Palavras e Fotografia

As Raízes da Saudade – IV (Parte I)

Passaram meses e finalmente encontrámos um centro de dia para onde podias ir passar o tempo enquanto o meu pai estava a trabalhar e eu na Universidade.

Não me lembro do teu primeiro dia no centro, mas lembro-me que nos primeiros dias voltavas sempre desanimado. Fazias queixas da comida, dos funcionários, dos companheiros. Estavas num sítio estranho, com pessoas que não conhecias.

– São uns velhos. E são uns malucos. Qualquer dia quem fica maluco sou eu. – dizias.

Foram meses difíceis. Sabíamos que eras bem tratado lá e que não havia razão de queixa dos funcionários. Faziam o que podiam com as condições que tinham. Os teus companheiros eram velhinhos, alguns deles senis. Sabíamos que de cabeça estavas bem, com melhor memória do que qualquer um de nós e no fundo, isso só te tornava tudo mais difícil.

Com o tempo regressavas mais animado, foste abandonando a postura curvada e sofrida que trazias nos últimos meses e já sorrias.

– Hoje estive sentado ao pé da Rosa – disseste com um sorriso malandro.

– Da Rosa? Quem é a Rosa? – perguntei em tom de brincadeira.

– É uma que mora ali para os lados de Belas. Hoje veio meter-se comigo. “Jaiminho, hoje sentas-te aqui ao pé de mim para o almoço.”

– Ai a malandra da Rosinha. A querer arranjar namorado.

– Ela é brincalhona. Andava lá de roda de outro mas lá se chateou com ele…

Estavas a reagir, recomeçaste a brincar, já te via menos lágrimas no rosto. Estavas mais falador, brincavas, contavas o que acontecia no teu dia. Nos dias mais difíceis tentava animar-te, pôr-te a pensar nas coisas boas que ainda te restavam.

Estava a estudar fora nesta altura, tinha iniciado o meu Mestrado. Todas as semanas vinha a casa ver como estavas, ajudar o meu pai nesta tarefa árdua de trabalhar 8 horas por dia e vir para casa a correr cuidar de ti.

Um dia o meu pai ligou.

– Olá pai. Está tudo bem?

– Não. O avô caiu. Partiu o braço.

– Mas como é que isso aconteceu? – perguntei enquanto senti o coração acelerar. Tinhas 88 anos. Qualquer fractura podia ser perigosa.

– Foi ao quarto para fechar as persianas e de repente oiço a chamar por mim. Quando lá cheguei estava caído de lado no chão. Levantei-o, perguntei se estava bem, se lhe doía alguma coisa. Disse que lhe doía o braço mas nada de especial. Passado um bocado disse-me que não estava bem, que o braço estava a doer mais e vim com ele ao hospital. Está partido. Vai ter que ser operado.

Senti o peito gelar, a cabeça andar à roda. Respirei fundo e pensei: “vai tudo correr bem. É uma cirurgia simples e ele vai recuperar.” Não calculei as consequências que isto ia trazer para tua vida e consequentemente para a nossa.

O que é certo, é que foste operado, estiveste mais ou menos um mês no hospital. No dia em que te fomos buscar estavas bem-disposto, ias voltar para casa. Mal nós sabíamos do que se avizinhava. Sair do hospital foi um suplício. Felizmente o pai já tinha comprado a cadeira de rodas como que a prever a falta que nos ia fazer… Não conseguias andar, estavas tão fraco que tive medo que nunca mais fosses capaz de dar um passo. Estiveste um mês de cama, o teu corpo perdeu a pouca força que lhe restava e agora teríamos um enorme desafio pela frente: conseguir que voltasses a andar.

Nos meses seguintes estiveste com gesso no braço. Não podias mexer o braço, tinha que se manter numa determinada posição para garantir que sarava bem e por isso não podias estar deitado na cama. Dormias no sofá. Era inverno e estava frio. O pai mantinha o aquecedor ligado no mínimo para evitar sustos de maior, tapava-te com as mantas e tentava que pudesses ficar o mais confortável que era possível. Foram longas semanas nesta situação. Sempre em sobressalto, atentos ao mínimo sinal de desconforto. A dada altura estavas com tosse. Uma tosse que às vezes quase te sufocava. Fomos contigo ao médico e disseram-nos que tinhas uma infecção respiratória. Fomos assolados por um sentimento de culpa avassalador. Tinhas passado semanas a dormir no sofá da sala, tentámos manter-te o mais quente e confortável possível com as condições que tínhamos mas não tinha sido suficiente. Estavas doente, muito doente.

Travaste batalhas de gigante no final da tua vida e esta era mais uma delas. Pouco tempo houve de paz desde que ela morreu. Eu sabia que tudo ia acontecer depressa e que as nossas vidas iam mudar, mas nunca pensei que fosses passar por tanto.

Eu voltei para a Universidade, em Évora, como tinha que ser e a preocupação era constante, estavas demasiadas horas sozinho depois de voltares do centro e já não andavas sem ajuda. Não eras capaz de te levantar para ir ao wc e por isso também tinhas que usar fralda. O meu pai deixava-te sempre um copo de água e qualquer coisa para poderes comer até ele chegar, na mesinha de centro da sala, que tinha sido posicionada ao lado do teu sofá. Aí tinhas o comando da televisão, o teu lenço, os teus óculos e o telemóvel para podermos ir falando contigo ao longo do tempo. Não consigo imaginar como será estar tanto tempo sozinho, sentado no mesmo sítio sem liberdade para simplesmente ir ao quintal apanhar sol e ar. Forçava-me a não pensar demasiado nisso enquanto estava fora, obrigava-me a viver a minha vida naquela cidade mágica mas era como se na verdade não estivesse lá.

Vinha a casa à Sexta-feira, com uma ambivalência difícil de pôr em palavras. Queria chegar a casa, pousar as malas e dar-te um beijo e um abraço, mas ao mesmo tempo não queria ter de me confrontar com a tua degradação. Estavas pior a cada semana que passava e era como se de cada vez que te visse me despedisse de ti. Estavas a desaparecer aos poucos.

Sempre que vinha a casa recebias-me com um sorriso.

– Então netinha, já cá estás? – dizias de olhos brilhantes e sorriso aberto.

– Olá avô! Já cheguei!

– Quando vais? – perguntavas numa vã expectativa que te dissesse que já não ia.

– No Domingo, sabes que tenho aulas na segunda-feira – dizia ao mesmo tempo que pensava que todo o tempo era pouco para estar contigo.

– Pois. Tem que ser assim não é… – dizias com o olhar triste de quem sabe que lhe resta tão pouco tempo.

– Como correu a tua semana no centro?

– Oh correu…

– E a Rosinha?

– Oh chateou-se comigo – dizias com o teu ar de malandro.

– Ora essa. Porquê?

– Ela é maluca. Estava com ciúmes lá de uma senhora com quem me dou muito bem. E eu não estou para me chatear.

Eu ria contigo. Admirava a tua capacidade de brincar e rir mesmo sentado numa cadeira de rodas e com a plena consciência de tudo o que estavas a perder. E o que estavas a perder era o bem mais essencial de todos….a vida.

 

Texto de Cláudia da Silva Mousinho

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Palavras e Fotografia

As Raízes da Saudade – IV (Parte II)

Lembro-me do barulho da colher a bater na cafeteira enquanto misturavas a cevada com a água quente. Recordo aquele cheiro delicioso que envolvia a casa toda logo pela manhã. E lembro-me de ir contigo comprar a cevada numa velha e pequenina loja nos Restauradores.

Saíamos cedo de casa para ir apanhar o primeiro autocarro. Lembro-me de estar frio e de estar enrolada na minha capa cor-de-rosa e de ter as minhas luvas nas mãos. Ia de mão dada contigo. Levavas na outra mão o teu saco preto que imitava pele, que usavas para colocar as compras. Dentro do saco levavas migalhas de pão que eu sabia muito bem para o que serviam.

Saíamos do autocarro e o meu entusiasmo crescia à medida que nos dirigíamos para o comboio. Adorava andar de comboio, adorava ver as pessoas, observar os seus gestos. Adorava o som do comboio a avançar na linha e adorava ver os grafitis nas paredes ao longo do caminho.

Chegávamos ao Rossio, davas-me a mão e encaminhávamo-nos para fora da estação. Atravessávamos ruas e praças, passando em cada esquina pelos carros dos assadores de castanhas, e lá estava a loja do café com o seu cheiro tão característico e delicioso. Compravas a cevada enquanto eu olhava a minha volta fascinada com a quantidade de diferentes tipos de café expostos nas prateleiras, completamente inebriada por aquele cheiro que recordo até aos dias de hoje. Davam-te a cevada numa embalagem de papel, agrafada na parte de cima, pagavas e saíamos. Lembro-me de pôr o pé fora da loja, olhar para trás e respirar fundo numa tentativa de guardar em mim aquele cheiro que eu adorava. Talvez por isso goste tanto de café nos dias de hoje.

O passo seguinte era ir comprar bacalhau. Numa loja igualmente pequena mas nem de perto tão mágica como a loja de café. Ali não havia cheiros deliciosos nem prateleiras carregadas de embalagens de café com cores diferentes. E eu continuava a sonhar com a loja do café, a rever mentalmente as prateleiras e a respirar fundo numa tentativa de reavivar o cheiro na minha memória.

Quando pagavas e dizias “Anda filha. Vamos embora” eu voltava à realidade porque sabia o que se seguia. Sabia que agora era o momento em que as migalhas de pão cumpriam a função para qual havia sido destinadas. Dirigíamo-nos ao centro da praça, que naquela altura me parecia menos escura e suja do que nos dias de hoje, e eu com a minha capa cor-de-rosa corria na direcção dos pombos para os ver voar à minha volta. O barulho do bater das asas misturava-se com o barulho da minha gargalhada. Tu olhavas para mim e sorrias. Era das poucas vezes em que te via sorrir e em que me deixavas ser eu.

– Toma filha. Toma as migalhas. Põe assim na mão. – dizias tu entusiasmada.

Eu tirava as luvas roxas que te entregava, pegava nas migalhas, abria as mãos e encolhia-me toda sempre que os pombos subiam para os meus braços. E ria… ria com vontade.

Atirava migalhas para o chão para os ver comer e uma vez peguei nas migalhas e coloquei-as nos ombros. Quando dei por mim estava coberta de pombos e tu rias ao observar aquele espectáculo. Lembro-me de ver meia dúzia de pessoas a parar para tirar fotografias.

As migalhas acabavam e eu voltava para o teu lado.

-Então, foi giro? – perguntavas tu com um sorriso no rosto.

– SIIIIM – gritava eu de alegria.

– Agora temos que ir embora. A avó tem que ir fazer o almoço. – Dizias enquanto sacudias o resto das migalhas que tinham ficado agarradas à minha capa cor-de-rosa.

Eu dava-te a mão e dirigíamo-nos à estação dos comboios.

Lembro-me de estar feliz!

 

Texto de Cláudia da Silva Mousinho

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Palavras e Fotografia

As Raízes da Saudade – VIII (Parte I)

 

Estava a chover. Tu ias, como sempre, buscar-me à escola. Dentro da sala de aula já me sentia irrequieta pela antecipação do que ia acontecer. Tocava a campainha e eu arrumava a mochila o mais rápido que podia e saia a correr na tua direcção.

Lá estavas tu, com um saco plástico numa mão, onde guardavas as minhas galochas cor-de-rosa e na outra mão o meu chapéu-de-chuva às riscas coloridas. Sorria quando te via. Ajudavas-me a calçar as galochas e eu, expectante, olhava para ti com o olhar brilhante e perguntava:

– Há poças de água avô?

– Sim, há muitas pelo caminho – dizias tu com um sorriso. Tinha parado de chover.

Eu sorria, com o coração cheio de alegria. Aquela era a melhor parte do dia, em que podia ser eu, sorrir, brincar e saltar sem medos. Porque tu não ralhavas comigo quando eu respingava as minhas calças azuis de bombazine com a água suja das poças de água. Tu sabias que havia coisas mais importantes.

Fazíamo-nos à estrada de mãos dadas e eu sentia-me feliz. Sentia-me criança, sem medos, sem dúvidas, sem incertezas. Levava no coração apenas a certeza de que naquela meia hora até casa ia divertir-me contigo.

Chegávamos à estrada da aventura. Instintivamente, eu parava assim que dobrávamos a esquina como que a antever o divertimento que se avizinhava. Pegavas no teu chapéu-de-chuva fechado, já que o universo parecia conjugar-se a meu favor e normalmente não chovia. Começávamos a nossa caminhada e quando alcançávamos a primeira poça de água eu olhava para ti, tu sorrias, punhas o chapéu dentro da poça para avaliar a profundidade e dizias:

– Podes.

Eu sorria, apertava a tua mão e saltava! A água esguichava para todo o lado acompanhada pelo som da minha gargalhada.

Depois de passar um dia na escola, com tudo o que isso implicava, voltar para casa era o melhor momento. Voltar para os teus braços, para os meus brinquedos, para o colo dela. Saber que estava no meu abrigo, protegida dos olhares indiscretos dos colegas da escola, com quem nunca me dei verdadeiramente bem. Aqueles eram os minutos mais felizes do meu dia.

Repetíamos o momento ao longo do percurso e tu acompanhavas-me sempre com o teu sorriso e eu era feliz!

Texto de Cláudia da Silva Mousinho

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