Pais e Filhos

Parentalidade Consciente – O que é e como se pratica?

O termo Parentalidade Consciente está cada vez mais presente no nosso discurso, nos dias que correm mas muitos são os que se perguntam o que é e como se traduz na prática. Tem por base os princípios de Mindfulness: a atenção plena no momento presente, de forma não avaliativa e sem julgamentos. A aceitação incondicional da essência do outro – o seu filho. É uma forma de estar e educar consciente, mais alinhada com aquilo que são os seus valores pessoais, a sua intuição e sensibilidade.

Esta forma de estar, implica uma aceitação da própria criança interior e, consequentemente, o fazer as pazes com a própria história de vida. Compreender em que medida essa criança não foi incondicionalmente aceite e de que forma essas feridas condicionam o exercício de parentalidade, já que aquilo que somos e o modo como exercemos a Parentalidade é fruto de padrões de comportamento e de crenças transmitidos de geração em geração e do tipo de parentalidade que os nossos pais exerceram.

Os filhos revelam uma capacidade incrível de evocarem sentimentos profundamente inconscientes e assim, mostram exactamente os lugares onde a nossa paisagem interna precisa de desenvolvimento. A parentalidade é uma viagem que tende a começar com um elevado nível de narcisismo e facilmente se pode cair na armadilha de usar os filhos para colmatar as nossas próprias necessidades.

A Parentalidade Consciente permite uma expansão do seu auto-conhecimento, da consciência de si, do seu ser e das suas necessidades. Quando nos conhecemos melhor, é-nos mais fácil colocar no lugar da criança – o que gera empatia e conexão. Assim conseguimos respeitar melhor sua individualidade, perceber as suas necessidades e (re)conhecer sua personalidade, sem expectativas e exigências. Aprendemos a aceitar os nossos filhos pelo que eles verdadeiramente são e não cobramos que correspondam às nossas expectativas do que deveriam ser.

Quando praticamos parentalidade consciente olhamos para o comportamento das criança, não como algo que temos que corrigir, mas como algo que temos que entender para depois podermos mudar. Os conflitos com os filhos não vão deixar de existir, mas passará a olhar para eles como oportunidades de crescimento mútuo.

Ser mãe ou pai de forma mais consciente é confiar mais no instinto e dar menos espaço aos medos e às opiniões de terceiros; é conseguir colocar-se melhor no lugar da criança e perceber melhor as suas necessidades e conseguir também reconhecer as suas necessidades enquanto pai/mãe. É fazermo-nos observadores astutos do nosso comportamento quando estamos com os filhos. É ver neste papel de pai/mãe uma oportunidade de auto-conhecimento e de crescimento, promovendo relações de cooperação com os filhos, compreendendo que também eles têm muito que lhe podem ensinar, se estiver presente e disponível para os ouvir e aceitar incondicionalmente.

A base fundamental da Parentalidade Consciente é o amor incondicional. Para amar incondicionalmente o seu filho, tem de ser capaz de o ver tal como ele é e isso implica abandonar expectativas, julgamentos e determinadas crenças.

Os pais conscientes não são perfeitos. Os pais conscientes têm confiança de que as respostas se encontram no seio da sua relação com os seus filhos, na experiencia de se identificarem com eles, de compreenderem a sua essências e as suas emoções e necessidades e de estarem atentos ao que os filhos lhe estão a ensinar.

Não quer isto dizer que passamos a ser pais permissivos, que abdicam de toda a sua influência sobre eles e se tornam servos das suas vontades, significa apenas que não é por ele ser mais novo, que os seus sentimentos e pensamentos, as suas necessidades e emoções deixam de ter importância. A parentalidade consciente depende da escuta dos nossos filhos, do respeito e da aceitação da sua essência e da atenção plena às suas necessidades, mas exige também a estipulação de limites e disciplina, bem como a contenção apropriada das suas emoções.

Numa altura em que as pressões para se ser o pai ou a mãe perfeitos são cada vez mais notórias, a Parentalidade Consciente surge como uma lufada de ar fresco e tranquilidade que vem dar ênfase à relação entre pais e filhos mais presente, mais equilibrada e mais genuína.

 

Texto de Cláudia da Silva Mousinho

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Palavras e Fotografia

As Raízes da Saudade – IV (Parte I)

Passaram meses e finalmente encontrámos um centro de dia para onde podias ir passar o tempo enquanto o meu pai estava a trabalhar e eu na Universidade.

Não me lembro do teu primeiro dia no centro, mas lembro-me que nos primeiros dias voltavas sempre desanimado. Fazias queixas da comida, dos funcionários, dos companheiros. Estavas num sítio estranho, com pessoas que não conhecias.

– São uns velhos. E são uns malucos. Qualquer dia quem fica maluco sou eu. – dizias.

Foram meses difíceis. Sabíamos que eras bem tratado lá e que não havia razão de queixa dos funcionários. Faziam o que podiam com as condições que tinham. Os teus companheiros eram velhinhos, alguns deles senis. Sabíamos que de cabeça estavas bem, com melhor memória do que qualquer um de nós e no fundo, isso só te tornava tudo mais difícil.

Com o tempo regressavas mais animado, foste abandonando a postura curvada e sofrida que trazias nos últimos meses e já sorrias.

– Hoje estive sentado ao pé da Rosa – disseste com um sorriso malandro.

– Da Rosa? Quem é a Rosa? – perguntei em tom de brincadeira.

– É uma que mora ali para os lados de Belas. Hoje veio meter-se comigo. “Jaiminho, hoje sentas-te aqui ao pé de mim para o almoço.”

– Ai a malandra da Rosinha. A querer arranjar namorado.

– Ela é brincalhona. Andava lá de roda de outro mas lá se chateou com ele…

Estavas a reagir, recomeçaste a brincar, já te via menos lágrimas no rosto. Estavas mais falador, brincavas, contavas o que acontecia no teu dia. Nos dias mais difíceis tentava animar-te, pôr-te a pensar nas coisas boas que ainda te restavam.

Estava a estudar fora nesta altura, tinha iniciado o meu Mestrado. Todas as semanas vinha a casa ver como estavas, ajudar o meu pai nesta tarefa árdua de trabalhar 8 horas por dia e vir para casa a correr cuidar de ti.

Um dia o meu pai ligou.

– Olá pai. Está tudo bem?

– Não. O avô caiu. Partiu o braço.

– Mas como é que isso aconteceu? – perguntei enquanto senti o coração acelerar. Tinhas 88 anos. Qualquer fractura podia ser perigosa.

– Foi ao quarto para fechar as persianas e de repente oiço a chamar por mim. Quando lá cheguei estava caído de lado no chão. Levantei-o, perguntei se estava bem, se lhe doía alguma coisa. Disse que lhe doía o braço mas nada de especial. Passado um bocado disse-me que não estava bem, que o braço estava a doer mais e vim com ele ao hospital. Está partido. Vai ter que ser operado.

Senti o peito gelar, a cabeça andar à roda. Respirei fundo e pensei: “vai tudo correr bem. É uma cirurgia simples e ele vai recuperar.” Não calculei as consequências que isto ia trazer para tua vida e consequentemente para a nossa.

O que é certo, é que foste operado, estiveste mais ou menos um mês no hospital. No dia em que te fomos buscar estavas bem-disposto, ias voltar para casa. Mal nós sabíamos do que se avizinhava. Sair do hospital foi um suplício. Felizmente o pai já tinha comprado a cadeira de rodas como que a prever a falta que nos ia fazer… Não conseguias andar, estavas tão fraco que tive medo que nunca mais fosses capaz de dar um passo. Estiveste um mês de cama, o teu corpo perdeu a pouca força que lhe restava e agora teríamos um enorme desafio pela frente: conseguir que voltasses a andar.

Nos meses seguintes estiveste com gesso no braço. Não podias mexer o braço, tinha que se manter numa determinada posição para garantir que sarava bem e por isso não podias estar deitado na cama. Dormias no sofá. Era inverno e estava frio. O pai mantinha o aquecedor ligado no mínimo para evitar sustos de maior, tapava-te com as mantas e tentava que pudesses ficar o mais confortável que era possível. Foram longas semanas nesta situação. Sempre em sobressalto, atentos ao mínimo sinal de desconforto. A dada altura estavas com tosse. Uma tosse que às vezes quase te sufocava. Fomos contigo ao médico e disseram-nos que tinhas uma infecção respiratória. Fomos assolados por um sentimento de culpa avassalador. Tinhas passado semanas a dormir no sofá da sala, tentámos manter-te o mais quente e confortável possível com as condições que tínhamos mas não tinha sido suficiente. Estavas doente, muito doente.

Travaste batalhas de gigante no final da tua vida e esta era mais uma delas. Pouco tempo houve de paz desde que ela morreu. Eu sabia que tudo ia acontecer depressa e que as nossas vidas iam mudar, mas nunca pensei que fosses passar por tanto.

Eu voltei para a Universidade, em Évora, como tinha que ser e a preocupação era constante, estavas demasiadas horas sozinho depois de voltares do centro e já não andavas sem ajuda. Não eras capaz de te levantar para ir ao wc e por isso também tinhas que usar fralda. O meu pai deixava-te sempre um copo de água e qualquer coisa para poderes comer até ele chegar, na mesinha de centro da sala, que tinha sido posicionada ao lado do teu sofá. Aí tinhas o comando da televisão, o teu lenço, os teus óculos e o telemóvel para podermos ir falando contigo ao longo do tempo. Não consigo imaginar como será estar tanto tempo sozinho, sentado no mesmo sítio sem liberdade para simplesmente ir ao quintal apanhar sol e ar. Forçava-me a não pensar demasiado nisso enquanto estava fora, obrigava-me a viver a minha vida naquela cidade mágica mas era como se na verdade não estivesse lá.

Vinha a casa à Sexta-feira, com uma ambivalência difícil de pôr em palavras. Queria chegar a casa, pousar as malas e dar-te um beijo e um abraço, mas ao mesmo tempo não queria ter de me confrontar com a tua degradação. Estavas pior a cada semana que passava e era como se de cada vez que te visse me despedisse de ti. Estavas a desaparecer aos poucos.

Sempre que vinha a casa recebias-me com um sorriso.

– Então netinha, já cá estás? – dizias de olhos brilhantes e sorriso aberto.

– Olá avô! Já cheguei!

– Quando vais? – perguntavas numa vã expectativa que te dissesse que já não ia.

– No Domingo, sabes que tenho aulas na segunda-feira – dizia ao mesmo tempo que pensava que todo o tempo era pouco para estar contigo.

– Pois. Tem que ser assim não é… – dizias com o olhar triste de quem sabe que lhe resta tão pouco tempo.

– Como correu a tua semana no centro?

– Oh correu…

– E a Rosinha?

– Oh chateou-se comigo – dizias com o teu ar de malandro.

– Ora essa. Porquê?

– Ela é maluca. Estava com ciúmes lá de uma senhora com quem me dou muito bem. E eu não estou para me chatear.

Eu ria contigo. Admirava a tua capacidade de brincar e rir mesmo sentado numa cadeira de rodas e com a plena consciência de tudo o que estavas a perder. E o que estavas a perder era o bem mais essencial de todos….a vida.

 

Texto de Cláudia da Silva Mousinho

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