Nutrição

Como ser feliz no Natal sem estragar a dieta?

Adoro cozinhar, experimentar novas receitas e tornar a cozinha tradicional mais saudável é uns dos meus hobbies. Aberta a época das receitas de natal “saudáveis” não vou dar receitas mas dicas para aliviar o complicometro e comer de forma consciente.

Culpa não deve ser um sentimento associado à comida. É importante encontrar um equilíbrio entre o comer por necessidade e a componente social e edónica das refeições.São os nossos hábitos alimentares que contribuem de forma real para a nossa saúde e gestão de peso. O que comemos e não comemos no nosso dia a dia.Não são, de forma nenhuma, as excepções e as festas que vão estragar a dieta ou fazer-nos viver pior ou menos tempo. Quantas vezes por ano faz filhoses, sonhos e rabanadas? Eu só faço uma por isso no Natal vou-me dar ao “luxo” natalício.

Algumas dicas para um natal saudável e sem culpas (dia 24 e 25 de dezembro):

1º- Faça refeições ligeiras desde o pequeno almoço até há hora da festa e evite estar muito tempo sem comer

2º- Evite petiscar entradas. Coloque tudo o que quer de entrada no prato de uma só vez para que consiga ter noção do que está a comer

3º – Normalmente os doces de natal são muito ricos em gordura por isso prefira entradas mais leves (azeitonas, camarão cozido, salmão fumado aromatizado, por exemplo)

4º- Inicie a refeição com um prato de sopa e/ ou vegetais (meio estômago fica cheio)

5º- Quanto ás bebidas o ideal é sempre água. Caso não dispense um copo de vinho ou um sumo natural, opte por eles mas intercale com água

6º- Pense previamente nas sobremesas que quer comer e coma apenas aquelas que lhe apetece mesmo (sejam quais forem!). O melhor é colocar tudo num prato de sobremesa de uma só vez.

Eu provavelmente vou comer 2 filhós de cenoura (sonhos para os lisboetas) e queimar as suas calorias nos passeios tradicionais à beira mar!

Bom Natal!

 Curiosidades energéticas:

– 1 tacinha de arroz doce (1 colher de servir) – 250Kcal

– 1 filhós – 150Kcal

– 1 sonho – 150Kcal

– 1 rabanada – 300Kcal

– 1 fatia de bolo rei – 350Kcal

 

Texto de Ana Luísa Mousinho

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nutricionista.anamousinho@gmail.com

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Nutrição

A verdade das mentiras sobre a alimentação saudável.

A alimentação saudável está na moda. O assunto invade as redes sociais, os media e as conversas de café. A popularidade do tema leva a que sejam muitos os interessados em falar sobre isso e nem sempre são as pessoas mais informadas e conhecedoras das áreas da nutrição.

Nas redes sociais são muitíssimas as páginas que se dedicam à alimentação saudável. Algumas são uma óptima fonte de informação, outras dão uma visão vanguardista, muito apelativa, mas com pouca, ou nenhuma, evidência científica por trás das recomendações. Outras são as páginas que dizem o que os outros querem ouvir e lhes oferecem as soluções milagrosas, que tantas vezes pedem aos nutricionistas nas consultas.

Justificado pelo seu papel informativo essencial, a comunicação social tem cada vez mais publicitado resultados de artigos científicos ou fundamentado opiniões com base neles. Bem ou mal, estas publicações vêm contribuir com excesso de informação, muita dela contraditória e confusa. Grande parte da população, mesmo aquela com um elevado nível de literacia, tem muitas vezes dificuldade em filtrar a informação e concluir sobre o que a ciência acha que devemos ou não comer.

Em primeira análise é importante reforçar que a ciência não é feita de um estudo, seja em que área for. As recomendações clínicas são elaboradas com base em múltiplos estudos que resultam de investigações ao longo dos anos, de debates entre cientistas e de reunião de informação. Para considerarmos que uma alegação tem uma base cientifica sólida, e que devemos mudar os nossos hábitos ou a percepção de um alimento ou estilo alimentar, faz todo o sentido confirmar esta informação em fontes credíveis primeiramente. A pior das situações seria sabermos que mudámos um hábito alimentar, que tínhamos mantido durante muitos anos, era prazeroso e muito nos custou a alterar e depois alguém vir dizer que afinal a alteração, só não tem qualquer base científica, como até pode ser prejudicial à nossa saúde face aos nossos hábitos anteriores.

Depois surge-nos outra questão importante. Qual é a fiabilidade dos estudos a que a maioria de nós têm acesso? Muitos dos estudos que surgem em títulos de artigos da comunicação social ou nas redes sociais foram publicados em revistas de acesso livre. É sabido que estas revistas, para poderem sobreviver, aceitam os estudos mediante pagamento por parte do seu autor ou financiadores. Embora possamos ter acesso a muitos estudos de qualidade por esta via, a realidade é que o controlo de qualidade feito pela maioria das revistas é limitado, ou mesmo inexistente em algumas. Um caso famoso é o de um autor da faculdade de Harvard que publicitou nestas revistas um estudo fabricado, com analises e conclusões falsas. Pouco tempo depois vimos as redes sociais invadidas com estas informações, discussões de café acesas com a maioria a apoiar acerrimamente as conclusões do estudo. Infelizmente as melhores fontes de informação não estão ao alcance da população em geral, apenas os meios académicos e os interessados em subscrever revistas cientificas pagas têm a sorte de aceder a esta informação.

As ciências da nutrição tiveram o seu BUM de investigação há relativamente pouco tempo. O desenvolvimento da medicina deu as bases do conhecimento biológico necessário para as investigações mais recentes mas não está concluído. A nutrição é uma ciência complexa e por isso teremos sempre nutricionistas a discordar, mas isso também acontece noutras áreas da medicina. Para perceber a complexidade da nutrição segue uma simples explicação das etapas da evolução do conhecimento nesta área. Para percebermos de nutrição tivemos primeiro de perceber a fisiologia do ser humano, saber como o nosso organismo funciona. Depois temos de conhecer os alimentos. Apenas um alimento tem imensos componentes diferentes, desde água, vários tipos de açúcares, proteínas, gorduras, vitaminas, minerais e ainda uma série de outros componentes químicos. Mesmo dentro da mesma espécie de alimento (fruto ou vegetal por exemplo) existem variações de composição. Os nutrientes variam conforme a maturidade da planta, o clima e o solo em que foi plantado.  Depois de conhecermos os alimentos e os tratarmos por tu, ainda temos de perceber o que é que o nosso corpo lhes faz, o que é absorvido e de que forma é que o nosso corpo interage com todas estas substâncias (a biodisponibilidade e bioacessibilidade analisam que nutrientes ficam disponíveis do alimento e quais são digeridos, absorvidos e disponíveis no nosso corpo para serem utilizados).

Pensando que numa refeição não consumimos apenas um alimento mas sim vários, percebemos que há muitas combinações de nutrientes que podemos fazer. Se soubermos que alguns nutrientes competem pela sua absorção e uns são mais “fortes” que outros, complicamos ainda mais a conversa. Um alimento pode ter uma óptima quantidade de um dado nutriente importante mas quando consumido com outro os benefícios são claramente diminuídos. Um exemplo clássico é um doente com anemia, que necessita consumir fontes ricas em ferro. Se consumir na mesma refeição uma fonte rica em cálcio, como um iogurte à sobremesa, e anteriormente tiver comido um bife com o objectivo de obter ferro vai comprometer a sua absorção. O cálcio compete com o ferro e “ganha-lhe”. Se quisermos que mais quantidade de ferro da refeição seja absorvido podemos juntar uma fonte rica de vitamina C como um kiwi ou citrino à sobremesa. Outro exemplo clássico é referente a proteínas de elevado valor biológico. O arroz e o feijão são fontes vegetais proteicas de baixo valor biológico, ao contrário das fontes animais como a carne. Mas se juntarmos o feijão e o arroz temos uma refeição de alto valor biológico, porque os aminoácidos que o feijão não tem, tem o arroz (abençoados brasileiros).

Esta conversa toda para que percebam que a nutrição e as ciências dos alimentos são áreas muito complexas e é necessário que a informação que retemos tenha plausibilidade biológica e seja revista por quem estuda a área. A consulta de nutrição não serve apenas para perder peso, muito longe disso. Se assim fosse nunca teria ponderado em estudar esta área. Consulte um nutricionista para validar informações que chegaram até si e que suscitam dúvidas quanto à forma como deve gerir a sua alimentação e da sua família. Quer o objectivo seja a promoção da saúde, prevenção de doenças, o seu tratamento ou minimização de sintomas em casos de doença.

E agora podem-me dizer: “Então mas eu já ouvi vários nutricionistas, uns dizem uma coisa e outros dizem outra!” Certamente já ponderaram ou conhecem alguém que pediu uma segunda opinião para o diagnóstico ou tratamento de uma doença. A medicina não deve ser encarada como uma ciência exacta. Existem bases de conhecimento que são comuns e outras que, felizmente, não são. Existem nutricionistas acomodados com a informação que obtiveram anteriormente, outros estudiosos mas cautelosos quanto ás recomendações em áreas que ainda estão claramente em investigação e os vanguardistas que vão atrás de toda a informação nova.

Então o que podem começar a fazer já pela vossa alimentação em que os nutricionistas, à partida, todos concordam? Seguem 7 bases fundamentais da alimentação saudável em que pode confiar:

– Limitar o consumo de produtos ricos em açúcar e analisar os rótulos de produtos processados a fim de escolher os menos ricos neste nutriente (produtos de pastelaria e confeitaria, doces, gelados, guloseimas);

– Reduzir o aporte de sal, limitando a adição na confecção e analisando os rótulos de produtos processados;

– Consumir frutos diariamente de forma moderada;

– Consumir vegetais diariamente, a todas as refeições principais;

– Limitar o consumo de produtos ricos em gordura, evitar consumir gordura visível das carnes;

– Variar entre as fontes de proteína e consumir peixe, no mínimo, todas as semanas;

– Preferir a água como bebida de eleição e beber ao longo do dia.

Seja feliz, coma bem e trate de si!

PS: E por favor, caso o nutricionista não concorde com algo que disse não lhe diga com ar ameaçador: “Não não! O “ar” emagrece sim! Eu li numa revista e no facebook e já ouvi dizer!!”

 

Texto de Ana Luísa Mousinho

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nutricionista.anamousinho@gmail.com

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