Psicologia

Quer falar-me melhor sobre isso? Relações Sociais: O Inferno sem os Outros.

Uma das características que definiu a história evolutiva dos seres humanos, foi a sua propensão e aptidão para funcionar em pequenos grupos. Há centenas de milhares de anos atrás, a pertença a um grupo ditaria de forma quase certa, o futuro de um elemento da nossa espécie e o isolamento seria uma sentença de morte imediata. É esta a razão pela qual ouvimos frequentemente chamar ao Ser Humano, um “animal social”. Contudo, com o avanço das eras e das formas de vida em sociedade, é hoje consideravelmente diferente viver em grupo. O isolamento continua a estar presente na nossa sociedade, contudo, numa parte considerável das zonas em que habitamos não teremos predadores que possam ameaçar a nossa sobrevivência. Antes que respiremos todos de alívio perante esta constatação aparentemente optimista, a investigação científica tem mostrado que os efeitos da solidão estão bem para lá do que nos parece mais aparente.

A solidão no século XXI

O isolamento social é cada vez mais considerado um problema dos nossos dias, de tal maneira que até alguns países, como é o caso do Reino Unido, já criaram especificamente novos ministérios dedicados à sua erradicação. Mas porque é o isolamento social um problema tão importante e qual é a sua relevância para o leitor? Comecemos por analisar algumas evidências:

  1. O ambiente social tem influência na saúde psicológica dos seres humanos: Segundo o Inquérito Social Europeu (citado por Nós e os Outros), quem mantém boas relações com os outros apresenta maiores níveis de felicidade do que aqueles que não mantêm.
  2. O ambiente social tem influência na saúde física dos seres humanos: Aqueles que têm melhores relações com os outros tendem a ter menos doenças e uma maior esperança de vida comparativamente a quem não tem boas relações com os outros. Mais ainda, o isolamento social pode aumentar o risco de morte prematura em cerca de 45%. O que nos permite afirmar que, estar isolado e sentir-se sozinho é tão nocivo quanto fumar 15 cigarros por dia (Holt-Lundstad, Smith & Layton citado por Lima, 2018).
  3. Portugal é um dos países que apresenta maiores taxas de isolamento social. Estima-se que cerca de 22% dos portugueses com 65 ou mais anos viva sozinho. O inquérito social europeu de 2014 mostrou ainda que cerca de 12,5% dos Portugueses se sentiram na última semana, muitas vezes ou quase sempre sós. Embora nos jovens adultos este valor seja baixo, no caso dos mais velhos sobe para cerca de 18%, isto é, quase 1 em cada 5 portugueses com idade igual ou superior a 65 anos referiu sentir-se sozinho na grande maioria do tempo. Estes dados tornam-se consternadores se nos recordarmos que Portugal é dos países da Europa com maiores taxas de envelhecimento populacional.

Asseguro ao leitor que existem muitas mais evidências para outros problemas associados ao isolamento e solidão, mas que infelizmente, por questões de espaço não poderei abordar aqui. Contudo, a principal conclusão que devemos retirar é que um mau ambiente social tem sérias implicações na saúde dos seres humanos. Por este motivo, ao falar em autocuidado é de extrema importância lembrar que as nossas relações sociais devem também ser elas alvo de investimento.

Relações Sociais – A sua importância

Como referi no inicio desta rúbrica, as relações sociais são um dos ingredientes que ditaram e influenciaram a nossa sobrevivência e evolução enquanto espécie. Por esta razão, o contexto social tem influência contínua não apenas na nossa satisfação com as nossas relações, mas também com o nosso funcionamento em geral ao longo do ciclo vital – influindo sobre os nossos estados de humor, níveis de stress, bem-estar, persecução de objectivos, sensação de segurança, sentido de propósito e de significado da nossa vida. Isto significa que as relações sociais modelam-nos, influenciando o nosso comportamento e o nosso bem-estar (Holman, Kanter, Tsai & Kohlenberg, 2017). A qualidade das nossas relações sociais pode ser uma fonte de resiliência ou uma agravante do risco de desenvolvimento de problemas de saúde físicos e psicológicos – algo que se verifica especialmente na maioria dos principais casos de doença mental (Beck citado por Holman, Kanter, Tsai & Kohlenberg, 2017, ; Leach & Kauzler citado por Holman, Kanter, Tsai & Kohlenberg, 2017; Pettit & Joiner citado por Holman, Kanter, Tsai & Kohlenberg, 2017)

Implicações práticas

O leitor poderá estar a questionar-se que soluções existem para combater o problema da solidão e do isolamento social. Quero começar por concordar com Lima (2018) dizendo que “a solidão não se cura com um psicólogo ou com uma linha de apoio 24 horas por dia” – embora a psicologia seja uma das ciências que tanto tem ajudado a compreender as implicações deste problema nas nossas vidas, a sua resolução transcende-se para todos nós. Por esta razão, defendo que é imperativo cuidar das nossas relações sociais. Contudo, tal não significa tornar-se a nova estrela em ascensão com milhares de seguidores nas redes sociais, ou coleccionar uma legião de amizades apenas porque sim. O cuidado implica reciprocidade – não apenas para que possamos falar sobre o que sentimos, mas sim criar um espaço onde o cuidado se dá e recebe (Lima, 2018). Este maior contacto psicológico que pauta as relações de proximidade (Holman, Kanter, Tsai & Kohlenberg, 2017) permite-nos desenvolver a sensação de que iremos ter o apoio e suporte quando mais necessitarmos (Lima, 2018) – eliminando assim o sentimento de isolamento e solidão e todos os seus agravantes para a nossa saúde e bem-estar.

Em suma caro leitor, a solidão é de tal forma corrosiva para a nossa saúde e bem-estar, que vivê-la é, parafraseando Sartre, sentir não que “O inferno são os Outros” mas sim “O inferno sem os Outros”. Não deixe de assegurar um espaço no seu dia-a-dia para cuidar e usufruir das relações com quem sente que lhe faz bem – sejam os seus amigos, família, colegas de trabalho ou qualquer outra actividade de grupo da qual faça parte – pois cuidando deles, cuidará também de si.

 

Texto de Rodrigo Pires

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rodrigopiresuevora@hotmail.com

Psicologia

O sabor dos (loucos) vinte de hoje.

Lembraste quando eras adolescente e sentias que não eras carne nem peixe, mas estavas à beira de ser servido/a numa bandeja anyway? Pois é. Bem-vindo aos teus vinte e tais, onde a única coisa que muda é que tens (na maioria dos casos) uma identidade profissional parcialmente delineada. O que não quer dizer que não a questiones todos os dias e não acabes, até, por ingressar noutro trajeto completamente diferente.

Aos vinte e tais começas, também, a renovar o teu guarda-roupa. Os vestidos de festa aumentam e o teu roupeiro torna-se mais apelativo, digno de uma verdadeira socialite. São vestidos que só vestes uma vez, mas com os quais vais andar de “peito inchado” a tirar fotos que te vão garantir uma boa centena de likes no instagram. E porque é que os vestidos de festa aumentam? Porque (aí vem a grande diferença) as tuas amigas começam a casar! Deparas-te com o calendário de Junho a Setembro cheio e dás por ti a esperar que a onda casamenteira tenha uma interrupção de um aninho ou dois porque a tua carteira precisa de engordar novamente até ao próximo presente.

Nos teus vintes quase intas também começas a ter mais contacto com bebés. Seres dos quais há muito que não ouvias falar mas que, num ápice, voltam a estar no centro das dinâmicas das tuas amizades. As tuas amigas dividem-se entre as que se tornam tias e invadem o teu facebook com páginas de artigos de bebé e convites para concertos da patrulha pata, e aquelas que se tornam mães e te começam a desejar os parabéns terminando com um orgulhoso e maduro “são os votos da família Santos-Silva”. E até te sentes mais crescidinha quando deixas de ser cumprimentada com um “que saudades minha atrasada” e passas a ouvir e a viver um “diz olá à tia Pipa”. Confesso que os gugudádás não são conversas menos cognitivamente estimulantes que os “ele mandou-me uma mensagem para o face. O que faço?”. Na verdade, começas a sentir-te bem por alastrares os teus laços familiares e te deixares ser tia da criançada.

Começas a dar por ti a pensar numa lista de nomes infindáveis para menino e menina. (sim, vais dar por ti a divagar neste assunto!). E eis quando acabas por ter um cão chamado Bernardo ou uma gata chamada Clarinha.

Aos vinte e tais, vais sentir que não terminaste nem começaste nada e vais-te dar conta que os teus amigos estão a começar uma família enquanto tu ainda andas a estorvar a tua, ou porque lhes deixas o cão ao fim de semana ou porque continuas a pedinchar tupperwares. Vais sentir uma certa ansiedade relativamente ao futuro (não, não te tornas mais saudável ao nível mental, pelo menos até à entrada nos intas). De um lado tens ainda alguns resquícios da vida universitária e as party people. E olhas para essas pessoas já com uma certa distância … já não tens fígado nem estomago para tanta festa regada a tudo menos água. As séries passam a estar novamente no centro dos teus serões (já não recorres às séries só para procrastinar no estudo para uma frequência daquela cadeira que achas insuportável). Do outro lado, tens os teus amigos a enveredar numa nova aventura, a do casamento e dos filhos. E sentes-te ainda tão distante dessa realidade. Estás num impasse … vais começar a sentir-te um tanto ao quanto desintegrada. Tão welcome my dead adolescent me. Vais querer viver intensamente, mas substituis o capítulo 8 e a praxis por um bilhete de avião para Praga.

Nos teus vintes vais viajar muito. Vais-te viciar em viagens e vais começar a pensar que é isso que queres fazer para sempre. Embora também acabes por compreender que isso requer fundos e que os fundos requerem que vás aceitando estagiar ao abrigo de uns 500€ ao mês (que até te vão parecer muito, até começares a chegar ao segundo dia após o dia de S. Receber com apenas 10€ na conta).

Resumindo, sim! É tão difícil sair da casa dos vintes como foi entrar.

O meu conselho para ti: tudo tem o seu tempo. Este é o tempo de ser sem ser. O que traz uma boa novidade para ti. Podes continuar a descobrir-te por mais um bocadinho. A psicologia do desenvolvimento permite-te isso ao chamar-te Adulto (a) Emergente. Vive, controla essa ansiedade. Dizem, por aí, que os intas são diferentes!

 

Texto de Filipa da Piedade Rosado

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filipa.p.rosado@gmail.com

Pais e Filhos

A parentalidade consciente e a promoção da autonomia.

Recorda-se de termos falado sobre parentalidade consciente? Pois o que nos traz hoje aqui é uma das componentes da parentalidade consciente – A Promoção de Autonomia.

Como pais, sentirão muitas vezes vontade e necessidade de protegerem os vossos filhos de quase tudo. Evitar que chorem, que sofram, que se magoem ou que cometam erros. É natural, são pais! No entanto, no que toca a promoção da autonomia, muitas vezes é necessário que pais saibam dar dois ou três passos atrás e deixem os filhos tropeçar, cair e esfolar os joelhos, simbolicamente falando.

Dos mais pequenos aos mais crescidos, todos eles trazem desafios para os pais que por tudo os querem manter protegidos da realidade da vida e da dureza da mesma. Mas lembre-se, nem tanto nem tão pouco. Os filhos precisam de pais atentos, contentores mas também de pais que lhes transmitam confiança ao deixá-los voar. Precisam de pais que lhes dêem as asas e os ensinem a voar, não de pais que lhes impõem um percurso de pés assentes no chão, sem liberdade nem sonhos. Esperam-se pais rede e não pais algema.

Com os desafios constantes, o aperto no peito e as ansiedades de verem os pequenos partir para a vida, às vezes, sem se darem conta, o pais acabam por tomar as suas dores, impedir as suas quedas e com isto limitarem a sua autonomia, autoestima e confiança de que serão capazes de enfrentar o mundo com tranquilidade, confiança e competência.

Hoje, deixo-vos algumas das coisas que os pais devem ter em conta, quando acompanham os filhos nesta viagem maravilhosa que é a vida:

  1. Não fale por eles: Quando alguém, na rua, parar para perguntar o nome do seu filho, se ele já souber falar encoraje-o a responder. Dar ao seu filho a capacidade de responder e falar por si mesmo, permite o desenvolvimento da independência e confiança;
  2. Não tente ser o melhor amigo dos seus filhos: Numa tentativa de conquistar a sua admiração ou confiança, muitos pais tentam ser os melhores amigos dos filhos. Um amigo é alguém com quem pode falar de igual para igual, alguém a quem pode contar os seus problemas, as suas preocupações e as suas conquistas. A amizade implica que não exista ninguém numa posição superior na hierarquia. Os pais têm um papel diferente. É suposto que tomem conta dos filhos, os protejam (nos limites razoáveis) e os eduquem. Há ainda estudos que indicam que quando os pais tendem a partilhar com os filhos os seus problemas pessoais (porque o diálogo entre amigos tende a ser idêntico de parte a parte) estes parecem desenvolver mais frequentemente problemas psicológicos. Assim, os pais devem permitir aos filhos procurarem os amigos dentro do seu grupo de pares e estarem presentes quando as crianças precisam de amor, apoio e orientação;
  3. Compreenda as necessidades e os desejos dos seus filhos: Todos os pais sabem que legumes são mais saudáveis do que pizzas e que material escolar é mais útil do que bonecos e brinquedos por isso quando os filhos os “massacram” com o quanto querem o mais recente brinquedo do mercado muitas vezes os pais respondem “Não me parece que seja essa Barbie que te vai ajudar a passar no teste de Matemática”. O que está a fazer ao falar desta forma é suprimir a personalidade do seu filho, os seus sonhos e objetivos. Os pais devem compreender os desejos e necessidades dos filhos, colocando-se no lugar deles. Não queremos com isto dizer que devem satisfazer todas as suas vontades, sem qualquer regra. Nada disso. Devem apenas procurar compreender porque é que aquele boneco ou brinquedo é tão importante e explicar-lhes as prioridades, garantindo que estudam primeiro para o teste de matemática!
  4. Não os ajude demasiado: Crianças pequenas, podem já vestir-se sozinhas e arrumar os seus brinquedos e nesta idade, as crianças gostam de poder fazer algumas coisas por si próprias. No entanto, o que é que muitos pais fazem? Correm atrás dos filhos, apanhando todos os brinquedos ou pratos sujos que eles deixam pelo caminho e claro, adoram queixar-se de como estão exaustos depois de passarem o dia a arrumar a confusão que os filhos fizeram. Os adultos tendem a dar comida à boca às suas crianças, quando estas já o podiam começar a fazer sozinhas, em vez de os deixarem ir tentando e aprendendo sozinhos, com a sua supervisão. Como podem as crianças desenvolver uma personalidade clara e independente se não lhes for permitido explorar as suas capacidades? Proteja-se das dores de cabeça no futuro e deixe os seus filhos fazerem o mais possível por si próprios. Claro que não vai ser perfeito, mas está tudo bem, pelo menos tentaram e estão a aprender!
  5. Respeite os gostos dos seus filhos: Alguns pais tendem a impor os seus gostos musicais, literatura ou até o tipo de roupa que mais gostam aos seus filhos. Como todas as coisas desta lista, isto é feito com a melhor das intenções, mas claro, tem contrapartidas! Diminui e desvaloriza a individualidade do seu filho e pode conduzir a sentimentos de culpa nos seus filhos por perceberem que aquilo de que gostam é exatamente o oposto daquilo que lhes quer impor.
  6. Não conte nem controle em demasia o dinheiro dos seus filhos: Na vida de todas as crianças, chega uma altura em que eles começam a ter o seu próprio mealheiro. Muitos pais tendem a interrogar os seus filhos (especialmente adolescentes) sobre onde e em que é que gastam o seu dinheiro. O pior que pode fazer é vasculhar as suas malas ou carteiras. Isto irá destruir qualquer confiança ou respeito que eles pudessem ter por si. Os seus filhos são indivíduos que têm todo o direito de gastar ou poupar o dinheiro que ganharam. Os pais têm medo que os filhos gastem o seu dinheiro em coisas inúteis ou até álcool ou drogas. Claro que sim! Para evitar isto, devem ensinar as crianças a gastar dinheiro de forma inteligente e a serem financeiramente responsáveis, o que os vai ajudar no futuro quando tiverem contas para pagar;
  7. Não os obrigue a praticarem hobbies ou atividades extra curriculares que não sejam do interesse deles: Todos conhecemos aqueles pais que querem que os filhos toquem violino e estão prontos a sacrificar muitas coisas para realizar este sonho. Ou aqueles que querem que os filhos joguem futebol, e os obrigam a treinarem durante horas todos os dias. O que acontece, muitas vezes, é que estes pais estão a tentar impor um hobbie aos seus filhos, que muitas vezes era algo que eles queriam ter feito mas não conseguiram, pelas mais variadas razões. Não seja ditador nem force os seus sonhos aos seus filhos. Esteja atento aos interesses deles, pergunte-lhes do que mais gostam e permita-lhes desenvolverem-se nesse campo. Não viva através dos seus filhos. Eles não são você!
  8. Não tome os sucessos deles como seus: Todos temos aquele amigo no facebook, aquele que está constantemente a fazer posts sobre os filhos “Os nossos primeiros passos” ou “O nosso primeiro mergulho na piscina”. E a lista de “nossos” continua! Claro que os pais apoiam os filhos, mas temos que parar com o “nossos”. Estas são as conquistas dos filhos, não as dos pais! Fique feliz pelos sucessos dos seus filhos, mas não os confunda com os seus;
  9. Não escolha os presentes que recebem de outras pessoas: Quando as crianças já conseguem falar, têm o direito a escolher o que querem receber como presente. E não tem que ser uma peça de roupa de extrema importância ou um brinquedo que os ajude a desenvolver a sua educação. Lembra-se de quando era criança? Em vez de receber aquele brinquedo espetacular que viu num anúncio recebeu roupa aborrecida? Claro que pode não ser sempre possível permitir a criança escolher, mas sempre que for dê-lhes a oportunidade de o fazer. Permite-lhes desenvolver a capacidade de escolher, tomar decisões e enfrentar as consequências.
  10. Não se intrometa demasiado nas suas vidas pessoais: Isto é especialmente importante para pais de adolescentes. Os adolescentes têm os seus amigos, paixões e primeiros encontros. Isto é normal e perfeitamente natural. Interrogatórios sobre as suas vidas só fará com que os seus filhos se aborreçam e se afastem de si perdendo qualquer interesse em partilhar consigo as suas preocupações e conquistas. Muitas crianças e adolescentes vão partilhar espontaneamente estas informações com os pais se se sentirem seguros e apoiados.

 

Em suma, esteja atento(a), presente e dê aos seus filhos a capacidade de viver em liberdade com responsabilidade. Vai ver que, no futuro, vão todos ser gratos por isso. E acima de tudo, ame-os incondicionalmente e mostre-o, todos os dias!

 

Texto de Cláudia da Silva Mousinho

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Palavras e Fotografia

As Raízes da Saudade – I (Parte II)

Eu tinha 5 anos, era o meu primeiro dia de escola. Foste comigo de mãos dadas até à sala de aula, eu estava nervosa, entusiasmada com a ideia de ir para a escola e ao mesmo tempo cheia de medo. Apertava-te as mãos com força como quem diz “por favor, não me deixes sozinha”. Entrámos na sala e de repente estavam aqueles olhos pequenos todos voltados na minha direcção e naquele momento quis voltar para casa.

Queria ficar, fazer amigos, aprender, mas tinha tanto medo. Tinha medo que os meninos não gostassem de mim. Tinha medo que gozassem comigo.

Estivemos da sala de aula um tempo, não me lembro ao certo do que falámos. Sei que se tratou de uma forma de nos prepararmos devagarinho para aquele novo desafio. De repente a professora pediu aos pais e avós que saíssem da sala para poder estar connosco, conhecer-nos. Aí o mundo parou. As lágrimas vieram aos olhos, agarrei a tua mão e comecei a chorar.

– Não quero ficar aqui sozinha! Não vás embora, por favor.

– Oh filha, a avó vai só ao pão e vais ver que daqui a pouco já aqui estou outra vez para irmos para casa. – disseste tu enquanto me limpavas as lágrimas que insistiam em cair acompanhadas de soluços.

– Mas eu não quero! Quero ir contigo para casa!

– Oh minhas querida, então. A avó daqui a pouco já volta para te vir buscar. Já estiveste comigo uma vez não te lembras? – disse a professora Júlia com uma ternura na voz que me tranquilizou.

– Lembro… – disse eu hesitante enquanto limpava as lágrimas envergonhada, olhando à minha volta e percebendo que estavam todos a olhar para mim.

– Então. Vais ver que vais gostar. Estão aqui tantos meninos como tu. Vão dar-se bem e vais aprender muitas coisas novas. E hoje vão ficar só um bocadinho para se conhecerem e depois já vais poder voltar para casa com a avó.

Eu respirei fundo e limpei as lágrimas novamente. Tu olhaste para mim e sorriste. Pegaste no lenço que trazias preso no cós da tua saia e limpaste-me a cara. Deste-me um beijo e saíste. Acompanhei-te com o olhar até a porta se fechar atrás de ti. O coração apertou e eu voltei a chorar.

Acompanharam-me à casa de banho, fizeram-me acalmar e voltei à sala de aula. Eu sabia que tu ias voltar para me vir buscar, sabia que ia voltar para casa. Sabia que tinha só que aguentar aquelas horas e tudo ia compor-se.

– Emprestas-me as tuas canetas? – perguntou uma colega que estava sentada ao meu lado.

Olhei para ela intimidada, agarrei no meu estojo e coloquei-o junto ao peito. Não estava habituada a deixar que ninguém mexesse nas minhas coisas.

– Não! São minhas. Usa as tuas! – disse eu, zangada e assustada por estarem a falar comigo, quando eu só queria fazer os meus desenhos metida no meu mundo.

– Vais ter muitos amigos assim. És má.

Estremeci… Achava que ela tinha razão, que não ia fazer amigos e que aquele percurso ia sempre ser um inferno.

Com o passar das horas fui perdendo o medo. Levantei-me da cadeira, com uma caneta azul na mão e fui ter com a colega que tinha mudado de lugar.

– Desculpa… Não queria ser má para ti. Podemos ser amigas? – perguntei envergonhada.

Ela pegou na caneta, olhou para mim:

– Está bem. – disse sorrindo enquanto me dava para a mão um lápis de cor também ele azul.

Umas horas depois estava a guardar as canetas dentro do estojo, as folhas dentro da mochila e a correr novamente na tua direcção, com a certeza de que amanha o dia ia correr muito melhor.

 

Texto de Cláudia da Silva Mousinho

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