Memórias e Fotografia

[Saudade]

Fim de Semana @ Vila Real 20-23.07.2007 012

Há uma saudade que sempre espreita,
Um abraço esquecido,
Um beijo perdido.
Há uma saudade que se esconde,
que se arruma,
que se apaga.
Uma janela aberta,
Uma porta fechada.
Há uma saudade que se estende,
Que perdura,
Que esvoaça.
E em três fases, meu amor…
O vento sopra,
O dia amanhece,
E as palavras morrem.

 

Texto de Joana Almeida

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Fotografia de Nuance Fotografia by Cláudia da Silva Mousinho

Memórias e Fotografia

As Raízes da Saudade – I (Parte II)

Eu tinha 5 anos, era o meu primeiro dia de escola. Foste comigo de mãos dadas até à sala de aula, eu estava nervosa, entusiasmada com a ideia de ir para a escola e ao mesmo tempo cheia de medo. Apertava-te as mãos com força como quem diz “por favor, não me deixes sozinha”. Entrámos na sala e de repente estavam aqueles olhos pequenos todos voltados na minha direcção e naquele momento quis voltar para casa.

Queria ficar, fazer amigos, aprender, mas tinha tanto medo. Tinha medo que os meninos não gostassem de mim. Tinha medo que gozassem comigo.

Estivemos da sala de aula um tempo, não me lembro ao certo do que falámos. Sei que se tratou de uma forma de nos prepararmos devagarinho para aquele novo desafio. De repente a professora pediu aos pais e avós que saíssem da sala para poder estar connosco, conhecer-nos. Aí o mundo parou. As lágrimas vieram aos olhos, agarrei a tua mão e comecei a chorar.

– Não quero ficar aqui sozinha! Não vás embora, por favor.

– Oh filha, a avó vai só ao pão e vais ver que daqui a pouco já aqui estou outra vez para irmos para casa. – disseste tu enquanto me limpavas as lágrimas que insistiam em cair acompanhadas de soluços.

– Mas eu não quero! Quero ir contigo para casa!

– Oh minhas querida, então. A avó daqui a pouco já volta para te vir buscar. Já estiveste comigo uma vez não te lembras? – disse a professora Júlia com uma ternura na voz que me tranquilizou.

– Lembro… – disse eu hesitante enquanto limpava as lágrimas envergonhada, olhando à minha volta e percebendo que estavam todos a olhar para mim.

– Então. Vais ver que vais gostar. Estão aqui tantos meninos como tu. Vão dar-se bem e vais aprender muitas coisas novas. E hoje vão ficar só um bocadinho para se conhecerem e depois já vais poder voltar para casa com a avó.

Eu respirei fundo e limpei as lágrimas novamente. Tu olhaste para mim e sorriste. Pegaste no lenço que trazias preso no cós da tua saia e limpaste-me a cara. Deste-me um beijo e saíste. Acompanhei-te com o olhar até a porta se fechar atrás de ti. O coração apertou e eu voltei a chorar.

Acompanharam-me à casa de banho, fizeram-me acalmar e voltei à sala de aula. Eu sabia que tu ias voltar para me vir buscar, sabia que ia voltar para casa. Sabia que tinha só que aguentar aquelas horas e tudo ia compor-se.

– Emprestas-me as tuas canetas? – perguntou uma colega que estava sentada ao meu lado.

Olhei para ela intimidada, agarrei no meu estojo e coloquei-o junto ao peito. Não estava habituada a deixar que ninguém mexesse nas minhas coisas.

– Não! São minhas. Usa as tuas! – disse eu, zangada e assustada por estarem a falar comigo, quando eu só queria fazer os meus desenhos metida no meu mundo.

– Vais ter muitos amigos assim. És má.

Estremeci… Achava que ela tinha razão, que não ia fazer amigos e que aquele percurso ia sempre ser um inferno.

Com o passar das horas fui perdendo o medo. Levantei-me da cadeira, com uma caneta azul na mão e fui ter com a colega que tinha mudado de lugar.

– Desculpa… Não queria ser má para ti. Podemos ser amigas? – perguntei envergonhada.

Ela pegou na caneta, olhou para mim:

– Está bem. – disse sorrindo enquanto me dava para a mão um lápis de cor também ele azul.

Umas horas depois estava a guardar as canetas dentro do estojo, as folhas dentro da mochila e a correr novamente na tua direcção, com a certeza de que amanha o dia ia correr muito melhor.

 

Texto de Cláudia da Silva Mousinho

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Memórias e Fotografia

[Se…]

Se te dissesse, baixinho…
Entre a brincadeira e o tom sério
de quem brinca com o destino
E é assolado de inquietude,
que a loucura é um pé-de-vento que se aproxima ao anoitecer
Paravas, por uns segundos?
Se eu te falasse, baixinho…
De sonhos sem significado
Do que se alimenta o medo
Da caminhada sobre a linha fina
que divide o Amor do resto
Paravas, por uns minutos?
Se te contasse, baixinho…
Que em cada esquina,
Em cada canto,
Em cada gota que se esgota no peito,
Surge uma palavra, surge um poema
Ainda que torto, ainda que incerto
Paravas, por umas horas?
Se baixinho te dissesse,
Que ninguém quer o que não entende
E um bolso vazio não serve para guardar a noite.
Se te dissesse…
Paravas, o tempo?

 

Texto de Joana Almeida

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Memórias e Fotografia

As Raízes da Saudade – III (Parte I)

Segunda-feira, 12 de Julho de 2010. Acho que foi a primeira vez, ao fim de tantos anos, que te dei um abraço. Ela tinha morrido no Domingo e eu tinha acabado de chegar a Lisboa para o velório. Estava tão preocupada contigo, procurava por ti em todas as pessoas, em todos os rostos. Sabia que devias estar desamparado, tinhas perdido a tua companheira de 63 anos. Quando te vi vinhas a chorar, com uma mão na bengala que te amparava os passos e na outra um dos teus característicos lenços de pano. Mal saí do carro corri na tua direcção.

Olhaste para mim com o olhar mais triste que alguma vez te vi… Abracei-te e tu disseste apenas:

– Oh filha…já ficaste sem a tua avó.

Naquele momento senti que o teu desespero também era por mim. Naquele momento a tua preocupação era comigo. Apercebi-me de que sempre foi assim, podias pôr-te primeiro que toda a gente, menos primeiro que eu. Para ti eu estava sempre primeiro! Lembro-me de ter pensado que agora te restava tão pouco e que por isso também te havia de perder em breve. Chorei…chorei por ela e chorei por ti. Nunca te tinha visto chorar daquela forma e partiu-me o coração. Recordava-te sempre de sorriso no rosto e de repente apareceste como que desfigurado pela dor que sentias. Estavas “sozinho”. Não sabias quem eram os teus pais, o nome não te estava escrito no bilhete de identidade. Filho de pais incógnitos, dizia. A tua única referência era uma tia que te criou, mais ninguém. A tua história tinha sido apagada, era como se só tivesse sido escrita a partir do momento em que te casaste. E mesmo assim, apesar de tudo, tinhas sempre um sorriso pronto, um abraço guardado para quando eu chorava, uma mão para me ajudar a saltar nas poças de água.

Aqueles foram dias desgastantes. Vi-te chorar em cada um deles e sentia que não podia fazer nada para te aliviar a dor de perder a tua companheira de uma vida. Sabia que te sentias sozinho, que não sabias o que ia acontecer a seguir e que acreditavas que te íamos pôr num lar…

No final do dia, já sentado no sofá da sala junto à janela, depois de quase toda a gente ter ido embora disseste:

– Agora é que acabou tudo…

O pai pôs-se de joelhos à tua frente, agarrou-te na mão e disse-te:

– Pai, eu não vou o vou por num lar. O pai não vai a lado nenhum. Vamos procurar um sítio para poder ficar durante o dia, enquanto eu estou a trabalhar, mas à noite vem para casa para ao pé de mim. Pode ser assim?

– Está bem. Assim pode ser. – Disseste tu, enquanto fungavas e limpavas as lágrimas.

– Eu não o vou pôr num lar enquanto tiver alternativa e o poder ter em casa.

– Está bem.

Respiraste fundo, vi os teus ombros relaxarem e paraste de chorar.

– Depois vou contigo ver o sítio quando encontrarmos pode ser? – Perguntei com esperança de te dar algum alento.

– Sim… – Tinhas a cabeça baixa enquanto dobravas o lenço nas mãos e uma lágrima te caia pela face.

Nessa noite mal dormi… Tinha um nó na garganta, doía-me o peito. Chorei por ela, por ti, pelo meu pai. O mundo mudou radicalmente e as nossas vidas iam mudar também. Ela era a matriarca. Tudo girava em torno dela, das suas necessidades, das suas vontades, das suas dores. Ela era a organizadora de tudo, tratava da casa, da lista das compras, das limpezas e às vezes de nos fazer a cabeça em água. Mas era ela… a tua mulher e a minha avó-mãe. Nesse dia também eu perdi uma parte de mim. Teríamos que descobrir como viver sem ela.

Demorei dois dias até cair em mim, passei dois dias em modo automático. Não me lembro desses dias, do que disse, do que fiz. Lembro-me apenas de te ver chorar… E lembro-me de ao terceiro dia estar no computador e a bateria ter avariado. Irritei-me. Tentei resolver o problema mas nada corria bem. Atirei o carregador ao chão e virei costas, saí da sala a correr e atirei-me para o chão na divisão ao lado. Chorei! Chorei verdadeiramente, num sufoco inigualável. Tinha perdido…estava perdida! Não me pude despedir dela. Na última vez que falei com ela era Quinta-feira e ela dizia-me para eu ir a casa no fim-de-semana. Ela fazia anos no dia 13 de Julho!

 

Texto de Cláudia da Silva Mousinho

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claudia.s.s.x.silva@gmail.com

Psicologia e Desenvolvimento Pessoal

Geração One-Night Stand

Hoje venho falar-vos de um tema que se insere dentro de um dos Life Quadrants que considero ser, simultaneamente, um dos pilares da nossa civilização: a Relação. Mais concretamente, venho falar-vos de um fenómeno polémico e provocador que, ao longo da última década, tem vindo a captar o interesse da comunidade cientifica, ao ter ganho uma expressão tremenda nas dinâmicas relacionais dos (as) nossos (as) jovens. Hoje, venho falar-vos do fenómeno do One-Night Stand.

Os One-Night Stands (ONS) – encontros breves de sexo ocasional – têm vindo a enraizar-se no seio das dinâmicas dos (as) estudantes no Ensino Superior. Contexto onde diversos estudos têm encontrado uma taxa de prevalência desta prática superior a 50% (Claxton & vanDulmen, 2013; Garcia, Reiber, Mass & Merriwether, 2012; Stinson, 2010). As relações românticas (como o namoro), que outrora dominavam o campus académico, hoje praticamente despareceram do reportório comportamental dos (as) estudantes (Glenn & Marquardt, 2001) que substituíram os afetos pelo sexo e o compromisso pela diversão. Popularizando e normatizando as práticas de Sexo Ocasional (Paul, McManus & Hayes, 2000; Garcia, Reiber, Massey & Merriwether, 2012), colocando o One-Night Stand como a principal forma de interação íntima entre jovens heterossexuais no Ensino Superior (Bogle, 2008; Grello, Wesh & Harper, 2006; McAnulty, 2012; Townsend & Wasserman, 2011).

Embora estes dados sejam consistentes com a Teoria da Adultez Emergente (Arnett, 2000) que defende que este período de desenvolvimento, rico em oportunidades de transformação do self, leva a que os (as) jovens sucumbam à ânsia da experimentação sem olhar às consequências, a incursão em ONS não está isenta de riscos. Associada a elevados consumos de álcool e à prática de sexo desprotegido, coloca os (as) jovens em rota de colisão com DSTs, gravidezes indesejadas, violações e agressões, e despoleta sentimentos de arrependimento, culpa e vergonha (Campbell, 2008). Foi a consciencialização do paradoxo entre esta alteração na estrutura das relações sociais dos (as) jovens e os riscos que poderão advir da prática de ONS, que deu o mote ao estudo que realizei no âmbito da minha dissertação de mestrado e que, em seguida, vos descrevo de forma breve.

OBJETIVO DO ESTUDO: Explorar a vivência do fenómeno do ONS. Compreender as suas definições e funções, os sentimentos e pensamentos associados às suas dinâmicas e explorar o papel do Ensino Superior na prática de sexo ocasional.

MÉTODO: A amostra contou com a participação voluntária de 11 estudantes do sexo masculino (subgrupo masculino) e 11 estudantes do sexo feminino (subgrupo feminino) de 1o ciclo da Universidade de Évora, com idades compreendidas entre os 18 e os 25 anos. Todos (as) os (as) participantes reportaram já ter incorrido, pelo menos uma vez, num ONS.

Selecionámos como instrumento principal a entrevista semiestruturada e realizámos um pequeno estudo piloto com o fim de averiguar o caráter unívoco dos itens o guião. As entrevistas foram realizadas presencialmente. Os dados foram analisados através da análise de conteúdo com o seguinte procedimento: (1) leitura flutuante e análise te- mática do corpus, (2) agrupamento diferencial dos dados em termos de conteúdo e (3) repetição do processo de codificação para averiguar a estabilidade temporal dos resultados. Recorremos a um juiz independente, com o qual refletimos, conjuntamente, o processo.

RESULTADOS: Ambos os subgrupos consideraram a prática uma interação física. No entanto, tanto rapazes como raparigas se mostraram confusos relativamente ao caráter exclusivamente sexual desta interação e algumas diferenças de género começaram a ganhar forma através das definições que os (as) jovens atribuem ao ONS. As funções que o ONS subjaz na vida relacional dos (as) jovens apareceram muito centradas no Self, desvalorizando e instrumentalizando o (a) parceiro (a), que é utilizado (a) unicamente para gratificar este Self. Parecendo a experiência não contribuir para a descoberta do Outro ou para a descoberta de um Eu relacional. O momento que antecede o encontro foi realçado como o mais gratificante para os rapazes, com 73% a relatarem sentir desejo sexual, contra apenas 27% das raparigas. Para estas é a adrenalina e a ausência de pensamentos que domina este momento pré-incursão. Durante o encontro, 63% dos rapazes e 54% das raparigas reportam não ter qualquer sentimento ou pensamento, parecendo sugerir que a passagem ao ato leva ao desvanecimento do prazer. Após o ONS, a experiência parece remeter 73% dos rapazes para um paradoxo entre o sentimento de bem estar (físico e psíquico) e o aparecimento de sentimentos de arrependimento

Para 82% dos rapazes e 73% das raparigas é a universidade que incita e promove a incursão em One-Night Stand. Ambos os subgrupos destacaram o facto de terem mais autonomia e menos controlo parental, a pluralidade (na oferta) de interações sociais, a falta de imposição de responsabilidades adultas e a normatização das práticas sexuais como as principais caraterísticas que, neste contexto, promovem o ONS.

Em suma, o estudo pareceu sugerir que a incursão em ONS é mais intencional nos rapazes do que nas raparigas, dado que para estas o consumo de álcool e a ausência de pensamentos são os propulsores que levam à experiência. O ONS não parece ser sentido como uma experiência gratificante nem pessoal nem sexualmente, particularmente para as raparigas. Embora a falta de proteção tenha sido referida como comum nestes encontros, apenas 18% dos rapazes e 45% das raparigas afirmaram que não usar preservativo os (as) levaria ao arrependimento.

Ainda que os resultados do estudo não possam ser generalizados a toda a comunidade académica, esperamos ter fomentado a critica entre os nossos leitores, a quem deixamos uma reflexão de Mario Vargas Llosa (na sua obra “La Civilización del Espectáculo)

o ato sexual retorna a ser un ejercicio puramente físico (…)en el organismo humano de la que el hombre y la mujer son meros instrumentos pasivos (…) desacralizar la vida sexual convirtiéndola en una práctica tan común y corriente como comer, dormir e ir al trabajo, tengan como consecuencia desilusionar precozmente a las nuevas generaciones de la práctica sexual. Ésta perderá misterio, pasión, fantasía y creatividad y se habrá banalizado hasta confundirse con una mera calistenia(Vargas Llosa, 2012).

  • Arnett, J. (2000). Emerging adulthood: A theory of development from the late teens through the twenties. American Psychologist, 55, 469-480. doi:10.1037/0003066X.55.5.469
  • Bogle, K. A. (2008). Hooking-Up: Sex, Dating and Relationships onCampus.NewYork:NewYorkUniversityPress.
  • Campbell,A.(2008). AffectivereactionstoOne-NightStandsamongMatedandUnmatedWomenandMen.HumanNature,19,157-173.doi:10.1007/s12110-008-9036-2.
  • Claxton, S. & van Dulman, M. (2013). Casual Sexual Relationships and Experiences in Emerging Adulthood. Society for the Study of Emerging Adulthood, 1, 138-150. doi: 10.1177/2167696813487181 // Garcia, J., Reiber, C., Massey, S. & Merriwether, A. (2012). Sexual Hookup Culture: A Review. Review of General Psychology, 16, 161-176. doi: 10.1037/a0027911 // Stinson, R. (2010). Hooking Up In Young Adulthood: A Review of Factors Influencing the Sexual Behavior of College Students. The Journal of College Stu- dents Psychotherapy, 24, 98-115. doi: 10.1080/87568220903558596
  • Mario Vargas Llosa. La civilización del espectáculo. Santillana Ediciones Generales, S.L. Alfaguara.

 

Texto de Filipa da Piedade Rosado

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filipa.p.rosado@gmail.com

Memórias e Fotografia

À minha querida Marta.

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A vida ensinou-me que há muitas formas de se estar presente.

Quando a doce lembrança do teu sorriso nos cerca a memória logo pela manhã, é sinal que estás por perto. Quando aquela música que passa na radio me lembra de ti, eu fecho os olhos e vejo-te sorrir e sei que estás por perto.

Desculpa… hoje não te faço um bolo de fubá para comemorar o teu dia, mas desenho-te junto a mim.

Feliz aniversário à Dra. mais querida deste mundo e do outro!

 

 

Texto e desenho de Joana Almeida

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Memórias e Fotografia

[Sobre o (meu) amor]

É agora, que escrevo sobre ti e sobre este amor que nos ampara a vida, que reparo que não conheço as palavras, que não encontro o sentido que elas me fazem, que desconheço o paradeiro dos desenhos que faço na minha cabeça, quando te invento sobre as estrelas que me iluminam a noite.

Não me lembro exactamente da altura em que me apaixonei pelo tom suave da tua voz e pela leveza com que me enchias os dias. Nem me lembro sequer do dia exacto em que soube que este amor me iria acompanhar para sempre, sem que o para sempre se parece-se demasiado longo.

E mesmo agora,

Enquanto me afagas o cabelo e me aconchegas ao teu peito, eu não encontro a parede onde o meu amor se cravou. Nem o sol que se escorre para dentro do horizonte dos meus olhos, meu amor. Eu não me encontro em nós, sempre que te tento falar de amor.

 

Texto de Joana Almeida

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Memórias e Fotografia

As Raízes da Saudade – IV (Parte II)

Lembro-me do barulho da colher a bater na cafeteira enquanto misturavas a cevada com a água quente. Recordo aquele cheiro delicioso que envolvia a casa toda logo pela manhã. E lembro-me de ir contigo comprar a cevada numa velha e pequenina loja nos Restauradores.

Saíamos cedo de casa para ir apanhar o primeiro autocarro. Lembro-me de estar frio e de estar enrolada na minha capa cor-de-rosa e de ter as minhas luvas nas mãos. Ia de mão dada contigo. Levavas na outra mão o teu saco preto que imitava pele, que usavas para colocar as compras. Dentro do saco levavas migalhas de pão que eu sabia muito bem para o que serviam.

Saíamos do autocarro e o meu entusiasmo crescia à medida que nos dirigíamos para o comboio. Adorava andar de comboio, adorava ver as pessoas, observar os seus gestos. Adorava o som do comboio a avançar na linha e adorava ver os grafitis nas paredes ao longo do caminho.

Chegávamos ao Rossio, davas-me a mão e encaminhávamo-nos para fora da estação. Atravessávamos ruas e praças, passando em cada esquina pelos carros dos assadores de castanhas, e lá estava a loja do café com o seu cheiro tão característico e delicioso. Compravas a cevada enquanto eu olhava a minha volta fascinada com a quantidade de diferentes tipos de café expostos nas prateleiras, completamente inebriada por aquele cheiro que recordo até aos dias de hoje. Davam-te a cevada numa embalagem de papel, agrafada na parte de cima, pagavas e saíamos. Lembro-me de pôr o pé fora da loja, olhar para trás e respirar fundo numa tentativa de guardar em mim aquele cheiro que eu adorava. Talvez por isso goste tanto de café nos dias de hoje.

O passo seguinte era ir comprar bacalhau. Numa loja igualmente pequena mas nem de perto tão mágica como a loja de café. Ali não havia cheiros deliciosos nem prateleiras carregadas de embalagens de café com cores diferentes. E eu continuava a sonhar com a loja do café, a rever mentalmente as prateleiras e a respirar fundo numa tentativa de reavivar o cheiro na minha memória.

Quando pagavas e dizias “Anda filha. Vamos embora” eu voltava à realidade porque sabia o que se seguia. Sabia que agora era o momento em que as migalhas de pão cumpriam a função para qual havia sido destinadas. Dirigíamo-nos ao centro da praça, que naquela altura me parecia menos escura e suja do que nos dias de hoje, e eu com a minha capa cor-de-rosa corria na direcção dos pombos para os ver voar à minha volta. O barulho do bater das asas misturava-se com o barulho da minha gargalhada. Tu olhavas para mim e sorrias. Era das poucas vezes em que te via sorrir e em que me deixavas ser eu.

– Toma filha. Toma as migalhas. Põe assim na mão. – dizias tu entusiasmada.

Eu tirava as luvas roxas que te entregava, pegava nas migalhas, abria as mãos e encolhia-me toda sempre que os pombos subiam para os meus braços. E ria… ria com vontade.

Atirava migalhas para o chão para os ver comer e uma vez peguei nas migalhas e coloquei-as nos ombros. Quando dei por mim estava coberta de pombos e tu rias ao observar aquele espectáculo. Lembro-me de ver meia dúzia de pessoas a parar para tirar fotografias.

As migalhas acabavam e eu voltava para o teu lado.

-Então, foi giro? – perguntavas tu com um sorriso no rosto.

– SIIIIM – gritava eu de alegria.

– Agora temos que ir embora. A avó tem que ir fazer o almoço. – Dizias enquanto sacudias o resto das migalhas que tinham ficado agarradas à minha capa cor-de-rosa.

Eu dava-te a mão e dirigíamo-nos à estação dos comboios.

Lembro-me de estar feliz!

 

Texto de Cláudia da Silva Mousinho

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Memórias e Fotografia

As Raízes da Saudade – VIII (Parte I)

 

Estava a chover. Tu ias, como sempre, buscar-me à escola. Dentro da sala de aula já me sentia irrequieta pela antecipação do que ia acontecer. Tocava a campainha e eu arrumava a mochila o mais rápido que podia e saia a correr na tua direcção.

Lá estavas tu, com um saco plástico numa mão, onde guardavas as minhas galochas cor-de-rosa e na outra mão o meu chapéu-de-chuva às riscas coloridas. Sorria quando te via. Ajudavas-me a calçar as galochas e eu, expectante, olhava para ti com o olhar brilhante e perguntava:

– Há poças de água avô?

– Sim, há muitas pelo caminho – dizias tu com um sorriso. Tinha parado de chover.

Eu sorria, com o coração cheio de alegria. Aquela era a melhor parte do dia, em que podia ser eu, sorrir, brincar e saltar sem medos. Porque tu não ralhavas comigo quando eu respingava as minhas calças azuis de bombazine com a água suja das poças de água. Tu sabias que havia coisas mais importantes.

Fazíamo-nos à estrada de mãos dadas e eu sentia-me feliz. Sentia-me criança, sem medos, sem dúvidas, sem incertezas. Levava no coração apenas a certeza de que naquela meia hora até casa ia divertir-me contigo.

Chegávamos à estrada da aventura. Instintivamente, eu parava assim que dobrávamos a esquina como que a antever o divertimento que se avizinhava. Pegavas no teu chapéu-de-chuva fechado, já que o universo parecia conjugar-se a meu favor e normalmente não chovia. Começávamos a nossa caminhada e quando alcançávamos a primeira poça de água eu olhava para ti, tu sorrias, punhas o chapéu dentro da poça para avaliar a profundidade e dizias:

– Podes.

Eu sorria, apertava a tua mão e saltava! A água esguichava para todo o lado acompanhada pelo som da minha gargalhada.

Depois de passar um dia na escola, com tudo o que isso implicava, voltar para casa era o melhor momento. Voltar para os teus braços, para os meus brinquedos, para o colo dela. Saber que estava no meu abrigo, protegida dos olhares indiscretos dos colegas da escola, com quem nunca me dei verdadeiramente bem. Aqueles eram os minutos mais felizes do meu dia.

Repetíamos o momento ao longo do percurso e tu acompanhavas-me sempre com o teu sorriso e eu era feliz!

Texto de Cláudia da Silva Mousinho

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