Palavras e Fotografia

Aquela Casa

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Adormece-me a alma devagar, que o dia de hoje se prolonga pelas noites que já não durmo.

Adormece-me sempre que houver demora na recolha que fazemos pelas horas.

Sempre que o amor se espalhe pelos dias, como aquela luz que entrava pelas brechas dos estores da casa velha.

Tenho saudades daquela casa, sabes? Quando o mundo se resumia a nós e tudo o que existia para além disso era apenas pó… montes e montes de pó.

 

Texto de Joana Almeida

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Palavras e Fotografia

As Raízes da Saudade – V (Parte II)

Estava calor.

Eu tinha talvez uns quatro ou cinco anos e tu estavas a tirar do saco a minha piscina de plástico. Eu dava pulos e gargalhadas de excitação na expectativa do que aí vinha.

Enquanto o avô abria a piscina, eu e tu colocávamos no chão o cobertor que servia para que a piscina não fosse furada pelas pedras do chão.

Colocavam a piscina em cima do cobertor e eu saltava lá para dentro munida do meu fato de banho roxo e da minha bóia de cintura que servia apenas para acrescentar à diversão.

Pegavas na mangueira e abrias a água. O som da água a correr misturava-se com as minhas gargalhadas e com o chapinhar das minhas pequenas e rechonchudas mãos. Ao mesmo tempo, dançava de felicidade. Imagina, pequenina, de barriguinha rechonchuda rodeada pela bóia de cintura a dar saltinhos de alegria e abanar os braços.

Tu rias, como tão poucas vezes te vi fazer.

– Senta-te filha. Já tens água que chegue para brincar. – dizias tu com o olhar brilhante, ainda que sempre envolvido pela tristeza de todas as tuas perdas.

As saudades que tenho desse olhar que era tão raro. O quanto eu desejei que ele se tornasse mais frequente…Mas a verdade é que por mais que fizesse, por mais que tentasse não conseguia fazê-lo aparecer mais vezes.

Eu sentava-me com a minha bóia azul e branca pontuada com desenhos de bolas de praia coloridas, e ria!

À minha volta andava sempre a nossa cadela Pastor Alemão, a Farrusca. Lembro-me de ter cães desde que me lembro de ser gente, de também eles serem a minha companhia.  Ainda hoje os tenho. São uma espécie de botão de memória para um passo mais ou menos feliz. Recordo-me que por vezes ela se aproximava da piscina para beber água e tu a afastavas, como que para me proteger.

Tu pegavas na água com as mãos enrugadas em concha e molhavas-me a cabeça.

– Tens que molhar a cabeça. O sol está muito quente e depois ficas doente e temos que ir à Senhora Doutora.

Eu aceitava de bom agrado a água fresca que me escorria pelo cabelo curto e pelos ombros. O sol estava, de facto, muito quente e queimava-me a pele frágil mas ávida daquele calor.

Deixavas a água encher a piscina e desligavas a mangueira que o avô voltava agilmente a enrolar. Lembro-me de ficares ali comigo a observar cada gesto. Penso que aqueles eram os poucos momentos em que estavas feliz…ou pelo menos em que a tua tristeza era abafada pelo som das minhas gargalhadas.

Na altura não sabia, mas hoje penso “só por isso já valia a pena rir”.

 

Texto de Cláudia da Silva Mousinho

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Palavras e Fotografia

SONHOS

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Todos os sonhos.
Repito.
Todos os meus sonhos, cosidos.
Os que costuro com cuidado, num ponto apertado, cerzido na pele que me dói por dentro, todos eles se cravam no meu peito, como uma tatuagem escolhida.
Não te sei explicar a importância da voz que se faz sentir, nem das imagens que, de quando a quando, me atropelam em sobressalto.
Acendo a luz e escrevo-te.
Mesmo em tons de mãos meio vazias, escrevo-te.
Um dia, esta desordem será somente luz a invadir a sombra que se faz sentir.

 

Texto de Joana Almeida

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Psicologia

Quer falar-me melhor sobre isso? Relações Sociais: O Inferno sem os Outros.

Uma das características que definiu a história evolutiva dos seres humanos, foi a sua propensão e aptidão para funcionar em pequenos grupos. Há centenas de milhares de anos atrás, a pertença a um grupo ditaria de forma quase certa, o futuro de um elemento da nossa espécie e o isolamento seria uma sentença de morte imediata. É esta a razão pela qual ouvimos frequentemente chamar ao Ser Humano, um “animal social”. Contudo, com o avanço das eras e das formas de vida em sociedade, é hoje consideravelmente diferente viver em grupo. O isolamento continua a estar presente na nossa sociedade, contudo, numa parte considerável das zonas em que habitamos não teremos predadores que possam ameaçar a nossa sobrevivência. Antes que respiremos todos de alívio perante esta constatação aparentemente optimista, a investigação científica tem mostrado que os efeitos da solidão estão bem para lá do que nos parece mais aparente.

A solidão no século XXI

O isolamento social é cada vez mais considerado um problema dos nossos dias, de tal maneira que até alguns países, como é o caso do Reino Unido, já criaram especificamente novos ministérios dedicados à sua erradicação. Mas porque é o isolamento social um problema tão importante e qual é a sua relevância para o leitor? Comecemos por analisar algumas evidências:

  1. O ambiente social tem influência na saúde psicológica dos seres humanos: Segundo o Inquérito Social Europeu (citado por Nós e os Outros), quem mantém boas relações com os outros apresenta maiores níveis de felicidade do que aqueles que não mantêm.
  2. O ambiente social tem influência na saúde física dos seres humanos: Aqueles que têm melhores relações com os outros tendem a ter menos doenças e uma maior esperança de vida comparativamente a quem não tem boas relações com os outros. Mais ainda, o isolamento social pode aumentar o risco de morte prematura em cerca de 45%. O que nos permite afirmar que, estar isolado e sentir-se sozinho é tão nocivo quanto fumar 15 cigarros por dia (Holt-Lundstad, Smith & Layton citado por Lima, 2018).
  3. Portugal é um dos países que apresenta maiores taxas de isolamento social. Estima-se que cerca de 22% dos portugueses com 65 ou mais anos viva sozinho. O inquérito social europeu de 2014 mostrou ainda que cerca de 12,5% dos Portugueses se sentiram na última semana, muitas vezes ou quase sempre sós. Embora nos jovens adultos este valor seja baixo, no caso dos mais velhos sobe para cerca de 18%, isto é, quase 1 em cada 5 portugueses com idade igual ou superior a 65 anos referiu sentir-se sozinho na grande maioria do tempo. Estes dados tornam-se consternadores se nos recordarmos que Portugal é dos países da Europa com maiores taxas de envelhecimento populacional.

Asseguro ao leitor que existem muitas mais evidências para outros problemas associados ao isolamento e solidão, mas que infelizmente, por questões de espaço não poderei abordar aqui. Contudo, a principal conclusão que devemos retirar é que um mau ambiente social tem sérias implicações na saúde dos seres humanos. Por este motivo, ao falar em autocuidado é de extrema importância lembrar que as nossas relações sociais devem também ser elas alvo de investimento.

Relações Sociais – A sua importância

Como referi no inicio desta rúbrica, as relações sociais são um dos ingredientes que ditaram e influenciaram a nossa sobrevivência e evolução enquanto espécie. Por esta razão, o contexto social tem influência contínua não apenas na nossa satisfação com as nossas relações, mas também com o nosso funcionamento em geral ao longo do ciclo vital – influindo sobre os nossos estados de humor, níveis de stress, bem-estar, persecução de objectivos, sensação de segurança, sentido de propósito e de significado da nossa vida. Isto significa que as relações sociais modelam-nos, influenciando o nosso comportamento e o nosso bem-estar (Holman, Kanter, Tsai & Kohlenberg, 2017). A qualidade das nossas relações sociais pode ser uma fonte de resiliência ou uma agravante do risco de desenvolvimento de problemas de saúde físicos e psicológicos – algo que se verifica especialmente na maioria dos principais casos de doença mental (Beck citado por Holman, Kanter, Tsai & Kohlenberg, 2017, ; Leach & Kauzler citado por Holman, Kanter, Tsai & Kohlenberg, 2017; Pettit & Joiner citado por Holman, Kanter, Tsai & Kohlenberg, 2017)

Implicações práticas

O leitor poderá estar a questionar-se que soluções existem para combater o problema da solidão e do isolamento social. Quero começar por concordar com Lima (2018) dizendo que “a solidão não se cura com um psicólogo ou com uma linha de apoio 24 horas por dia” – embora a psicologia seja uma das ciências que tanto tem ajudado a compreender as implicações deste problema nas nossas vidas, a sua resolução transcende-se para todos nós. Por esta razão, defendo que é imperativo cuidar das nossas relações sociais. Contudo, tal não significa tornar-se a nova estrela em ascensão com milhares de seguidores nas redes sociais, ou coleccionar uma legião de amizades apenas porque sim. O cuidado implica reciprocidade – não apenas para que possamos falar sobre o que sentimos, mas sim criar um espaço onde o cuidado se dá e recebe (Lima, 2018). Este maior contacto psicológico que pauta as relações de proximidade (Holman, Kanter, Tsai & Kohlenberg, 2017) permite-nos desenvolver a sensação de que iremos ter o apoio e suporte quando mais necessitarmos (Lima, 2018) – eliminando assim o sentimento de isolamento e solidão e todos os seus agravantes para a nossa saúde e bem-estar.

Em suma caro leitor, a solidão é de tal forma corrosiva para a nossa saúde e bem-estar, que vivê-la é, parafraseando Sartre, sentir não que “O inferno são os Outros” mas sim “O inferno sem os Outros”. Não deixe de assegurar um espaço no seu dia-a-dia para cuidar e usufruir das relações com quem sente que lhe faz bem – sejam os seus amigos, família, colegas de trabalho ou qualquer outra actividade de grupo da qual faça parte – pois cuidando deles, cuidará também de si.

 

Texto de Rodrigo Pires

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rodrigopiresuevora@hotmail.com

Psicologia

Quer falar-me melhor sobre isso? Auto cuidado.

Olá de novo caro leitor, espero que se encontre bem. Até agora tenho escrito sobre a utilidade da psicologia ao serviço do ser humano, na tentativa de desmistificar ou clarificar algumas concepções que possam ser ter vindo a ser criadas por outras fontes fora da psicologia. Começarei a rúbrica de hoje com uma pequena analogia: Todos os anos, por volta do inicio da época do inverno começam a surgir as recomendações de vacinação contra a gripe – com especial foco nos grupos vulneráveis. A prevenção é uma estratégia muito eficaz de redução dos problemas de saúde, poupança de recursos e com a qual todos saímos a ganhar. Contudo, a vacinação não é uma realidade aplicável ao campo da saúde mental…ou será que sim? Existirão formas de nos protegermos a nós e à nossa saúde mental? E se, caro leitor, lhe dissesse que elas existem e estão à disposição de qualquer pessoa? Se continua interessado, avancemos então, vou mostrar-lhe um pouco do que estou a falar.

A ciência psicológica tem vindo a dar algumas respostas neste sentido, vejamos: No campo de estudo da saúde mental, os psicólogos têm ao longo das décadas identificado aspectos que, quando presentes, podem aumentar ou reduzir a probabilidade que os seres humanos possuem de desenvolver problemas relacionados com a sua saúde psicológica. Por motivos de espaço, não falarei muito sobre este assunto, mas o importante a reter é que denominamos os factores que reduzem esse risco de “Factores Protectores”. Alguns factores protectores são inerentes aos seres humanos e por essa razão muito complicados de influenciar (pensemos por exemplo nos determinantes biológicos). Contudo, existem outros que podem ser adquiridos ou desenvolvidos (darei aqui como exemplo a prática de exercício físico, que hoje em dia se sabe ser um factor protector da saúde mental (Korge & Nunan, 2018) ).

Portanto, existem certos aspectos que podemos desenvolver para melhor cuidar da nossa saúde psicológica. Estes aspectos, na forma de hábitos, comportamentos ou atitudes podem ser designados de “auto cuidado”. Irei agora falar um pouco melhor sobre alguns aspectos associados a este termo:

Mas como assim “Auto cuidado”?

Eventualmente, alguns dos nossos leitores podem já ter dado por si a ponderar hipóteses de auto cuidado como “Vou começar a praticar desporto” ou “Vou começar a descansar mais”  para no entanto as realizar apenas pontualmente. No entanto, ao invés de pontual, o auto cuidado deve tornar-se parte integrante do nosso dia a dia para que nos seja realmente proveitoso (Pulianda, 2017). É também importante relembrar que quando falamos neste assunto, quantidade e qualidade são conceitos bem diferentes. Muito facilmente poderemos cair na ideia de que para cuidar bem de nós temos de nos envolver em acções, actividades, desenvolver projectos e, em suma, continuar a trabalhar. Contudo, para alguns de nós, o melhor auto cuidado poderá consistir em aprender a desligar: Tirar férias, descansar, conciliar melhor o trabalho com o lazer e no fundo, permitir-se disfrutar a vida. O importante, por isso, é não empreender um plano ambiciosíssimo de desenvolvimento e melhoria pessoal, mas sim perceber o que nos ajuda a viver melhor e a atenteder às nossas necessidades. (Pulianda, 2017).

Epílogo.

Esta rúbrica dá inicio a uma nova série no blog sobre auto cuidado. Nos próximos meses irei escrevendo sobre algumas das suas várias formas. Ao leitor lanço o repto de acompanhar os próximos lançamentos e se lhe aprouver, experimentar algumas das formas que aqui apresentarei. É certo que nenhuma forma de auto cuidado será uma cura para todos os males, nem tão pouco irá substituir a ajuda profissional quando necessário. Contudo, cuidar de nós é um investimento que trará inúmeros ganhos a quem estiver disposto a fazê-lo, ajudando-nos a manter a nossa saúde física e mental mesmo na presença de sobrecargas/dificuldades  – ou como os psicólogos adoram chamar-lhe: ser mais resilientes (Sapienza & Masten citado por Chmitorz et al., 2018)

“Posso ter defeitos, viver ansioso e ficar irritado algumas vezes,

mas não me esqueço de que a minha vida é a maior empresa do mundo,

e posso evitar que ela vá à falência.”

Fernando Pessoa.

 

Referências Bibliográficas:

Chmitorz, A., Kunzler, A., Helmreich, I., Tüscher, O., Kalishc, R., Kubiak, T., … Lieb, K. (2018). Intervention studies to foster resilience –A systematic review and proposal for a resilience framework in future intervention studies. Clinical Psychology Review, 59, 78–100. Doi: https://doi.org/10.1016/j.cpr.2017.11.002

Korge, J. & Nunan, D. (2018). Higher participation in physical activity is associated with less use of inpatient mental health services: A cross-sectional study. Psychiatry Research, 259, 550–553. doi: https://doi.org/10.1016/j.psychres.2017.11.030

Pulianda, M. (2017, Maio 25). The Self-Care Reality Check – I don’t really like yoga, and other confessions. Retirado de: https://www.psychologytoday.com/blog/the-in-between/201705/the-self-care-reality-check

 

Texto de Rodrigo Pires

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rodrigopiresuevora@hotmail.com

Palavras e Fotografia

ECO

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Tenho as palavras a ecoar no horizonte
como uma carta que é escrita por dentro, pela alma.
Não adianta gastar tudo num beijo,
Nem cobrir as manhãs de amor
Há um tempo que (sempre) pára em mim
Um filme a preto e branco que não termina, não tem fim.
Um minuto que se suspende no brilho dos (teus) olhos
Tem uma ponta de silêncio que (me) incomoda
Incrivelmente escondida na brisa que o vento faz.
Texto de Joana Almeida
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Psicologia

Sobre o Amor

A aproximação do dia 14 de Fevereiro, ou dia de S. Valentim, ilustra o nosso cotidiano com cores fervorosas, peluches sorridentes e frases calorosas. A palavra Amor é elevada ao expoente da loucura e apregoada em todas as freguesias como um sermão do Padre António Vieira. No entanto, tal como os peixes, também alguns terráqueos parecem padecer de memória curta, lembrando apenas o conceito da palavra Amor durante os saldos da Victoria Secret e durante as campanhas que o sector do turismo promove para que todos (as) possamos ser atingidos (as) pela flecha do cupido à mesa de um bom restaurante (1 estrela Michelin, mínimo!) ou num spa com circuito termal rejuvenescedor.

Não me interpretem mal, não sou contra estas pequenas manifestações materialmente amorosas e confesso que já sorri genuinamente ao receber um peluche com um coraçãozinho a dizer “I Love You”. Apenas acredito que os detalhes supérfluos só fazem sentido se o Amor já é “presenteado”, expressado e experienciado diariamente através do olhar, do abraço, através dos afetos.

O Amor é despretensioso. O Amor não é de modas nem se maquilha. O Amor é o Amor, sem heterónimos. Sem amarras da efusividade da flecha do Cupido com duração limitada.

O amor não significa borboletas no estomago, nem significa viver incendiado pelo Outro, consumido por e consumindo um “fogo que arde sem se ver”.  O Amor, acreditamos, transcende essa agitação quase fisiológica. Amar trata-se de viver o desassossego em sossego. Viver o outro e com o Outro, amar é respirar o Nós sem comprometer o Eu. Amar eleva-se à paixão. O Amor permite às borboletas planar sobre as nuvens, acalmando o frenesim do voo caótico que desperta as nossas entranhas e leva às “arritmias românticas” e às contrações estomacais.

Amar é ter espaço para existir, não é ser consumido no e pelo fogo, amar é acender a lareira e deixar o fogo respirar, fazendo com que este não extinga. Amar é lançar achas para uma fogueira que não nos derrete, mas nos aquece.

Na minha freguesia o sermão dita que o Amor é vivenciado antes de ser materializado. Na minha freguesia o Amor não é apregoado antes de ser definido.

 

Texto de Filipa da Piedade Rosado

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filipa.p.rosado@gmail.com

Pais e Filhos

Parentalidade Consciente – O que é e como se pratica?

O termo Parentalidade Consciente está cada vez mais presente no nosso discurso, nos dias que correm mas muitos são os que se perguntam o que é e como se traduz na prática. Tem por base os princípios de Mindfulness: a atenção plena no momento presente, de forma não avaliativa e sem julgamentos. A aceitação incondicional da essência do outro – o seu filho. É uma forma de estar e educar consciente, mais alinhada com aquilo que são os seus valores pessoais, a sua intuição e sensibilidade.

Esta forma de estar, implica uma aceitação da própria criança interior e, consequentemente, o fazer as pazes com a própria história de vida. Compreender em que medida essa criança não foi incondicionalmente aceite e de que forma essas feridas condicionam o exercício de parentalidade, já que aquilo que somos e o modo como exercemos a Parentalidade é fruto de padrões de comportamento e de crenças transmitidos de geração em geração e do tipo de parentalidade que os nossos pais exerceram.

Os filhos revelam uma capacidade incrível de evocarem sentimentos profundamente inconscientes e assim, mostram exactamente os lugares onde a nossa paisagem interna precisa de desenvolvimento. A parentalidade é uma viagem que tende a começar com um elevado nível de narcisismo e facilmente se pode cair na armadilha de usar os filhos para colmatar as nossas próprias necessidades.

A Parentalidade Consciente permite uma expansão do seu auto-conhecimento, da consciência de si, do seu ser e das suas necessidades. Quando nos conhecemos melhor, é-nos mais fácil colocar no lugar da criança – o que gera empatia e conexão. Assim conseguimos respeitar melhor sua individualidade, perceber as suas necessidades e (re)conhecer sua personalidade, sem expectativas e exigências. Aprendemos a aceitar os nossos filhos pelo que eles verdadeiramente são e não cobramos que correspondam às nossas expectativas do que deveriam ser.

Quando praticamos parentalidade consciente olhamos para o comportamento das criança, não como algo que temos que corrigir, mas como algo que temos que entender para depois podermos mudar. Os conflitos com os filhos não vão deixar de existir, mas passará a olhar para eles como oportunidades de crescimento mútuo.

Ser mãe ou pai de forma mais consciente é confiar mais no instinto e dar menos espaço aos medos e às opiniões de terceiros; é conseguir colocar-se melhor no lugar da criança e perceber melhor as suas necessidades e conseguir também reconhecer as suas necessidades enquanto pai/mãe. É fazermo-nos observadores astutos do nosso comportamento quando estamos com os filhos. É ver neste papel de pai/mãe uma oportunidade de auto-conhecimento e de crescimento, promovendo relações de cooperação com os filhos, compreendendo que também eles têm muito que lhe podem ensinar, se estiver presente e disponível para os ouvir e aceitar incondicionalmente.

A base fundamental da Parentalidade Consciente é o amor incondicional. Para amar incondicionalmente o seu filho, tem de ser capaz de o ver tal como ele é e isso implica abandonar expectativas, julgamentos e determinadas crenças.

Os pais conscientes não são perfeitos. Os pais conscientes têm confiança de que as respostas se encontram no seio da sua relação com os seus filhos, na experiencia de se identificarem com eles, de compreenderem a sua essências e as suas emoções e necessidades e de estarem atentos ao que os filhos lhe estão a ensinar.

Não quer isto dizer que passamos a ser pais permissivos, que abdicam de toda a sua influência sobre eles e se tornam servos das suas vontades, significa apenas que não é por ele ser mais novo, que os seus sentimentos e pensamentos, as suas necessidades e emoções deixam de ter importância. A parentalidade consciente depende da escuta dos nossos filhos, do respeito e da aceitação da sua essência e da atenção plena às suas necessidades, mas exige também a estipulação de limites e disciplina, bem como a contenção apropriada das suas emoções.

Numa altura em que as pressões para se ser o pai ou a mãe perfeitos são cada vez mais notórias, a Parentalidade Consciente surge como uma lufada de ar fresco e tranquilidade que vem dar ênfase à relação entre pais e filhos mais presente, mais equilibrada e mais genuína.

 

Texto de Cláudia da Silva Mousinho

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Palavras e Fotografia

[Os meus passos]

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Tenho os dedos a entornar palavras
e o corpo a flutuar em pasmos, sobre a noite que nos cerca.
Um desvio do pensamento sempre que o vento me acompanha os passos.

Encontro-te sem hora marcada, entre a leveza do toque que me queima por dentro e a acidez dos dias que se seguem.
Apareces de forma irregular, com sorrisos nas mãos a desfazeres-me em tormentos e palavras por escrever.

Caminho sobre os dias e não sei se o que levo dentro dos bolsos são as peças que te constroem em correntes de ar, daquelas que passam ao de leve, debaixo de cada porta fechada, sobre os pés descalços que percorrem o chão das noites de verão quente.

Se eu te conseguisse mostrar nas palavras, o que me entope o peito,  numa nudez repentina, talvez pudesses compreender o vazio que é, saber que os dias não giram em torno do vento que me acompanha os passos.

 

Texto de Joana Almeida

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Palavras e Fotografia

[Saudade]

Fim de Semana @ Vila Real 20-23.07.2007 012

Há uma saudade que sempre espreita,
Um abraço esquecido,
Um beijo perdido.
Há uma saudade que se esconde,
que se arruma,
que se apaga.
Uma janela aberta,
Uma porta fechada.
Há uma saudade que se estende,
Que perdura,
Que esvoaça.
E em três fases, meu amor…
O vento sopra,
O dia amanhece,
E as palavras morrem.

 

Texto de Joana Almeida

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Fotografia de Nuance Fotografia by Cláudia da Silva Mousinho