Psicologia

Quer falar-me melhor sobre isso? O melhor presente é estar presente.

Bom dia caro leitor, seja bem vindo a mais uma rúbrica da minha autoria no LQ, na qual continuaremos a conversar sobre auto-cuidado. Todos os dias ouvimos alguém proferir a máxima de que devemos cuidar de nós, cuidar da nossa alimentação, cuidar das nossas relações, cuidar da forma como respondemos aos outros ou a nós próprios, e a lista por aí segue. Várias vezes encontramos outras pessoas que prometem saber o segredo para a felicidade, convidando-nos a amar-nos, ou a mudar a nossa rotina, ou a fazer transformações radicais na nossa vida…por um preço. É aqui que facilmente se cai numa armadilha que abunda no campo do auto-cuidado e da auto-ajuda: a mercantilização das soluções. É fácil ficar a achar que “É preciso  comprar o programa X para vivermos melhor” ou que “As respostas para os nossos problemas estão todas no livro Y”. Para algumas pessoas isto pode ser verdade, no entanto, nem sempre estamos alheados do que nos faz bem. Para alguns de nós (inclusive para mim) a grande dificuldade na hora de começarmos a investir em nós passa por conseguir fazê-lo desligando das restantes obrigações e deveres do nosso dia a dia. Por essa razão, o texto de hoje foca-se numa competência que considero ser transversal a qualquer forma de auto-cuidado: a capacidade de permanecer no momento presente – ou se quisermos, o mindfulness.

Muito se tem escrito sobre este assunto e todos os dias se descobrem novas aplicações desta técnica, umas mais uteis e realistas que outras, contudo o conceito de mindfulness pode ainda estar pouco claro para quem não o conhece. Vemos frequentemente o conceito associado à meditação, mas será essa a única forma de praticá-lo? E quando falamos em prática, será necessário despender de horas a fio, todos os dias, para colhermos algum ganho? Vejamos então:

Afinal de que falamos quando falamos de midnfulness?

Grosso modo, o conceito de mindfulness deriva do estudo científico da meditação budista. No entanto como já referi, a meditação não é a única forma de o cultivar. Para que fiquemos com uma definição mais clara, gostaria que mantivesse em mente que o mindfulness é “o acto intencional de focar a atenção no presente” (Linehan citado por Baer, 2018) – isso mesmo, é uma forma muito específica de focar a atenção. Mas aparentemente, esta forma de atenção pode trazer-nos inúmeros benefícios. Vejamos quais são:

O que nos dizem os estudos?

Uma revisão sistemática de literatura de Creswell (2017) aponta que a prática regular de mindfulness pode ajudar a reduzir uma vasta gama de sintomas fisiológicos associados ao stress, aumentando também a qualidade de vida do praticante. Já ao nível da saúde mental, a prática de mindfulness parece ser especialmente benéfica para a redução e gestão da depressão e da ansiedade, melhorando também certas funções mentais como é o caso da atenção.

Mas qual a utilidade desta prática para mim?

A minha sugestão para que o leitor experimente a prática de mindulness debruça-se sobre a questão da intencionalidade: muitas vezes queremos mudar-nos, ou mudar algo na nossa vida. Porém, nem sempre é fácil manter-nos focados na mudança. Poderá estar a perguntar o leitor:Como é que o mindfulness pode ajudar neste ponto? Ora bem, na minha opinião, a prática deliberada do foco atencional no presente ajuda-nos a tomar consciência de nós próprios, dos nossos estados internos, das nossas reacções e das nossas necessidades. Nesse sentido, estar presente no aqui e no agora e conseguir observar cada momento à medida que o vivemos permite-nos escolher como responder às nossas experiências. Assim, perante o stress do dia a dia, podemos mais facilmente perceber que pode ser uma boa hora para fazer uma pausa, ou para procurar alguém com quem possamos conversar sobre um assunto que esteja a ser difícil para nós. Mas isto não significa que esta capacidade sirva apenas nos momentos negativos, estar presente pode ser particularmente frutífero quando escolhemos dedicar-nos a nós ou àqueles que mais gostamos, mantendo-nos ali, onde nada mais importa. Só nós, e quem ou o que mais precisamos.

Tenho interesse, o que posso tentar?

No inicio da rúbrica frisei ao leitor que a prática de mindfulness não se cinje unicamente à meditação. Contudo, volto atrás na minha palavra e recomendo-lhe que comece por aí. Atenção, meditar não implica acender uma dúzia de velas e incensos e tornar-se no novo Dalai Lama da Europa Ocidental. Como expliquei no inicio, apenas é necessário sentar-se num local onde não seja incomodado e onde possa focar a atenção na sua respiração. Se desejar experimentar com instruções guiadas aqui tem uma ligação que lhe permitirá perceber como tudo funciona.

Quanto tempo deverei dedicar a esta prática?

Caro leitor, como em grande parte das coisas da vida: Não há uma receita universal para todos. O que os estudos nos mostram é que os ganhos obtidos são mais pronunciados à medida que o tempo de prática avança. O meu conselho para já é que experimente e tente perceber quais os formatos que resultam para si, tente perceber que diferenças nota com a prática e crie um regime de prática adequado às suas necessidades. O autocuidado implica adequar as nossas práticas às nossas necessidades e a melhor maneira de o fazer é experimentando :)!

 

Referências Bibliográficas:

Baer, R. (2018). Mindfulness Practice. Em:  Hayes, S. C., & Hofmann, S. G. (1ª Ed.). Process-based CBT: The science and core clinical competencies of cognitive behavioral therapy. Oakland: New Harbinger Publications.

Creswell, J. D. (2017). Mindfulness interventions. Annual Review of Psychology, 68(1).

 

Texto de Rodrigo Pires

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rodrigopiresuevora@hotmail.com

Pais e Filhos

Parentalidade Consciente – O que é e como se pratica?

O termo Parentalidade Consciente está cada vez mais presente no nosso discurso, nos dias que correm mas muitos são os que se perguntam o que é e como se traduz na prática. Tem por base os princípios de Mindfulness: a atenção plena no momento presente, de forma não avaliativa e sem julgamentos. A aceitação incondicional da essência do outro – o seu filho. É uma forma de estar e educar consciente, mais alinhada com aquilo que são os seus valores pessoais, a sua intuição e sensibilidade.

Esta forma de estar, implica uma aceitação da própria criança interior e, consequentemente, o fazer as pazes com a própria história de vida. Compreender em que medida essa criança não foi incondicionalmente aceite e de que forma essas feridas condicionam o exercício de parentalidade, já que aquilo que somos e o modo como exercemos a Parentalidade é fruto de padrões de comportamento e de crenças transmitidos de geração em geração e do tipo de parentalidade que os nossos pais exerceram.

Os filhos revelam uma capacidade incrível de evocarem sentimentos profundamente inconscientes e assim, mostram exactamente os lugares onde a nossa paisagem interna precisa de desenvolvimento. A parentalidade é uma viagem que tende a começar com um elevado nível de narcisismo e facilmente se pode cair na armadilha de usar os filhos para colmatar as nossas próprias necessidades.

A Parentalidade Consciente permite uma expansão do seu auto-conhecimento, da consciência de si, do seu ser e das suas necessidades. Quando nos conhecemos melhor, é-nos mais fácil colocar no lugar da criança – o que gera empatia e conexão. Assim conseguimos respeitar melhor sua individualidade, perceber as suas necessidades e (re)conhecer sua personalidade, sem expectativas e exigências. Aprendemos a aceitar os nossos filhos pelo que eles verdadeiramente são e não cobramos que correspondam às nossas expectativas do que deveriam ser.

Quando praticamos parentalidade consciente olhamos para o comportamento das criança, não como algo que temos que corrigir, mas como algo que temos que entender para depois podermos mudar. Os conflitos com os filhos não vão deixar de existir, mas passará a olhar para eles como oportunidades de crescimento mútuo.

Ser mãe ou pai de forma mais consciente é confiar mais no instinto e dar menos espaço aos medos e às opiniões de terceiros; é conseguir colocar-se melhor no lugar da criança e perceber melhor as suas necessidades e conseguir também reconhecer as suas necessidades enquanto pai/mãe. É fazermo-nos observadores astutos do nosso comportamento quando estamos com os filhos. É ver neste papel de pai/mãe uma oportunidade de auto-conhecimento e de crescimento, promovendo relações de cooperação com os filhos, compreendendo que também eles têm muito que lhe podem ensinar, se estiver presente e disponível para os ouvir e aceitar incondicionalmente.

A base fundamental da Parentalidade Consciente é o amor incondicional. Para amar incondicionalmente o seu filho, tem de ser capaz de o ver tal como ele é e isso implica abandonar expectativas, julgamentos e determinadas crenças.

Os pais conscientes não são perfeitos. Os pais conscientes têm confiança de que as respostas se encontram no seio da sua relação com os seus filhos, na experiencia de se identificarem com eles, de compreenderem a sua essências e as suas emoções e necessidades e de estarem atentos ao que os filhos lhe estão a ensinar.

Não quer isto dizer que passamos a ser pais permissivos, que abdicam de toda a sua influência sobre eles e se tornam servos das suas vontades, significa apenas que não é por ele ser mais novo, que os seus sentimentos e pensamentos, as suas necessidades e emoções deixam de ter importância. A parentalidade consciente depende da escuta dos nossos filhos, do respeito e da aceitação da sua essência e da atenção plena às suas necessidades, mas exige também a estipulação de limites e disciplina, bem como a contenção apropriada das suas emoções.

Numa altura em que as pressões para se ser o pai ou a mãe perfeitos são cada vez mais notórias, a Parentalidade Consciente surge como uma lufada de ar fresco e tranquilidade que vem dar ênfase à relação entre pais e filhos mais presente, mais equilibrada e mais genuína.

 

Texto de Cláudia da Silva Mousinho

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