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As Raízes da Saudade – V (Parte II)

Estava calor.

Eu tinha talvez uns quatro ou cinco anos e tu estavas a tirar do saco a minha piscina de plástico. Eu dava pulos e gargalhadas de excitação na expectativa do que aí vinha.

Enquanto o avô abria a piscina, eu e tu colocávamos no chão o cobertor que servia para que a piscina não fosse furada pelas pedras do chão.

Colocavam a piscina em cima do cobertor e eu saltava lá para dentro munida do meu fato de banho roxo e da minha bóia de cintura que servia apenas para acrescentar à diversão.

Pegavas na mangueira e abrias a água. O som da água a correr misturava-se com as minhas gargalhadas e com o chapinhar das minhas pequenas e rechonchudas mãos. Ao mesmo tempo, dançava de felicidade. Imagina, pequenina, de barriguinha rechonchuda rodeada pela bóia de cintura a dar saltinhos de alegria e abanar os braços.

Tu rias, como tão poucas vezes te vi fazer.

– Senta-te filha. Já tens água que chegue para brincar. – dizias tu com o olhar brilhante, ainda que sempre envolvido pela tristeza de todas as tuas perdas.

As saudades que tenho desse olhar que era tão raro. O quanto eu desejei que ele se tornasse mais frequente…Mas a verdade é que por mais que fizesse, por mais que tentasse não conseguia fazê-lo aparecer mais vezes.

Eu sentava-me com a minha bóia azul e branca pontuada com desenhos de bolas de praia coloridas, e ria!

À minha volta andava sempre a nossa cadela Pastor Alemão, a Farrusca. Lembro-me de ter cães desde que me lembro de ser gente, de também eles serem a minha companhia.  Ainda hoje os tenho. São uma espécie de botão de memória para um passo mais ou menos feliz. Recordo-me que por vezes ela se aproximava da piscina para beber água e tu a afastavas, como que para me proteger.

Tu pegavas na água com as mãos enrugadas em concha e molhavas-me a cabeça.

– Tens que molhar a cabeça. O sol está muito quente e depois ficas doente e temos que ir à Senhora Doutora.

Eu aceitava de bom agrado a água fresca que me escorria pelo cabelo curto e pelos ombros. O sol estava, de facto, muito quente e queimava-me a pele frágil mas ávida daquele calor.

Deixavas a água encher a piscina e desligavas a mangueira que o avô voltava agilmente a enrolar. Lembro-me de ficares ali comigo a observar cada gesto. Penso que aqueles eram os poucos momentos em que estavas feliz…ou pelo menos em que a tua tristeza era abafada pelo som das minhas gargalhadas.

Na altura não sabia, mas hoje penso “só por isso já valia a pena rir”.

 

Texto de Cláudia da Silva Mousinho

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As Raízes da Saudade – III (Parte II)

– Oh Sofia, anda lanchar! – chamavas tu da porta da cozinha.

Eu corria na tua direcção com um sorriso nos lábios. Sabia que me tinhas feito um pão com manteiga para o lanche e que ias sentar-te comigo. Enquanto eu lanchava tu abrias a caixa da costura e sentavas-te na cadeira ao lado da minha a coser as meias pretas do meu pai.

Enquanto mastigava, admirava a precisão de cada um dos pontos que davas.

– Cuidado! Olha que ainda deitas o copo do leite ao chão e fazes chiqueiro. – Dizias tu já a antever o que ia acontecer.

De repente o copo estilhaça-se no meio do chão da cozinha e eu paro de mastigar e encolho-me na cadeira. Sabia que ias ralhar comigo. Sabia que ias fazer-me levantar da cadeira e dar-me uma palmada. E assim foi.

Eu fiquei paralisada, com as lágrimas a correrem pela cara e de repente rompi num prato, saí porta fora e fui procurar o avô. Sabia sempre onde o encontrar – na casinha das ferramentas. Lá estava ele pronto a receber-me, a deixar-me chorar e a fazer-me voltar para te pedir desculpa.

Eu voltava, com as pernas a tremer, abria a porta da cozinha e lá estavas tu, sentada numa das cadeiras com a agulha e o dedal no dedo a coser as meias pretas do meu pai. Já tinhas apanhado os cacos e limpo o chão. Não havia vestígios do leite entornado nem das migalhas do meu pão com manteiga. Mas o resto do pão que não tinha comido estava em cima da mesa à espera que eu voltasse. Eu aproximava-me a medo, de cabeça baixa e punha-te a pequenina mão na perna como que a pedir desculpa.

Respiravas fundo, pousavas a meia e a agulha, punhas a mão na minha cabeça e dizias:

– A avó às vezes zanga-se contigo porque te diz as coisas muitas vezes e depois tu vais fazer na mesma. Aviso-te de que te vais magoar e tu continuas e depois magoas-te mesmo.

Eu olhava para baixo e recomeçava a chorar. Tinha medo que fosses ralhar comigo outra vez.

– Vá, pronto. Já passou. Olha para a avó, anda lá. – dizias enquanto pegavas no lenço de pano que trazias sempre no bolso do avental e me limpavas as lágrimas. Eu envolvia-te com um abraço e respirava fundo. Tudo tinha voltado ao normal e eu podia voltar a sorrir. Sentava-me na cadeira ao lado da tua a acabar o meu pão com manteiga e a ver o que estavas a fazer. Absorvia cada gesto. Tudo o que sei hoje fazer, aprendi contigo. Admirava a agilidade com que pegavas na agulha e davas pontos certeiros no tecido ao ponto de quase não se perceber que ali tinha existido um buraco. Outras vezes estavas a passar a ferro e eu montava a minha tábua de engomar e o meu ferro de plástico atrás de ti e fingia estar também a passar a ferro. Talvez por isso hoje em dia seja das coisas que mais gosto de fazer. Davas-me os lenços de pano para passar que eu dobrava com todo o cuidado e punha em cima da tábua. Mantinhas os lenços dobrados e limitavas-te a passar o ferro quente por cima. Eu sentia que tinha feito qualquer coisa de muito importante.

 

Texto de Cláudia da Silva Mousinho

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As Raízes da Saudade – VI (Parte I)

Há meses tínhamos tomado uma das decisões mais difíceis da nossa vida. Tínhamos que procurar uma instituição onde pudesses ficar a tempo inteiro. Já não tínhamos condições para continuar a dar resposta às tuas necessidades na casa onde vivíamos.

Depois de meses que pareceram anos, tínhamos finalmente recebido notícias da Unidade de Cuidados Continuados que tinha vaga para te receber. Depois de tantos meses de desespero, finalmente surgiu uma vaga. Sabíamos que podias ir parar a qualquer ponto do país, porque não havia preferência de escolhas, mas quando nos disseram o sítio o tempo parou. Ourém… Ias para Ourém.

– Olha, lá vamos nós passear todas as semanas. – disse eu numa tentativa de aligeirar o ambiente.

Tínhamos que te contar naquele dia. Tínhamos o fim-de-semana para estar contigo e na segunda-feira seguinte tinhas que dar entrada. Tudo tão depressa.

Naquele dia, chegaste do centro de dia e vinhas muito calado. Eu olhei para o meu pai como que a comunicar-lhe que alguma coisa se passava contigo. Ele já tinha informado o centro de dia, pedindo que não te dissessem nada por ser uma conversa a ter em família. Mas por certo alguém te deu a entender alguma coisa. Sentado no sofá a ver as notícias de repente dizes:

– Hoje estava a dar nas notícias à hora de almoço um lar que foi fechado porque não tinha condições. Batiam nas pessoas e tudo.

Eu e o meu pai olhámos um para o outro, o meu pai ficou de lágrimas nos olhos e naquele momento percebemos que já sabias o que te íamos dizer.

Fomos jantar, acompanhados de um silêncio nada comum nas nossas refeições de família e de um aperto no peito por saber o que se ia passar a seguir. Mal tocaste na comida – a verdade foi assim com todos nós – e não quiseste a tua fruta de sobremesa.

Depois de arrumada a cozinha, com uma lentidão maior do que o normal, quase que como numa tentativa desesperada de adiar o inadiável, fomos para a sala ter contigo. Engolimos em seco, o meu pai ajoelhou-se à tua frente e disse:

– Pai, o pai sabe que temos andando à procura de vagas em lares para o pôr. Não conseguimos ter condições para o ter em casa, não pode continuar a passar tantas horas sozinho. E ali vai ser melhor tratado. Hoje ligaram-nos para nos dizerem que existe uma vaga.

Começas-te a chorar… Senti o peito apertar e as lágrimas começaram a escorrer-me pela cara. Ajoelhei-me à tua frente e deitei a cabeça no teu colo.

– O lar é em Ourem. O pai vai passar este fim-de-semana connosco, mas na segunda-feira tenho que o ir lá deixar. Nós vamos lá ver tudo, ver as condições e vamos vê-lo sempre que podermos. Até se adaptar estamos lá consigo todas as semanas.

Choraste, pegaste no lenço e levaste-o à cara. Soluçavas como se te tivessem arrancado o coração do peito e eu chorei contigo. Disse-te em tom de brincadeira que ias ter uma estadia abençoada, estavas perto de Fátima. Tu olhaste para mim com um leve sorriso no meio das lágrimas. Eu disse-te que ia ver-te sempre que pudesse e que ia tudo correr bem. Ias ser bem tratado e se não fosses iríamos trazer-te de volta para casa. Nunca íamos permitir que fosses mal tratado sem nada fazermos para o evitar.

Respiraste fundo. Eu deitei a cabeça no teu colo e chorei. Eu sabia que dali para a frente tu ias piorar, e sabia que talvez no ano seguinte naquela data já não me dirias “Bom dia netinha”.

Não me lembro do que aconteceu depois. A última memória que tenho desse dia é de estar sentada aos teus pés, com a cabeça no teu colo enquanto me fazias festas na cabeça com uma mão e limpavas as tuas lágrimas com a outra. Nesse momento recordei todos os momentos em que isto havia acontecido por eu estar triste e como sempre seres o único capaz de me suportar a chorar sem dizer nada nem fazer perguntas.

Ia perder isso também…

 

Texto de Cláudia da Silva Mousinho

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As Raízes da Saudade – IV (Parte I)

Passaram meses e finalmente encontrámos um centro de dia para onde podias ir passar o tempo enquanto o meu pai estava a trabalhar e eu na Universidade.

Não me lembro do teu primeiro dia no centro, mas lembro-me que nos primeiros dias voltavas sempre desanimado. Fazias queixas da comida, dos funcionários, dos companheiros. Estavas num sítio estranho, com pessoas que não conhecias.

– São uns velhos. E são uns malucos. Qualquer dia quem fica maluco sou eu. – dizias.

Foram meses difíceis. Sabíamos que eras bem tratado lá e que não havia razão de queixa dos funcionários. Faziam o que podiam com as condições que tinham. Os teus companheiros eram velhinhos, alguns deles senis. Sabíamos que de cabeça estavas bem, com melhor memória do que qualquer um de nós e no fundo, isso só te tornava tudo mais difícil.

Com o tempo regressavas mais animado, foste abandonando a postura curvada e sofrida que trazias nos últimos meses e já sorrias.

– Hoje estive sentado ao pé da Rosa – disseste com um sorriso malandro.

– Da Rosa? Quem é a Rosa? – perguntei em tom de brincadeira.

– É uma que mora ali para os lados de Belas. Hoje veio meter-se comigo. “Jaiminho, hoje sentas-te aqui ao pé de mim para o almoço.”

– Ai a malandra da Rosinha. A querer arranjar namorado.

– Ela é brincalhona. Andava lá de roda de outro mas lá se chateou com ele…

Estavas a reagir, recomeçaste a brincar, já te via menos lágrimas no rosto. Estavas mais falador, brincavas, contavas o que acontecia no teu dia. Nos dias mais difíceis tentava animar-te, pôr-te a pensar nas coisas boas que ainda te restavam.

Estava a estudar fora nesta altura, tinha iniciado o meu Mestrado. Todas as semanas vinha a casa ver como estavas, ajudar o meu pai nesta tarefa árdua de trabalhar 8 horas por dia e vir para casa a correr cuidar de ti.

Um dia o meu pai ligou.

– Olá pai. Está tudo bem?

– Não. O avô caiu. Partiu o braço.

– Mas como é que isso aconteceu? – perguntei enquanto senti o coração acelerar. Tinhas 88 anos. Qualquer fractura podia ser perigosa.

– Foi ao quarto para fechar as persianas e de repente oiço a chamar por mim. Quando lá cheguei estava caído de lado no chão. Levantei-o, perguntei se estava bem, se lhe doía alguma coisa. Disse que lhe doía o braço mas nada de especial. Passado um bocado disse-me que não estava bem, que o braço estava a doer mais e vim com ele ao hospital. Está partido. Vai ter que ser operado.

Senti o peito gelar, a cabeça andar à roda. Respirei fundo e pensei: “vai tudo correr bem. É uma cirurgia simples e ele vai recuperar.” Não calculei as consequências que isto ia trazer para tua vida e consequentemente para a nossa.

O que é certo, é que foste operado, estiveste mais ou menos um mês no hospital. No dia em que te fomos buscar estavas bem-disposto, ias voltar para casa. Mal nós sabíamos do que se avizinhava. Sair do hospital foi um suplício. Felizmente o pai já tinha comprado a cadeira de rodas como que a prever a falta que nos ia fazer… Não conseguias andar, estavas tão fraco que tive medo que nunca mais fosses capaz de dar um passo. Estiveste um mês de cama, o teu corpo perdeu a pouca força que lhe restava e agora teríamos um enorme desafio pela frente: conseguir que voltasses a andar.

Nos meses seguintes estiveste com gesso no braço. Não podias mexer o braço, tinha que se manter numa determinada posição para garantir que sarava bem e por isso não podias estar deitado na cama. Dormias no sofá. Era inverno e estava frio. O pai mantinha o aquecedor ligado no mínimo para evitar sustos de maior, tapava-te com as mantas e tentava que pudesses ficar o mais confortável que era possível. Foram longas semanas nesta situação. Sempre em sobressalto, atentos ao mínimo sinal de desconforto. A dada altura estavas com tosse. Uma tosse que às vezes quase te sufocava. Fomos contigo ao médico e disseram-nos que tinhas uma infecção respiratória. Fomos assolados por um sentimento de culpa avassalador. Tinhas passado semanas a dormir no sofá da sala, tentámos manter-te o mais quente e confortável possível com as condições que tínhamos mas não tinha sido suficiente. Estavas doente, muito doente.

Travaste batalhas de gigante no final da tua vida e esta era mais uma delas. Pouco tempo houve de paz desde que ela morreu. Eu sabia que tudo ia acontecer depressa e que as nossas vidas iam mudar, mas nunca pensei que fosses passar por tanto.

Eu voltei para a Universidade, em Évora, como tinha que ser e a preocupação era constante, estavas demasiadas horas sozinho depois de voltares do centro e já não andavas sem ajuda. Não eras capaz de te levantar para ir ao wc e por isso também tinhas que usar fralda. O meu pai deixava-te sempre um copo de água e qualquer coisa para poderes comer até ele chegar, na mesinha de centro da sala, que tinha sido posicionada ao lado do teu sofá. Aí tinhas o comando da televisão, o teu lenço, os teus óculos e o telemóvel para podermos ir falando contigo ao longo do tempo. Não consigo imaginar como será estar tanto tempo sozinho, sentado no mesmo sítio sem liberdade para simplesmente ir ao quintal apanhar sol e ar. Forçava-me a não pensar demasiado nisso enquanto estava fora, obrigava-me a viver a minha vida naquela cidade mágica mas era como se na verdade não estivesse lá.

Vinha a casa à Sexta-feira, com uma ambivalência difícil de pôr em palavras. Queria chegar a casa, pousar as malas e dar-te um beijo e um abraço, mas ao mesmo tempo não queria ter de me confrontar com a tua degradação. Estavas pior a cada semana que passava e era como se de cada vez que te visse me despedisse de ti. Estavas a desaparecer aos poucos.

Sempre que vinha a casa recebias-me com um sorriso.

– Então netinha, já cá estás? – dizias de olhos brilhantes e sorriso aberto.

– Olá avô! Já cheguei!

– Quando vais? – perguntavas numa vã expectativa que te dissesse que já não ia.

– No Domingo, sabes que tenho aulas na segunda-feira – dizia ao mesmo tempo que pensava que todo o tempo era pouco para estar contigo.

– Pois. Tem que ser assim não é… – dizias com o olhar triste de quem sabe que lhe resta tão pouco tempo.

– Como correu a tua semana no centro?

– Oh correu…

– E a Rosinha?

– Oh chateou-se comigo – dizias com o teu ar de malandro.

– Ora essa. Porquê?

– Ela é maluca. Estava com ciúmes lá de uma senhora com quem me dou muito bem. E eu não estou para me chatear.

Eu ria contigo. Admirava a tua capacidade de brincar e rir mesmo sentado numa cadeira de rodas e com a plena consciência de tudo o que estavas a perder. E o que estavas a perder era o bem mais essencial de todos….a vida.

 

Texto de Cláudia da Silva Mousinho

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As Raízes da Saudade – IV (Parte II)

Lembro-me do barulho da colher a bater na cafeteira enquanto misturavas a cevada com a água quente. Recordo aquele cheiro delicioso que envolvia a casa toda logo pela manhã. E lembro-me de ir contigo comprar a cevada numa velha e pequenina loja nos Restauradores.

Saíamos cedo de casa para ir apanhar o primeiro autocarro. Lembro-me de estar frio e de estar enrolada na minha capa cor-de-rosa e de ter as minhas luvas nas mãos. Ia de mão dada contigo. Levavas na outra mão o teu saco preto que imitava pele, que usavas para colocar as compras. Dentro do saco levavas migalhas de pão que eu sabia muito bem para o que serviam.

Saíamos do autocarro e o meu entusiasmo crescia à medida que nos dirigíamos para o comboio. Adorava andar de comboio, adorava ver as pessoas, observar os seus gestos. Adorava o som do comboio a avançar na linha e adorava ver os grafitis nas paredes ao longo do caminho.

Chegávamos ao Rossio, davas-me a mão e encaminhávamo-nos para fora da estação. Atravessávamos ruas e praças, passando em cada esquina pelos carros dos assadores de castanhas, e lá estava a loja do café com o seu cheiro tão característico e delicioso. Compravas a cevada enquanto eu olhava a minha volta fascinada com a quantidade de diferentes tipos de café expostos nas prateleiras, completamente inebriada por aquele cheiro que recordo até aos dias de hoje. Davam-te a cevada numa embalagem de papel, agrafada na parte de cima, pagavas e saíamos. Lembro-me de pôr o pé fora da loja, olhar para trás e respirar fundo numa tentativa de guardar em mim aquele cheiro que eu adorava. Talvez por isso goste tanto de café nos dias de hoje.

O passo seguinte era ir comprar bacalhau. Numa loja igualmente pequena mas nem de perto tão mágica como a loja de café. Ali não havia cheiros deliciosos nem prateleiras carregadas de embalagens de café com cores diferentes. E eu continuava a sonhar com a loja do café, a rever mentalmente as prateleiras e a respirar fundo numa tentativa de reavivar o cheiro na minha memória.

Quando pagavas e dizias “Anda filha. Vamos embora” eu voltava à realidade porque sabia o que se seguia. Sabia que agora era o momento em que as migalhas de pão cumpriam a função para qual havia sido destinadas. Dirigíamo-nos ao centro da praça, que naquela altura me parecia menos escura e suja do que nos dias de hoje, e eu com a minha capa cor-de-rosa corria na direcção dos pombos para os ver voar à minha volta. O barulho do bater das asas misturava-se com o barulho da minha gargalhada. Tu olhavas para mim e sorrias. Era das poucas vezes em que te via sorrir e em que me deixavas ser eu.

– Toma filha. Toma as migalhas. Põe assim na mão. – dizias tu entusiasmada.

Eu tirava as luvas roxas que te entregava, pegava nas migalhas, abria as mãos e encolhia-me toda sempre que os pombos subiam para os meus braços. E ria… ria com vontade.

Atirava migalhas para o chão para os ver comer e uma vez peguei nas migalhas e coloquei-as nos ombros. Quando dei por mim estava coberta de pombos e tu rias ao observar aquele espectáculo. Lembro-me de ver meia dúzia de pessoas a parar para tirar fotografias.

As migalhas acabavam e eu voltava para o teu lado.

-Então, foi giro? – perguntavas tu com um sorriso no rosto.

– SIIIIM – gritava eu de alegria.

– Agora temos que ir embora. A avó tem que ir fazer o almoço. – Dizias enquanto sacudias o resto das migalhas que tinham ficado agarradas à minha capa cor-de-rosa.

Eu dava-te a mão e dirigíamo-nos à estação dos comboios.

Lembro-me de estar feliz!

 

Texto de Cláudia da Silva Mousinho

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As Raízes da Saudade – VIII (Parte I)

 

Estava a chover. Tu ias, como sempre, buscar-me à escola. Dentro da sala de aula já me sentia irrequieta pela antecipação do que ia acontecer. Tocava a campainha e eu arrumava a mochila o mais rápido que podia e saia a correr na tua direcção.

Lá estavas tu, com um saco plástico numa mão, onde guardavas as minhas galochas cor-de-rosa e na outra mão o meu chapéu-de-chuva às riscas coloridas. Sorria quando te via. Ajudavas-me a calçar as galochas e eu, expectante, olhava para ti com o olhar brilhante e perguntava:

– Há poças de água avô?

– Sim, há muitas pelo caminho – dizias tu com um sorriso. Tinha parado de chover.

Eu sorria, com o coração cheio de alegria. Aquela era a melhor parte do dia, em que podia ser eu, sorrir, brincar e saltar sem medos. Porque tu não ralhavas comigo quando eu respingava as minhas calças azuis de bombazine com a água suja das poças de água. Tu sabias que havia coisas mais importantes.

Fazíamo-nos à estrada de mãos dadas e eu sentia-me feliz. Sentia-me criança, sem medos, sem dúvidas, sem incertezas. Levava no coração apenas a certeza de que naquela meia hora até casa ia divertir-me contigo.

Chegávamos à estrada da aventura. Instintivamente, eu parava assim que dobrávamos a esquina como que a antever o divertimento que se avizinhava. Pegavas no teu chapéu-de-chuva fechado, já que o universo parecia conjugar-se a meu favor e normalmente não chovia. Começávamos a nossa caminhada e quando alcançávamos a primeira poça de água eu olhava para ti, tu sorrias, punhas o chapéu dentro da poça para avaliar a profundidade e dizias:

– Podes.

Eu sorria, apertava a tua mão e saltava! A água esguichava para todo o lado acompanhada pelo som da minha gargalhada.

Depois de passar um dia na escola, com tudo o que isso implicava, voltar para casa era o melhor momento. Voltar para os teus braços, para os meus brinquedos, para o colo dela. Saber que estava no meu abrigo, protegida dos olhares indiscretos dos colegas da escola, com quem nunca me dei verdadeiramente bem. Aqueles eram os minutos mais felizes do meu dia.

Repetíamos o momento ao longo do percurso e tu acompanhavas-me sempre com o teu sorriso e eu era feliz!

Texto de Cláudia da Silva Mousinho

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