar comer refeições saborosas em pequena quantidade, quando o tacho cheio está na mesa, torna-se difícil e o estímulo para continuar a comer é grande.

Quando temos uma alimentação muito variada, cheia de sabores, cheiros e cores diferentes é possível que a tarefa de emagrecer seja um pouco mais difícil. É necessário controlar os impulsos, manter as quantidades estabelecidas, conhecer os alimentos e fazer as escolhas certas. Isso vai ser uma tarefa difícil sem a ajuda de um nutricionista.

A forma mais fácil de manter um peso adequado é tendo uma alimentação consistente e previsível. Falta de rotinas e excesso de palatabilidade das refeições levam a comer em mais quantidade comida que, muitas vezes, tem quantidades demasiado elevadas de energia, açúcar ou sal, que não são benéficos para a saúde em quantidades elevadas. As comidas de conforto são permitidas e podem fazer parte da nossa vida, especialmente em momento sociais, no entanto são pouco aconselhadas de forma rotineira para quem pretende perder ou manter o peso.

Algumas dicas:

  • Não leve os tachos para a mesa;
  • Faça comida à conta para as refeições que pretende fazer;
  • Sirva-se de uma só vez e evite petiscar;
  • Faça uma ementa semanal/mensal para casa;
  • Coma sopa ou legumes antes do prato principal para se sentir saciado mais cedo;
  • Nos restaurantes evite fazer refeições de 3 pratos (entrada, prato principal e sobremesa).

 

Texto de Ana Luísa Mousinho

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Nutrição

Sabores

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Quando o tempo é escasso e não sei o que fazer, vou para a despensa! 😉
A receita de hoje é Couscous Surpresa!

Ingredientes:
Couscous
Água
Coentros
Sementes de sésamo
Sementes de girassol
Duas variedades de cogumelos desidratados
Alho francês
Tomate
Açafrão
Pimenta
Sal
Azeite

Preparação:
Colocar num recipiente com água, durante 20 minutos, os cogumelos desidratados.
Cortar os vegetais todos em cubos ou tirinhas e saltear com sal, pimenta e coentros.
Colocar numa taça o Couscous e juntar água a ferver até ficar todo tapado.
Juntar o açafrão e com um garfo mexer.
Juntar o salteado ao Couscous, cortar coentros frescos e juntar. Só faltam as sementes.

Deliciem-se ❤️🤤

 

Receita da nossa parceira RitaPaparica

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Nutrição

Devo ou não comer fruta e quando?

Surpreendentemente esta é talvez uma das perguntas que mais vezes me fizeram e parece haver ainda algumas dúvidas e mitos sobre este assunto.

 “Dizem que não se pode comer fruta depois da refeição porque engorda“, “fruta não mata a fome“, “não se deve comer fruta porque a fruta também tem muito açúcar“, “comer fruta antes da refeição fermenta“.

Todos os guias alimentares internacionais, incluindo os portugueses, recomendam a ingestão de fruta todos os dias. Uma das conclusões mais sólidas nas ciências da nutrição é que o consumo de frutas e legumes tem benefícios significativos para a saúde. Estes benefícios devem-se ao seu teor em vitaminas, minerais e fibra. O seu consumo está relacionado com diminuição do risco de várias doenças crónicas como de doenças cardiovascularesdiabetes tipo II e alguns tipos de cancro como o do cólon e também parece ter um papel protetor interessante em doenças de origem inflamatória como a Alzeimer .

As fibras solúveis, presentes principalmente nas frutas e vegetais, contribuem para a normalização dos valores de colesterol e glicémia, aparentemente por diminuírem o ritmo da sua absorção. Se juntarmos alimentos com fibra às nossas refeições iremos sentir-nos saciados e satisfeitos mais rápido e por mais tempo. Para consumirmos a fibra recomendada por dia a melhor forma de o fazer é consumir 2 a 3 peças de fruta e vegetais todos os dias.

Antes de nos preocuparmos com o açúcar e calorias que duas peças de fruta nos dão (cerca de 150 calorias por dia) devíamos pensar nas 4 bolachinhas digestivas cheias de sal, gordura, açúcar e outros “não nutrientes” que nos oferecem cerca de 300 caloriasA fruta, como todos os outros alimentos, não engorda de forma isolada, apenas se consumirmos mais calorias do que aquelas que necessitamos vamos engordar. Antes de retirar a fruta da alimentação faz sentido pensar em retirar outros alimentos sem potencial protetor.

A fruta dá fome? Se o seu lanche habitual é constituido por um leite achocolatado e um croissant misto, ou uma taça de açai e granola e passa a consumir apenas uma peça de fruta, é natural que fique com fome. Não porque a fruta dê fome mas porque em vez de consumir quase 600 calorias consumiu só 80 calorias. As nossas refeições devem estar adaptadas às nossas necessidades e rotinas e uma fruta pode não ser o suficiente. Comer fruta não faz fome.

Quanto ao timing, pode ser interessante juntar a fruta às refeições por várias razões. O teor em vitamina C de algumas frutas como o kiwi, laranja, tangera e morangos auxilia a absorção de ferro dos produtos vegetais (grão, feijão, cereis integrais, etc.). Este facto pode ser especialmente interessante em vegetarianos, pessoas com anemia ferropriva (falta de ferro) ou senhoras durante a menstruação. Comer antes ou depois seráindiferente. Comer a fruta após uma refeição como sobremesa pode ser ótimo, especialmente se tem fome ou o está a fazer em detrimento de um doce.

fermentação não é um problema. O PH do estômago varia entre 1.5 e 3.5, muito ácido, neste ambiente as bactérias e leveduras têm dificuldade em sobreviver e dificilmente existirá fermentação que se torne desconfortável. A produção de gases intestinais é natural quando temos uma alimentação rica em fruta e legumes (fibras) e é essencial para a produção de vitamina K. O seu défice pode levar a problemas de coagulação, inflamação intestinal e deficiências no sistema imunitário.

Em suma, esforce-se por comer fruta e vegetais diariamente quando lhe apetecer.

 

Texto de Ana Luísa Mousinho

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Nutrição

Mas devo ou não evitar o glúten?

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Os últimos anos têm sido marcados por um aumento da discussão pública de temas relacionados com a alimentação. Jornais, revistas e redes sociais invadem-nos todos os dias com informação vinda das mais variadas fontes. O glúten, até então desconhecido da grande maioria da população, deixou de ser preocupação apenas dos portadores de doença celíaca, para a sua ausência num alimento ser usada como ferramenta de marketing, utilizada pela indústria alimentar, para aumentar a venda dos seus produtos. A discussão sobre o glúten tem tomado proporções desajustadas e muita confusão de informação que não tem resultado em melhor conhecimento. Mas afinal o que é o glúten e devemos ou não evitá-lo?

O glúten é uma proteína que se encontra naturalmente em alguns cereais como o trigo, centeio e a cevada. Esta proteína é composta por diferentes frações, as glutaminas e as prolaminas. Como todas as proteínas, o glúten para ser absorvido corretamente, deveria ser digerido por enzimas, geralmente até à forma de aminoácido, para poder passar na barreira intestinal e seguir o seu curso normal até ao fígado e posteriormente circulação geral. As nossas enzimas têm dificuldade em degradar estas proteínas, resultando fragmentos de dimensões demasiado grandes (dipeptidos). No entanto, estes dipeptidos conseguem passar a barreira intestinal também com a ajuda de uma outra proteína do glúten (gliadina), que facilita que moléculas grandes passem esta barreira. Os doentes celíacos reagem de forma muito agressiva com o sistema imunitário a responder exacerbadamente, criando lesões graves nas paredes intestinais que levam a dificuldade de absorção de outros nutrientes e consequente perda de peso, desnutrição, irritabilidade, depressão e diarreias frequentes. Estima-se que 1% da população mundial é celíaca, em Portugal apenas estão diagnosticados 10 mil casos, sendo que se acredita que existem ainda milhares de casos por diagnosticar. Para além da doença celíaca, o aumento da permeabilidade intestinal, devido à ação da gliadina e a passagem de moléculas de grandes dimensões na barreira intestinal, pode fazer com que, em indivíduos suscetíveis, exista uma resposta inflamatória associada e sintomas como desconforto abdominal, diarreia, gases, dores de cabeça e letargia  – sensibilidade não celíaca ao glúten. Esta última hipótese ainda está em estudo e é necessário clarificar os marcadores clínicos que permitam um correto diagnóstico e compreensão das consequências desta resposta. Sabe-se que pessoas com algumas doenças, como síndrome de intestino irritável, e outras doenças autoimunes que não a doença celíaca, como a artrite reumatoide e diabetes tipo I, parecem beneficiar de uma dieta sem glúten com a diminuição de alguns sintomas destas doenças.

Concluindo, devemos deixar de comer alimentos com glúten? Depende! (os bons nutricionistas adoram esta palavra irritante e desanimadora para alguns). Quando existe sintomatologia clínica e subclínica, que sugira uma sensibilidade ao glúten, quando exista outra doença instalada que clinicamente esteja associada a este problema, pode fazer sentido retirar estes alimentos da dieta. No entanto, é importante que saibam que os sintomas podem ser confundidos com outros problemas e é importante que antes de alterar hábitos alimentares por ter sintomas como diarreias frequentes, distensão abdominal, produção exacerbada de gases, perda de peso, alterações de humor e cansaço persistente, contacte o seu médico e nutricionista a fim de despistar outros problemas.

PS: É importante que contacte um nutricionista para saber que alimentos são ou não adequados. O glúten é comummente utilizado como aditivo para dar estabilidade e textura a alguns produtos processados. Saber ler rótulos é importante mas não pode ser escravo deles. É comum existirem alimentos que não têm glúten, por natureza, como o arroz, serem comprados a preço mais elevados por dizer na embalagem que não contém glúten, sem razão de ser. Procure informação com um nutricionista de confiança.

 

Texto de Ana Luísa Mousinho

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Nutrição

Sabores

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Bacalhau com leite de côco!

Uma posta e meia de bacalhau cozido e desfiado

Meia dúzia de batatas cozidas e cortadas as rodelas

Meiaeia embalagem de espinafres frescos

1 ovo cozido

6 colheres de sopa de leite de côco!

Tempero q.b.

Colocar o azeite a aquecer, refogar o bacalhau e as batatas e deixar cozinhar pouco! Colocar os espinafres e o ovo rectificar os temperos! Faltam as 6 colheres de sopa de leite de côco?
Sim!!! Faltam!!! Podem por e fica muitooo bommm! 😍
Bom apetite

 

Receita da nossa parceira RitaPaparica.

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Nutrição

Nutrição e prevenção da Alzheimer

Se por um lado existem fatores de risco de Alzheimer impossíveis de modificar como a idade ou genética, outros são os que podem ser diminuídos por hábitos de vida adequados ou ações preventivas específicas.

 As causas da doença de Alzheimer são provavelmente multifatoriais. Fatores ambientais, perturbações bioquímicas, processos imunitários são alguns dos exemplos em estudo.  A investigação tem dado frutos promissores nos últimos anos e podemos agora considerar que existem fatores de risco de vir a sofrer de Alzheimer relacionados com hábitos alimentares.

 Compreendendo que esta doença tem uma origem complexa e ainda não esclarecida na sua totalidade, este artigo pretende esclarecer de que forma a nutrição pode ter um papel importante na prevenção ou desacelerar do aparecimento da mesma, de forma simples, prática e muito resumida.

 A alimentação tem um papel importante da prevenção de doença não só pelo papel de nutrientes em especifico e isoladamente mas pela sua relação e partilha de funções vitais.

 Vários estudos científicos têm vindo a relacionar a Alzheimer a uma alimentação pobre em vitaminas do complexo B, C, K e E, défice de selénio, ferro e fibra, bem como um aporte deficitário de ácidos gordos ómega 3 e excessivo de ómega 6. Sabemos também que o consumo alimentar excessivo pode ser um fator de risco por estar relacionado com o aumento de processos oxidativos relacionados com o aparecimento de várias doenças crónicas como doenças cardiovasculares, diabetes tipo II, elas próprias promotoras da doença.

 A síntese de alguns compostos do sistema nervoso central, como a dopamina e noradrenalina, são dependentes de nutrientes essenciais, nomeadamente das vitaminas B2 (riboflavina), B6 (piridoxina), B12, nicotinamida, B9 (ácido fólico) e vitamina C. Outros compostos como o triptofano são utilizados para a produção de serotonina. Estes compostos funcionam como meio de comunicação entre as células e permitem a passagem de informação entre elas, regulando diferentes processos como o humor, ansiedade, memória, entre outros.

 Por outro lado, se comer demais pode ser um fator de risco comer muito pouco ou mal também. O défice de micronutrientes e outros compostos bioativos acelera o envelhecimento, cancro e deterioração dos neurónios, causando potencialmente o declínio da função do cérebro mais acelerado.

 A dieta mediterrânica surge como protetora desta doença (e de outras) por contribuir para uma alimentação com níveis adequados destes nutrientes e outros fitoquímicos importantes.

 Deixo a pirâmide de dieta mediterrânica que já devem conhecer mas que é bom para recordar quais são as bases mais importantes para a prevenção de doenças, incluindo a Alzheimer. Mais do que um programa alimentar, a pirâmide promove um estilo de vida ativo que inclui atividade física regular, socialização e escolha de alimentos da época.

É importante saber que o facto do défice de alguns nutrientes poder ser fator de risco para o desenvolvimento da doença, a suplementação não é necessariamente uma mais-valia, pelo que deve ser sempre prescrita por um nutricionista ou médico especialista. A suplementação sem apoio pode ser perigosa, interferir com medicamentos e comprometer a saúde se feita de modo desajustado.

 Após identificar fatores de risco de doença, pela análise da história clínica familiar e pessoal, devemos consultar um nutricionista para que seja feito o estudo e personalização alimentar corretos para a sua prevenção.

É certo que ninguém dura para sempre mas acredito que todos queremos fazer os possíveis para viver com qualidade de vida durante mais tempo. Não há receitas milagrosas, tratarmos de nós e definirmos as nossas prioridades será provavelmente a única forma de estarmos bem hoje e amanhã.

Texto de Ana Luísa Mousinho

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Nutrição

Como ser feliz no Natal sem estragar a dieta?

Adoro cozinhar, experimentar novas receitas e tornar a cozinha tradicional mais saudável é uns dos meus hobbies. Aberta a época das receitas de natal “saudáveis” não vou dar receitas mas dicas para aliviar o complicometro e comer de forma consciente.

Culpa não deve ser um sentimento associado à comida. É importante encontrar um equilíbrio entre o comer por necessidade e a componente social e edónica das refeições.São os nossos hábitos alimentares que contribuem de forma real para a nossa saúde e gestão de peso. O que comemos e não comemos no nosso dia a dia.Não são, de forma nenhuma, as excepções e as festas que vão estragar a dieta ou fazer-nos viver pior ou menos tempo. Quantas vezes por ano faz filhoses, sonhos e rabanadas? Eu só faço uma por isso no Natal vou-me dar ao “luxo” natalício.

Algumas dicas para um natal saudável e sem culpas (dia 24 e 25 de dezembro):

1º- Faça refeições ligeiras desde o pequeno almoço até há hora da festa e evite estar muito tempo sem comer

2º- Evite petiscar entradas. Coloque tudo o que quer de entrada no prato de uma só vez para que consiga ter noção do que está a comer

3º – Normalmente os doces de natal são muito ricos em gordura por isso prefira entradas mais leves (azeitonas, camarão cozido, salmão fumado aromatizado, por exemplo)

4º- Inicie a refeição com um prato de sopa e/ ou vegetais (meio estômago fica cheio)

5º- Quanto ás bebidas o ideal é sempre água. Caso não dispense um copo de vinho ou um sumo natural, opte por eles mas intercale com água

6º- Pense previamente nas sobremesas que quer comer e coma apenas aquelas que lhe apetece mesmo (sejam quais forem!). O melhor é colocar tudo num prato de sobremesa de uma só vez.

Eu provavelmente vou comer 2 filhós de cenoura (sonhos para os lisboetas) e queimar as suas calorias nos passeios tradicionais à beira mar!

Bom Natal!

 Curiosidades energéticas:

– 1 tacinha de arroz doce (1 colher de servir) – 250Kcal

– 1 filhós – 150Kcal

– 1 sonho – 150Kcal

– 1 rabanada – 300Kcal

– 1 fatia de bolo rei – 350Kcal

 

Texto de Ana Luísa Mousinho

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Nutrição

A verdade das mentiras sobre a alimentação saudável.

A alimentação saudável está na moda. O assunto invade as redes sociais, os media e as conversas de café. A popularidade do tema leva a que sejam muitos os interessados em falar sobre isso e nem sempre são as pessoas mais informadas e conhecedoras das áreas da nutrição.

Nas redes sociais são muitíssimas as páginas que se dedicam à alimentação saudável. Algumas são uma óptima fonte de informação, outras dão uma visão vanguardista, muito apelativa, mas com pouca, ou nenhuma, evidência científica por trás das recomendações. Outras são as páginas que dizem o que os outros querem ouvir e lhes oferecem as soluções milagrosas, que tantas vezes pedem aos nutricionistas nas consultas.

Justificado pelo seu papel informativo essencial, a comunicação social tem cada vez mais publicitado resultados de artigos científicos ou fundamentado opiniões com base neles. Bem ou mal, estas publicações vêm contribuir com excesso de informação, muita dela contraditória e confusa. Grande parte da população, mesmo aquela com um elevado nível de literacia, tem muitas vezes dificuldade em filtrar a informação e concluir sobre o que a ciência acha que devemos ou não comer.

Em primeira análise é importante reforçar que a ciência não é feita de um estudo, seja em que área for. As recomendações clínicas são elaboradas com base em múltiplos estudos que resultam de investigações ao longo dos anos, de debates entre cientistas e de reunião de informação. Para considerarmos que uma alegação tem uma base cientifica sólida, e que devemos mudar os nossos hábitos ou a percepção de um alimento ou estilo alimentar, faz todo o sentido confirmar esta informação em fontes credíveis primeiramente. A pior das situações seria sabermos que mudámos um hábito alimentar, que tínhamos mantido durante muitos anos, era prazeroso e muito nos custou a alterar e depois alguém vir dizer que afinal a alteração, só não tem qualquer base científica, como até pode ser prejudicial à nossa saúde face aos nossos hábitos anteriores.

Depois surge-nos outra questão importante. Qual é a fiabilidade dos estudos a que a maioria de nós têm acesso? Muitos dos estudos que surgem em títulos de artigos da comunicação social ou nas redes sociais foram publicados em revistas de acesso livre. É sabido que estas revistas, para poderem sobreviver, aceitam os estudos mediante pagamento por parte do seu autor ou financiadores. Embora possamos ter acesso a muitos estudos de qualidade por esta via, a realidade é que o controlo de qualidade feito pela maioria das revistas é limitado, ou mesmo inexistente em algumas. Um caso famoso é o de um autor da faculdade de Harvard que publicitou nestas revistas um estudo fabricado, com analises e conclusões falsas. Pouco tempo depois vimos as redes sociais invadidas com estas informações, discussões de café acesas com a maioria a apoiar acerrimamente as conclusões do estudo. Infelizmente as melhores fontes de informação não estão ao alcance da população em geral, apenas os meios académicos e os interessados em subscrever revistas cientificas pagas têm a sorte de aceder a esta informação.

As ciências da nutrição tiveram o seu BUM de investigação há relativamente pouco tempo. O desenvolvimento da medicina deu as bases do conhecimento biológico necessário para as investigações mais recentes mas não está concluído. A nutrição é uma ciência complexa e por isso teremos sempre nutricionistas a discordar, mas isso também acontece noutras áreas da medicina. Para perceber a complexidade da nutrição segue uma simples explicação das etapas da evolução do conhecimento nesta área. Para percebermos de nutrição tivemos primeiro de perceber a fisiologia do ser humano, saber como o nosso organismo funciona. Depois temos de conhecer os alimentos. Apenas um alimento tem imensos componentes diferentes, desde água, vários tipos de açúcares, proteínas, gorduras, vitaminas, minerais e ainda uma série de outros componentes químicos. Mesmo dentro da mesma espécie de alimento (fruto ou vegetal por exemplo) existem variações de composição. Os nutrientes variam conforme a maturidade da planta, o clima e o solo em que foi plantado.  Depois de conhecermos os alimentos e os tratarmos por tu, ainda temos de perceber o que é que o nosso corpo lhes faz, o que é absorvido e de que forma é que o nosso corpo interage com todas estas substâncias (a biodisponibilidade e bioacessibilidade analisam que nutrientes ficam disponíveis do alimento e quais são digeridos, absorvidos e disponíveis no nosso corpo para serem utilizados).

Pensando que numa refeição não consumimos apenas um alimento mas sim vários, percebemos que há muitas combinações de nutrientes que podemos fazer. Se soubermos que alguns nutrientes competem pela sua absorção e uns são mais “fortes” que outros, complicamos ainda mais a conversa. Um alimento pode ter uma óptima quantidade de um dado nutriente importante mas quando consumido com outro os benefícios são claramente diminuídos. Um exemplo clássico é um doente com anemia, que necessita consumir fontes ricas em ferro. Se consumir na mesma refeição uma fonte rica em cálcio, como um iogurte à sobremesa, e anteriormente tiver comido um bife com o objectivo de obter ferro vai comprometer a sua absorção. O cálcio compete com o ferro e “ganha-lhe”. Se quisermos que mais quantidade de ferro da refeição seja absorvido podemos juntar uma fonte rica de vitamina C como um kiwi ou citrino à sobremesa. Outro exemplo clássico é referente a proteínas de elevado valor biológico. O arroz e o feijão são fontes vegetais proteicas de baixo valor biológico, ao contrário das fontes animais como a carne. Mas se juntarmos o feijão e o arroz temos uma refeição de alto valor biológico, porque os aminoácidos que o feijão não tem, tem o arroz (abençoados brasileiros).

Esta conversa toda para que percebam que a nutrição e as ciências dos alimentos são áreas muito complexas e é necessário que a informação que retemos tenha plausibilidade biológica e seja revista por quem estuda a área. A consulta de nutrição não serve apenas para perder peso, muito longe disso. Se assim fosse nunca teria ponderado em estudar esta área. Consulte um nutricionista para validar informações que chegaram até si e que suscitam dúvidas quanto à forma como deve gerir a sua alimentação e da sua família. Quer o objectivo seja a promoção da saúde, prevenção de doenças, o seu tratamento ou minimização de sintomas em casos de doença.

E agora podem-me dizer: “Então mas eu já ouvi vários nutricionistas, uns dizem uma coisa e outros dizem outra!” Certamente já ponderaram ou conhecem alguém que pediu uma segunda opinião para o diagnóstico ou tratamento de uma doença. A medicina não deve ser encarada como uma ciência exacta. Existem bases de conhecimento que são comuns e outras que, felizmente, não são. Existem nutricionistas acomodados com a informação que obtiveram anteriormente, outros estudiosos mas cautelosos quanto ás recomendações em áreas que ainda estão claramente em investigação e os vanguardistas que vão atrás de toda a informação nova.

Então o que podem começar a fazer já pela vossa alimentação em que os nutricionistas, à partida, todos concordam? Seguem 7 bases fundamentais da alimentação saudável em que pode confiar:

– Limitar o consumo de produtos ricos em açúcar e analisar os rótulos de produtos processados a fim de escolher os menos ricos neste nutriente (produtos de pastelaria e confeitaria, doces, gelados, guloseimas);

– Reduzir o aporte de sal, limitando a adição na confecção e analisando os rótulos de produtos processados;

– Consumir frutos diariamente de forma moderada;

– Consumir vegetais diariamente, a todas as refeições principais;

– Limitar o consumo de produtos ricos em gordura, evitar consumir gordura visível das carnes;

– Variar entre as fontes de proteína e consumir peixe, no mínimo, todas as semanas;

– Preferir a água como bebida de eleição e beber ao longo do dia.

Seja feliz, coma bem e trate de si!

PS: E por favor, caso o nutricionista não concorde com algo que disse não lhe diga com ar ameaçador: “Não não! O “ar” emagrece sim! Eu li numa revista e no facebook e já ouvi dizer!!”

 

Texto de Ana Luísa Mousinho

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