Palavras e Fotografia

[Os meus passos]

IMG_20180109_222830

Tenho os dedos a entornar palavras
e o corpo a flutuar em pasmos, sobre a noite que nos cerca.
Um desvio do pensamento sempre que o vento me acompanha os passos.

Encontro-te sem hora marcada, entre a leveza do toque que me queima por dentro e a acidez dos dias que se seguem.
Apareces de forma irregular, com sorrisos nas mãos a desfazeres-me em tormentos e palavras por escrever.

Caminho sobre os dias e não sei se o que levo dentro dos bolsos são as peças que te constroem em correntes de ar, daquelas que passam ao de leve, debaixo de cada porta fechada, sobre os pés descalços que percorrem o chão das noites de verão quente.

Se eu te conseguisse mostrar nas palavras, o que me entope o peito,  numa nudez repentina, talvez pudesses compreender o vazio que é, saber que os dias não giram em torno do vento que me acompanha os passos.

 

Texto de Joana Almeida

IMG_7718

Palavras e Fotografia

[Saudade]

Fim de Semana @ Vila Real 20-23.07.2007 012

Há uma saudade que sempre espreita,
Um abraço esquecido,
Um beijo perdido.
Há uma saudade que se esconde,
que se arruma,
que se apaga.
Uma janela aberta,
Uma porta fechada.
Há uma saudade que se estende,
Que perdura,
Que esvoaça.
E em três fases, meu amor…
O vento sopra,
O dia amanhece,
E as palavras morrem.

 

Texto de Joana Almeida

IMG_7718

Fotografia de Nuance Fotografia by Cláudia da Silva Mousinho

Palavras e Fotografia

[Sobre o (meu) amor]

É agora, que escrevo sobre ti e sobre este amor que nos ampara a vida, que reparo que não conheço as palavras, que não encontro o sentido que elas me fazem, que desconheço o paradeiro dos desenhos que faço na minha cabeça, quando te invento sobre as estrelas que me iluminam a noite.

Não me lembro exactamente da altura em que me apaixonei pelo tom suave da tua voz e pela leveza com que me enchias os dias. Nem me lembro sequer do dia exacto em que soube que este amor me iria acompanhar para sempre, sem que o para sempre se parece-se demasiado longo.

E mesmo agora,

Enquanto me afagas o cabelo e me aconchegas ao teu peito, eu não encontro a parede onde o meu amor se cravou. Nem o sol que se escorre para dentro do horizonte dos meus olhos, meu amor. Eu não me encontro em nós, sempre que te tento falar de amor.

 

Texto de Joana Almeida

IMG_7718

Palavras e Fotografia

As Raízes da Saudade – IV (Parte II)

Lembro-me do barulho da colher a bater na cafeteira enquanto misturavas a cevada com a água quente. Recordo aquele cheiro delicioso que envolvia a casa toda logo pela manhã. E lembro-me de ir contigo comprar a cevada numa velha e pequenina loja nos Restauradores.

Saíamos cedo de casa para ir apanhar o primeiro autocarro. Lembro-me de estar frio e de estar enrolada na minha capa cor-de-rosa e de ter as minhas luvas nas mãos. Ia de mão dada contigo. Levavas na outra mão o teu saco preto que imitava pele, que usavas para colocar as compras. Dentro do saco levavas migalhas de pão que eu sabia muito bem para o que serviam.

Saíamos do autocarro e o meu entusiasmo crescia à medida que nos dirigíamos para o comboio. Adorava andar de comboio, adorava ver as pessoas, observar os seus gestos. Adorava o som do comboio a avançar na linha e adorava ver os grafitis nas paredes ao longo do caminho.

Chegávamos ao Rossio, davas-me a mão e encaminhávamo-nos para fora da estação. Atravessávamos ruas e praças, passando em cada esquina pelos carros dos assadores de castanhas, e lá estava a loja do café com o seu cheiro tão característico e delicioso. Compravas a cevada enquanto eu olhava a minha volta fascinada com a quantidade de diferentes tipos de café expostos nas prateleiras, completamente inebriada por aquele cheiro que recordo até aos dias de hoje. Davam-te a cevada numa embalagem de papel, agrafada na parte de cima, pagavas e saíamos. Lembro-me de pôr o pé fora da loja, olhar para trás e respirar fundo numa tentativa de guardar em mim aquele cheiro que eu adorava. Talvez por isso goste tanto de café nos dias de hoje.

O passo seguinte era ir comprar bacalhau. Numa loja igualmente pequena mas nem de perto tão mágica como a loja de café. Ali não havia cheiros deliciosos nem prateleiras carregadas de embalagens de café com cores diferentes. E eu continuava a sonhar com a loja do café, a rever mentalmente as prateleiras e a respirar fundo numa tentativa de reavivar o cheiro na minha memória.

Quando pagavas e dizias “Anda filha. Vamos embora” eu voltava à realidade porque sabia o que se seguia. Sabia que agora era o momento em que as migalhas de pão cumpriam a função para qual havia sido destinadas. Dirigíamo-nos ao centro da praça, que naquela altura me parecia menos escura e suja do que nos dias de hoje, e eu com a minha capa cor-de-rosa corria na direcção dos pombos para os ver voar à minha volta. O barulho do bater das asas misturava-se com o barulho da minha gargalhada. Tu olhavas para mim e sorrias. Era das poucas vezes em que te via sorrir e em que me deixavas ser eu.

– Toma filha. Toma as migalhas. Põe assim na mão. – dizias tu entusiasmada.

Eu tirava as luvas roxas que te entregava, pegava nas migalhas, abria as mãos e encolhia-me toda sempre que os pombos subiam para os meus braços. E ria… ria com vontade.

Atirava migalhas para o chão para os ver comer e uma vez peguei nas migalhas e coloquei-as nos ombros. Quando dei por mim estava coberta de pombos e tu rias ao observar aquele espectáculo. Lembro-me de ver meia dúzia de pessoas a parar para tirar fotografias.

As migalhas acabavam e eu voltava para o teu lado.

-Então, foi giro? – perguntavas tu com um sorriso no rosto.

– SIIIIM – gritava eu de alegria.

– Agora temos que ir embora. A avó tem que ir fazer o almoço. – Dizias enquanto sacudias o resto das migalhas que tinham ficado agarradas à minha capa cor-de-rosa.

Eu dava-te a mão e dirigíamo-nos à estação dos comboios.

Lembro-me de estar feliz!

 

Texto de Cláudia da Silva Mousinho

14125715_1155467937809556_3378696756477860058_o

Palavras e Fotografia

[Início]

No outro dia, caminhava de olhos fechados (que é como quem diz, de phones nos ouvidos a interiorizar o que me rodeia) quando me surgiste na memória.

Foi aí que percebi que começavas a ganhar vida dentro de mim. Sinceramente, não sei se ainda és um sonho inalcançável, um monstrinho em forma de borboletas inquietas ou uma realidade nos passos que dou…

Sei que neste momento te trago comigo, como um boneco de infância que nos acalma à noite, como a metade da medalha que se junta à pulseira da nossa melhor amiga.

É como se fosses uma espécie de amuleto da sorte.

No fundo, tenho desejos simples…gostava que tivesses pernas para crescer e que os meus medos não se tornassem nos braços que hoje te escondem.

 

 

Texto de Joana Almeida
IMG_7718

Palavras e Fotografia

As Raízes da Saudade – VIII (Parte I)

 

Estava a chover. Tu ias, como sempre, buscar-me à escola. Dentro da sala de aula já me sentia irrequieta pela antecipação do que ia acontecer. Tocava a campainha e eu arrumava a mochila o mais rápido que podia e saia a correr na tua direcção.

Lá estavas tu, com um saco plástico numa mão, onde guardavas as minhas galochas cor-de-rosa e na outra mão o meu chapéu-de-chuva às riscas coloridas. Sorria quando te via. Ajudavas-me a calçar as galochas e eu, expectante, olhava para ti com o olhar brilhante e perguntava:

– Há poças de água avô?

– Sim, há muitas pelo caminho – dizias tu com um sorriso. Tinha parado de chover.

Eu sorria, com o coração cheio de alegria. Aquela era a melhor parte do dia, em que podia ser eu, sorrir, brincar e saltar sem medos. Porque tu não ralhavas comigo quando eu respingava as minhas calças azuis de bombazine com a água suja das poças de água. Tu sabias que havia coisas mais importantes.

Fazíamo-nos à estrada de mãos dadas e eu sentia-me feliz. Sentia-me criança, sem medos, sem dúvidas, sem incertezas. Levava no coração apenas a certeza de que naquela meia hora até casa ia divertir-me contigo.

Chegávamos à estrada da aventura. Instintivamente, eu parava assim que dobrávamos a esquina como que a antever o divertimento que se avizinhava. Pegavas no teu chapéu-de-chuva fechado, já que o universo parecia conjugar-se a meu favor e normalmente não chovia. Começávamos a nossa caminhada e quando alcançávamos a primeira poça de água eu olhava para ti, tu sorrias, punhas o chapéu dentro da poça para avaliar a profundidade e dizias:

– Podes.

Eu sorria, apertava a tua mão e saltava! A água esguichava para todo o lado acompanhada pelo som da minha gargalhada.

Depois de passar um dia na escola, com tudo o que isso implicava, voltar para casa era o melhor momento. Voltar para os teus braços, para os meus brinquedos, para o colo dela. Saber que estava no meu abrigo, protegida dos olhares indiscretos dos colegas da escola, com quem nunca me dei verdadeiramente bem. Aqueles eram os minutos mais felizes do meu dia.

Repetíamos o momento ao longo do percurso e tu acompanhavas-me sempre com o teu sorriso e eu era feliz!

Texto de Cláudia da Silva Mousinho

14125715_1155467937809556_3378696756477860058_o