Palavras e Fotografia

Aquela Casa

IMG_20180613_210641

 

Adormece-me a alma devagar, que o dia de hoje se prolonga pelas noites que já não durmo.

Adormece-me sempre que houver demora na recolha que fazemos pelas horas.

Sempre que o amor se espalhe pelos dias, como aquela luz que entrava pelas brechas dos estores da casa velha.

Tenho saudades daquela casa, sabes? Quando o mundo se resumia a nós e tudo o que existia para além disso era apenas pó… montes e montes de pó.

 

Texto de Joana Almeida

IMG_7718

Palavras e Fotografia

As Raízes da Saudade – V (Parte II)

Estava calor.

Eu tinha talvez uns quatro ou cinco anos e tu estavas a tirar do saco a minha piscina de plástico. Eu dava pulos e gargalhadas de excitação na expectativa do que aí vinha.

Enquanto o avô abria a piscina, eu e tu colocávamos no chão o cobertor que servia para que a piscina não fosse furada pelas pedras do chão.

Colocavam a piscina em cima do cobertor e eu saltava lá para dentro munida do meu fato de banho roxo e da minha bóia de cintura que servia apenas para acrescentar à diversão.

Pegavas na mangueira e abrias a água. O som da água a correr misturava-se com as minhas gargalhadas e com o chapinhar das minhas pequenas e rechonchudas mãos. Ao mesmo tempo, dançava de felicidade. Imagina, pequenina, de barriguinha rechonchuda rodeada pela bóia de cintura a dar saltinhos de alegria e abanar os braços.

Tu rias, como tão poucas vezes te vi fazer.

– Senta-te filha. Já tens água que chegue para brincar. – dizias tu com o olhar brilhante, ainda que sempre envolvido pela tristeza de todas as tuas perdas.

As saudades que tenho desse olhar que era tão raro. O quanto eu desejei que ele se tornasse mais frequente…Mas a verdade é que por mais que fizesse, por mais que tentasse não conseguia fazê-lo aparecer mais vezes.

Eu sentava-me com a minha bóia azul e branca pontuada com desenhos de bolas de praia coloridas, e ria!

À minha volta andava sempre a nossa cadela Pastor Alemão, a Farrusca. Lembro-me de ter cães desde que me lembro de ser gente, de também eles serem a minha companhia.  Ainda hoje os tenho. São uma espécie de botão de memória para um passo mais ou menos feliz. Recordo-me que por vezes ela se aproximava da piscina para beber água e tu a afastavas, como que para me proteger.

Tu pegavas na água com as mãos enrugadas em concha e molhavas-me a cabeça.

– Tens que molhar a cabeça. O sol está muito quente e depois ficas doente e temos que ir à Senhora Doutora.

Eu aceitava de bom agrado a água fresca que me escorria pelo cabelo curto e pelos ombros. O sol estava, de facto, muito quente e queimava-me a pele frágil mas ávida daquele calor.

Deixavas a água encher a piscina e desligavas a mangueira que o avô voltava agilmente a enrolar. Lembro-me de ficares ali comigo a observar cada gesto. Penso que aqueles eram os poucos momentos em que estavas feliz…ou pelo menos em que a tua tristeza era abafada pelo som das minhas gargalhadas.

Na altura não sabia, mas hoje penso “só por isso já valia a pena rir”.

 

Texto de Cláudia da Silva Mousinho

14125715_1155467937809556_3378696756477860058_o

Palavras e Fotografia

SONHOS

IMG_20180515_231041

 

Todos os sonhos.
Repito.
Todos os meus sonhos, cosidos.
Os que costuro com cuidado, num ponto apertado, cerzido na pele que me dói por dentro, todos eles se cravam no meu peito, como uma tatuagem escolhida.
Não te sei explicar a importância da voz que se faz sentir, nem das imagens que, de quando a quando, me atropelam em sobressalto.
Acendo a luz e escrevo-te.
Mesmo em tons de mãos meio vazias, escrevo-te.
Um dia, esta desordem será somente luz a invadir a sombra que se faz sentir.

 

Texto de Joana Almeida

IMG_7718

Psicologia

O sabor dos (loucos) vinte de hoje.

Lembraste quando eras adolescente e sentias que não eras carne nem peixe, mas estavas à beira de ser servido/a numa bandeja anyway? Pois é. Bem-vindo aos teus vinte e tais, onde a única coisa que muda é que tens (na maioria dos casos) uma identidade profissional parcialmente delineada. O que não quer dizer que não a questiones todos os dias e não acabes, até, por ingressar noutro trajeto completamente diferente.

Aos vinte e tais começas, também, a renovar o teu guarda-roupa. Os vestidos de festa aumentam e o teu roupeiro torna-se mais apelativo, digno de uma verdadeira socialite. São vestidos que só vestes uma vez, mas com os quais vais andar de “peito inchado” a tirar fotos que te vão garantir uma boa centena de likes no instagram. E porque é que os vestidos de festa aumentam? Porque (aí vem a grande diferença) as tuas amigas começam a casar! Deparas-te com o calendário de Junho a Setembro cheio e dás por ti a esperar que a onda casamenteira tenha uma interrupção de um aninho ou dois porque a tua carteira precisa de engordar novamente até ao próximo presente.

Nos teus vintes quase intas também começas a ter mais contacto com bebés. Seres dos quais há muito que não ouvias falar mas que, num ápice, voltam a estar no centro das dinâmicas das tuas amizades. As tuas amigas dividem-se entre as que se tornam tias e invadem o teu facebook com páginas de artigos de bebé e convites para concertos da patrulha pata, e aquelas que se tornam mães e te começam a desejar os parabéns terminando com um orgulhoso e maduro “são os votos da família Santos-Silva”. E até te sentes mais crescidinha quando deixas de ser cumprimentada com um “que saudades minha atrasada” e passas a ouvir e a viver um “diz olá à tia Pipa”. Confesso que os gugudádás não são conversas menos cognitivamente estimulantes que os “ele mandou-me uma mensagem para o face. O que faço?”. Na verdade, começas a sentir-te bem por alastrares os teus laços familiares e te deixares ser tia da criançada.

Começas a dar por ti a pensar numa lista de nomes infindáveis para menino e menina. (sim, vais dar por ti a divagar neste assunto!). E eis quando acabas por ter um cão chamado Bernardo ou uma gata chamada Clarinha.

Aos vinte e tais, vais sentir que não terminaste nem começaste nada e vais-te dar conta que os teus amigos estão a começar uma família enquanto tu ainda andas a estorvar a tua, ou porque lhes deixas o cão ao fim de semana ou porque continuas a pedinchar tupperwares. Vais sentir uma certa ansiedade relativamente ao futuro (não, não te tornas mais saudável ao nível mental, pelo menos até à entrada nos intas). De um lado tens ainda alguns resquícios da vida universitária e as party people. E olhas para essas pessoas já com uma certa distância … já não tens fígado nem estomago para tanta festa regada a tudo menos água. As séries passam a estar novamente no centro dos teus serões (já não recorres às séries só para procrastinar no estudo para uma frequência daquela cadeira que achas insuportável). Do outro lado, tens os teus amigos a enveredar numa nova aventura, a do casamento e dos filhos. E sentes-te ainda tão distante dessa realidade. Estás num impasse … vais começar a sentir-te um tanto ao quanto desintegrada. Tão welcome my dead adolescent me. Vais querer viver intensamente, mas substituis o capítulo 8 e a praxis por um bilhete de avião para Praga.

Nos teus vintes vais viajar muito. Vais-te viciar em viagens e vais começar a pensar que é isso que queres fazer para sempre. Embora também acabes por compreender que isso requer fundos e que os fundos requerem que vás aceitando estagiar ao abrigo de uns 500€ ao mês (que até te vão parecer muito, até começares a chegar ao segundo dia após o dia de S. Receber com apenas 10€ na conta).

Resumindo, sim! É tão difícil sair da casa dos vintes como foi entrar.

O meu conselho para ti: tudo tem o seu tempo. Este é o tempo de ser sem ser. O que traz uma boa novidade para ti. Podes continuar a descobrir-te por mais um bocadinho. A psicologia do desenvolvimento permite-te isso ao chamar-te Adulto (a) Emergente. Vive, controla essa ansiedade. Dizem, por aí, que os intas são diferentes!

 

Texto de Filipa da Piedade Rosado

22140683_10212798585433181_1025985687_o

 

 

 

filipa.p.rosado@gmail.com

Apresentação

Parceiros – PauloJLopes Fotografia

10269336_543473125775165_1297645335093782789_o

É com um olhar treinado, o timing perfeito nas mãos e o material certo que o Paulo Lopes nos presenteia com fotografias incríveis daquele que pode ser o dia mais feliz das vossas vidas, o vosso recém-nascido, a vossa despedida de solteira, a vossa sessão de namoro ou trash the dress, e por aí fora porque no que toca à criatividade é exímio.

De trato simples, profissional e acessível, é fácil chegar à fala com ele e encontrar um estilo que vos identifique, sendo certo que nenhuma reunião passa sem umas boas gargalhadas. Se forem clientes mais conservadores, não se preocupem! Da mesma forma que o Paulo e a sua equipa se adaptam a uma noiva que quer casar de ténis e não gosta de fotografias típicas, também se adaptam a um estilo mais conservador recorrendo aos vários anos de experiência em fotografia e relações humanas.

Para os mais tímidos também há solução, conseguindo deixar à vontade os mais envergonhados e arrancando-lhe sorrisos genuínos pautados por timidez, o que faz das imagens captadas representações quase perfeitas de naturalidade.

Há dois anos viu realizado o seu sonho de inaugurar o seu estúdio, onde todo aquele que o visitar se sente em casa e tem atendimento personalizado.

Fazendo-se rodear de uma equipa de excelência, garante que as fotografias e/ou vídeos captados vos falam ao coração, guardam as memórias essenciais e vos levam diretamente de volta ao momento que viveram. As fotografias são botões de memória diretos que nos reavivam as sensações, os cheiros e as emoções e nos transportam para os momentos mais felizes. Difícil vai ser escolher!

Se quiserem conhecer mais o trabalho do Paulo Lopes podem segui-lo no Facebook ou visitar o seu Site Oficial:

https://www.facebook.com/paulojlopesfotografiaavberna/

http://paulojlopes.net/site/#/home

 

28828869_1490023704453431_3955374657816628597_o

Palavras e Fotografia

As Raízes da Saudade – V (Parte I)

Estávamos em 2004. Tu, como sempre acontecia quando eu vinha das aulas, ias buscar-me ao pé da estrada e acompanhavas-me na travessia do descampado que nos levava a casa. Estava escuro e nesse dia eu apercebi-me de que estavas diferente.

Não sei se a mudança foi repentina ou se naquele dia eu olhei para ti com olhos de ver. Tropeçavas nas pedras, andavas rapidamente mas com passos estranhamente mais curtos. Parecias ter medo do chão que pisavas apesar de o fazeres quase todos os dias. Alguma coisa estava a mudar em ti. “Cada vez vejo pior” – dizias tu. Tinhas diabetes e consequentemente glaucoma. Pensei que era apenas a progressão desse problema, mas sabia que ias ser operado e que depois disso passarias a ver melhor.

Não dei importância talvez porque para mim eras eterno. Nunca me passou pela cabeça a possibilidade de te perder. Estarias sempre lá para dizer “Olá Netinha” e por isso, tudo se ia compor.

Nunca imaginei que um dia tudo ia mudar radicalmente e que eu teria que me confrontar com a mortalidade da pessoa que nunca pensei que um dia fosse morrer, apesar de saber que toda a gente morria. Os meses foram passando, os anos foram passando e aos poucos tu foste mudando.

Foste operado, ficaste a ver melhor, mas havia qualquer coisa que não batia certo. Alguma coisa estava a mudar de dia para dia, lentamente, mas ainda assim a uma velocidade demasiado acelerada para o que eu gostaria. Os teus passos eram rápidos e muito curtos, a tua postura estava a mudar. A tua mão começou a perder a sensibilidade, dizias não ter força, mas se pegasses num ovo desfazia-lo num piscar de olhos.

Mudei de cidade para lutar por um sonho e lembro-me que de cada vez que vinha a casa estavas diferente. Alguma coisa se tinha perdido naquela semana. Não sabia o que era. O brilho no olhar era o mesmo sempre que me vias chegar, a tua cara iluminava-se sempre com o mesmo sorriso, mas alguma coisa estava diferente.

Chegou o dia em que essa diferença recebeu um nome. Lembro-me de estar de braço dado contigo a caminho do gabinete médico e lembro-me do ar de preocupação que ele fez quando te viu chegar. “Está com uma passada tão curta… Temos que ver isso”. A consulta decorreu com uma serie de perguntas, falaste da tua falta de sensibilidade na mão direita e eu falei das quedas que eram cada vez mais frequentes. Naquela altura havia em mim sempre uma secreta esperança de que tudo aquilo ia passar. O médico estranhou tudo, ponderou muitas possibilidades e achou por bem fazer exames de diagnóstico. Parkinson era a possibilidade mais sonante e por sinal a mais assustadora.

Estava lá tudo, os tremores, a passada curta, a postura curvada, a falta de equilíbrio e coordenação. Tudo apontava para esse destino e aí foi quando o coração se apertou. Eu tinha estudado essa doença há pouco tempo, toda a informação estava bem fresca na minha cabeça. Revi todas as aulas e artigos que li no espaço de 10 segundos e as conclusões foram terríveis. Ias morrer um pouco mais todos os dias e eu pouco podia fazer para o evitar.

Digerir toda aquela informação foi difícil. Confrontei-me com a realidade de que mais cedo ou mais tarde já não ias estar aqui. Não estava preparada para isso. Nunca estamos preparados para perder os que amamos.

A verdade é que foste piorando com os anos e na última memória que tenho de ti, estás sentado na cadeira de rodas que te levava a todo o lado nos últimos anos da tua vida.

Na altura era difícil entender o porquê. Passamos a vida a procurar os porquês de tudo e nunca nos lembramos que eles só aparecem quando deixamos de procurar. Hoje sei porquê. Passar por tudo isto contigo fez-me reequacionar a vida. É demasiado curta e num piscar de olhos muda tudo. Hoje posso correr, saltar, passear, amanhã tudo isso pode acabar. Aprendi a pensar todos os dias “Estou a viver no meu potencial máximo? Estou a fazer a diferença na minha vida? Estou a amar em verdade? Estou a ser honesta?”

Graças a ti hoje faço um exercício com muita frequência. Lembro-me de te ver sentado no teu cadeirão da sala de olhos no pequeno horizonte que vias pela janela e de pensar “dava um euro pelos teus pensamentos”. Talvez estivesses a pensar no futuro que não ias ter ou talvez estivesses só a passar revista à vida que tiveste. Hoje faço esse exercício. Sento-me comigo no meu cadeirão de fim de vida e olho para a vida que estou a construir. Procuro perceber o que sinto quando olho para ela. Estou a fazer tudo o que posso? Estou a amar o suficiente? Estou a gastar tempo a chatear-me com coisas que eu sei que amanhã não são nada? Estou a guardar rancor ou a ser capaz de aceitar?

É o meu guia. És o meu guia.

Ainda há dias em que a tua ausência me dói. Ainda há dias em que dava muito para te trazer de volta nem que por apenas 1 hora, só para te poder perguntar se te orgulhas de mim e de tudo o que aprendi contigo.

 

Texto de Cláudia da Silva Mousinho

14125715_1155467937809556_3378696756477860058_o

Palavras e Fotografia

O que não se diz

Quantas palavras cabem no adeus que não se diz?
E qual o tamanho do espaço que ocupam?
O que pesa mais?
As palavras que guardas no coração?
As palavras que não te saem da cabeça?
Ou as palavras que te entopem a garganta?
Têm validade? Aquilo que não se diz?
Repara…
Tenho palavras debaixo dos dedos,
E mesmo agora,
Que as despejo pelos papeis,
Elas não ficam…
Elas não ficam,
E eu vou perdendo-as,
Uma a uma, pelo silêncio.
Texto de Joana Almeida
IMG_7718
Palavras e Fotografia

As Raízes da Saudade – III (Parte II)

– Oh Sofia, anda lanchar! – chamavas tu da porta da cozinha.

Eu corria na tua direcção com um sorriso nos lábios. Sabia que me tinhas feito um pão com manteiga para o lanche e que ias sentar-te comigo. Enquanto eu lanchava tu abrias a caixa da costura e sentavas-te na cadeira ao lado da minha a coser as meias pretas do meu pai.

Enquanto mastigava, admirava a precisão de cada um dos pontos que davas.

– Cuidado! Olha que ainda deitas o copo do leite ao chão e fazes chiqueiro. – Dizias tu já a antever o que ia acontecer.

De repente o copo estilhaça-se no meio do chão da cozinha e eu paro de mastigar e encolho-me na cadeira. Sabia que ias ralhar comigo. Sabia que ias fazer-me levantar da cadeira e dar-me uma palmada. E assim foi.

Eu fiquei paralisada, com as lágrimas a correrem pela cara e de repente rompi num prato, saí porta fora e fui procurar o avô. Sabia sempre onde o encontrar – na casinha das ferramentas. Lá estava ele pronto a receber-me, a deixar-me chorar e a fazer-me voltar para te pedir desculpa.

Eu voltava, com as pernas a tremer, abria a porta da cozinha e lá estavas tu, sentada numa das cadeiras com a agulha e o dedal no dedo a coser as meias pretas do meu pai. Já tinhas apanhado os cacos e limpo o chão. Não havia vestígios do leite entornado nem das migalhas do meu pão com manteiga. Mas o resto do pão que não tinha comido estava em cima da mesa à espera que eu voltasse. Eu aproximava-me a medo, de cabeça baixa e punha-te a pequenina mão na perna como que a pedir desculpa.

Respiravas fundo, pousavas a meia e a agulha, punhas a mão na minha cabeça e dizias:

– A avó às vezes zanga-se contigo porque te diz as coisas muitas vezes e depois tu vais fazer na mesma. Aviso-te de que te vais magoar e tu continuas e depois magoas-te mesmo.

Eu olhava para baixo e recomeçava a chorar. Tinha medo que fosses ralhar comigo outra vez.

– Vá, pronto. Já passou. Olha para a avó, anda lá. – dizias enquanto pegavas no lenço de pano que trazias sempre no bolso do avental e me limpavas as lágrimas. Eu envolvia-te com um abraço e respirava fundo. Tudo tinha voltado ao normal e eu podia voltar a sorrir. Sentava-me na cadeira ao lado da tua a acabar o meu pão com manteiga e a ver o que estavas a fazer. Absorvia cada gesto. Tudo o que sei hoje fazer, aprendi contigo. Admirava a agilidade com que pegavas na agulha e davas pontos certeiros no tecido ao ponto de quase não se perceber que ali tinha existido um buraco. Outras vezes estavas a passar a ferro e eu montava a minha tábua de engomar e o meu ferro de plástico atrás de ti e fingia estar também a passar a ferro. Talvez por isso hoje em dia seja das coisas que mais gosto de fazer. Davas-me os lenços de pano para passar que eu dobrava com todo o cuidado e punha em cima da tábua. Mantinhas os lenços dobrados e limitavas-te a passar o ferro quente por cima. Eu sentia que tinha feito qualquer coisa de muito importante.

 

Texto de Cláudia da Silva Mousinho

14125715_1155467937809556_3378696756477860058_o

Palavras e Fotografia

As Raízes da Saudade – VI (Parte I)

Há meses tínhamos tomado uma das decisões mais difíceis da nossa vida. Tínhamos que procurar uma instituição onde pudesses ficar a tempo inteiro. Já não tínhamos condições para continuar a dar resposta às tuas necessidades na casa onde vivíamos.

Depois de meses que pareceram anos, tínhamos finalmente recebido notícias da Unidade de Cuidados Continuados que tinha vaga para te receber. Depois de tantos meses de desespero, finalmente surgiu uma vaga. Sabíamos que podias ir parar a qualquer ponto do país, porque não havia preferência de escolhas, mas quando nos disseram o sítio o tempo parou. Ourém… Ias para Ourém.

– Olha, lá vamos nós passear todas as semanas. – disse eu numa tentativa de aligeirar o ambiente.

Tínhamos que te contar naquele dia. Tínhamos o fim-de-semana para estar contigo e na segunda-feira seguinte tinhas que dar entrada. Tudo tão depressa.

Naquele dia, chegaste do centro de dia e vinhas muito calado. Eu olhei para o meu pai como que a comunicar-lhe que alguma coisa se passava contigo. Ele já tinha informado o centro de dia, pedindo que não te dissessem nada por ser uma conversa a ter em família. Mas por certo alguém te deu a entender alguma coisa. Sentado no sofá a ver as notícias de repente dizes:

– Hoje estava a dar nas notícias à hora de almoço um lar que foi fechado porque não tinha condições. Batiam nas pessoas e tudo.

Eu e o meu pai olhámos um para o outro, o meu pai ficou de lágrimas nos olhos e naquele momento percebemos que já sabias o que te íamos dizer.

Fomos jantar, acompanhados de um silêncio nada comum nas nossas refeições de família e de um aperto no peito por saber o que se ia passar a seguir. Mal tocaste na comida – a verdade foi assim com todos nós – e não quiseste a tua fruta de sobremesa.

Depois de arrumada a cozinha, com uma lentidão maior do que o normal, quase que como numa tentativa desesperada de adiar o inadiável, fomos para a sala ter contigo. Engolimos em seco, o meu pai ajoelhou-se à tua frente e disse:

– Pai, o pai sabe que temos andando à procura de vagas em lares para o pôr. Não conseguimos ter condições para o ter em casa, não pode continuar a passar tantas horas sozinho. E ali vai ser melhor tratado. Hoje ligaram-nos para nos dizerem que existe uma vaga.

Começas-te a chorar… Senti o peito apertar e as lágrimas começaram a escorrer-me pela cara. Ajoelhei-me à tua frente e deitei a cabeça no teu colo.

– O lar é em Ourem. O pai vai passar este fim-de-semana connosco, mas na segunda-feira tenho que o ir lá deixar. Nós vamos lá ver tudo, ver as condições e vamos vê-lo sempre que podermos. Até se adaptar estamos lá consigo todas as semanas.

Choraste, pegaste no lenço e levaste-o à cara. Soluçavas como se te tivessem arrancado o coração do peito e eu chorei contigo. Disse-te em tom de brincadeira que ias ter uma estadia abençoada, estavas perto de Fátima. Tu olhaste para mim com um leve sorriso no meio das lágrimas. Eu disse-te que ia ver-te sempre que pudesse e que ia tudo correr bem. Ias ser bem tratado e se não fosses iríamos trazer-te de volta para casa. Nunca íamos permitir que fosses mal tratado sem nada fazermos para o evitar.

Respiraste fundo. Eu deitei a cabeça no teu colo e chorei. Eu sabia que dali para a frente tu ias piorar, e sabia que talvez no ano seguinte naquela data já não me dirias “Bom dia netinha”.

Não me lembro do que aconteceu depois. A última memória que tenho desse dia é de estar sentada aos teus pés, com a cabeça no teu colo enquanto me fazias festas na cabeça com uma mão e limpavas as tuas lágrimas com a outra. Nesse momento recordei todos os momentos em que isto havia acontecido por eu estar triste e como sempre seres o único capaz de me suportar a chorar sem dizer nada nem fazer perguntas.

Ia perder isso também…

 

Texto de Cláudia da Silva Mousinho

14125715_1155467937809556_3378696756477860058_o

Palavras e Fotografia

ECO

fotografia

Tenho as palavras a ecoar no horizonte
como uma carta que é escrita por dentro, pela alma.
Não adianta gastar tudo num beijo,
Nem cobrir as manhãs de amor
Há um tempo que (sempre) pára em mim
Um filme a preto e branco que não termina, não tem fim.
Um minuto que se suspende no brilho dos (teus) olhos
Tem uma ponta de silêncio que (me) incomoda
Incrivelmente escondida na brisa que o vento faz.
Texto de Joana Almeida
IMG_7718