Psicologia

Pedrogão! Uma visão do que é o voluntariado em situações de catástrofe.

No dia 14 de Junho de 2017 deflagrou um grande incêndio florestal no distrito de Leiria, concelho de Pedrogão Grande, alastrando para outros concelhos vizinhos, resultando num elevado número de perdas pessoais e materiais, com um elevado número de vitimas mortais e desalojados.

Quinta-feira, dia 21 de Junho de 2017, após um dia de trabalho perfeitamente normal, encontrava-me na sala-de-estar a ver as últimas notícias na TV quando recebo a chamada.
Enquanto Psicóloga Voluntária, Membro da Equipa de Intervenção Psicossocial em Crise da Cruz Vermelha Portuguesa fui solicitada para o Incêndio Florestal do Distrito de Leiria, de modo a render os colegas Psicólogos que já se encontravam no local há alguns dias, pelo que deveria estar preparada para ser chamada a qualquer momento. Sabia exaustivamente, com base nos noticiários, o que se estava a passar no Distrito de Leiria e, tendo em conta as dimensões da desgraça, confesso que já contava com a possibilidade de ser chamada para o local. Após a notificação confesso que se apoderou de mim alguma agitação e um misto de emoções, tais como ansiedade pelo receio de poder vir a correr perigo; entusiasmo pelo facto de ser uma experiência única; insegurança pelo facto de não saber bem qual iria ser o meu papel naquele cenário (embora teoricamente soubesse); e empatia, desejando fortemente poder ajudar as vítimas. Fui imediatamente fazer as malas e preparar todo o material de identificação necessário, tendo ficado posteriormente num estado de alerta.

Finalmente, na madrugada de dia 22 de Junho de 2017, partimos para Pedrogão Grande, uma equipa de Psicólogas e Assistentes Sociais Voluntárias.

Enquanto profissionais previamente formadas na área de intervenção em crise, tínhamos total conhecimento que trabalhar como voluntário em situações de emergência pode ser muito stressante e, por essa razão, os voluntários envolvidos nas operações de emergência devem estar conscientes e saber como prevenir e/ou minimizar os eventuais efeitos negativos que possam surgir (Emergency Response Unit
– ERU).
Quanto mais nos aproximávamos do destino, mais carregado se tornava o ar que respirávamos e embora ainda fosse de noite, era percetível o manto negro de fumo, tristeza e morte. Recordo-me de olhar para a estrada e reparar nas placas sinalizadoras completamente manchadas de negro e dobradas sobre si próprias, impossibilitado a sua leitura.

Finalmente chegamos ao Teatro de Operações de Figueiró dos Vinhos, local onde nos reunimos com a equipa que iriamos render. Quando olhei para os colegas voluntários reparei que o seu semblante revelava cansaço extremo, mas os seus olhos transmitiam satisfação pelo dever cumprido. Estavam bem-dispostos e com vontade de regressar às suas casas e famílias preocupadas, embora soubessem que iriam levar consigo imagens mentais devastadoras pelo sofrimento.

No Teatro de Operações recebemos toda a informação necessária acerca do objetivo das atividades que iriamos realizar, pois seriamos nós que estaríamos na linha de frente, em contacto direto com as pessoas afetadas pela situação de crise.

É fundamental que os voluntários recebam informações apropriadas que devem incidir sobre:
• Políticas e princípios de trabalho humanitário;
• Informações sobre a dimensão e a natureza da emergência;
• Informações atualizadas sobre a situação atual da operação de socorro/emergência;
• Informações sobre as reações normais ou esperadas face aos acontecimentos traumáticos e o que os Voluntários poderão fazer para prevenir e aliviar o stress.

Nessa noite não consegui dormir! Fiquei algumas horas, junto de outros colegas que permaneciam no Teatro de Operações desde o primeiro dia, a querer saber mais acerca do trabalho que tinham efetuado com as vítimas, o que esperar do estado psicológico das mesmas, entre outros assuntos. Para além disto, procurei também prestar-lhes algum apoio psicológico, uma vez que vivenciaram eles próprios situações traumáticas.

No dia seguinte, após 1 ou 2 horas de sono, recebemos informações acerca do protocolo de recolha de necessidades que deveríamos utilizar no atendimento às vítimas que se deslocassem diretamente ao Teatro de Operações em busca de ajuda. Assim foi! Chegaram algumas vítimas, com as quais conversamos e prestamos apoio psicossocial.
Mais tarde, fui convocada, juntamente com uma colega Assistente Social, para ir prestar apoio numa escola primária, onde estudava anteriormente uma menina que faleceu no decorrer dos incêndios. O objetivo seria prestar algum suporte emocional e informativo aos profissionais da escola e familiares, pois as aulas iriam começar em breve e não sabiam como responder às questões dos alunos relativamente aos recentes acontecimentos e falecimento da colega.

Quando chegamos ao local, fomos recebidos pela Psicóloga da escola, a qual nos colocou a par de todas as dificuldades e situações mais delicadas. Quando chegamos à sala, a qual se encontrava com uma audiência avultada, fomos recebidas como se fossemos as portadoras da solução, do alivio, “a luz ao fundo do túnel”. Foi visível o cansaço, a angústia, desespero e tristeza na cara dos pais, professores e auxiliares. Todos eles procuravam a resposta para a pergunta “O que dizemos às nossas crianças acerca da morte da colega? Devemos dizer a verdade?”. Enquanto psicóloga consegui empatizar de imediato com aquela audiência e procurei normalizar aquilo que estavam a sentir. Quem não se sentiria chocado, angustiado, desesperado, triste, apático depois de ter perdido para sempre os seus familiares da forma mais brutal?, depois de perder os seus bens construídos ao longo de uma vida?, depois de ter visualizado as imagens mais traumatizantes? Arrisco-me a dizer que ninguém. Nem mesmo aqueles que num estado de negação profunda, vivem o sofrimento de uma forma diferente ou menos adaptativa.

Não podendo devolver aquilo que perderam, procurei corresponder às suas necessidades e aquela mais premente era a resposta à questão geradora de grande angústia “Devo ou não informar as minhas crianças acerca do que se passou?”. As crianças e adolescentes, como qualquer outra pessoa em situação de crise, onde a sensação de perda de controlo é predominante, necessitam de informações sobre os eventos críticos, que devem ser dadas de acordo com a sua idade, de modo a poder facilitar alguma sensação de controlo, mesmo que mínima. Os educadores devem incentivar as crianças a fazerem perguntas e devem utilizá-las como um guia nas conversas. Falar é importante, no entanto, as crianças não devem ser sobrecarregadas com informação que não pediram. É importante ser honesto e usar palavras que as crianças entendam. Devemos dizer a verdade, mas não de forma nua e crua, mas sim clarificar que o que aconteceu não foi um resultado das suas ações, e evitar que as crianças ouçam as conversas dos adultos ou notícias dos media sobre os acontecimentos traumáticos (Emergency Response Unit – ERU).
Quando as crianças são confrontadas com uma pressão intensa ou súbita, como uma crise ou uma grande perda, podem vivenciar estados de stress mais intensos. As reações
das crianças ao stress são diferentes das dos adultos, assim como as suas manifestações de luto. Às vezes, essa diferença é interpretada pelos adultos como se as crianças esquecessem e se adaptassem rapidamente, sendo muitas vezes “colocadas de parte”
como forma de as protegerem. Embora algumas crianças possam não demonstrar os seus sentimentos, nem expressar a sua dor em palavras. Os períodos de luto infantil são curtos, no entanto um evento crítico pode ter efeitos mais duradouros nas crianças do que nos adultos. As crianças são vulneráveis à crise e ao stress e necessitam de cuidados e apoio dos adultos do seu círculo de pessoas mais significativas, não sendo “ignorados”, mas sem necessidade de saber todos os pormenores macabros (Emergency Response Unit – ERU).

Para além disto, procurou-se também elucidar a plateia para as reações normais da criança ao stress, sendo que depois de um acontecimento stressante que envolva uma perda, a dor das crianças é muitas vezes abrupta e pode mudar rapidamente a partir de reações de luto intensas para reações de brincadeira e divertimento. Quase todas as crianças brincam, mesmo que tenham passado por um evento crítico. As crianças mais jovens podem comportar-se de forma agressiva perante os seus cuidadores ou outras crianças. Ao mesmo tempo evidenciam sinais de ansiedade de separação relativamente aos seus cuidadores e figuras mais significativas. Pode ocorrer também mudanças de comportamento, por exemplo, regressão para o comportamento das crianças mais jovens (exemplos: fazer chichi na cama ou nas cuecas, chupar o dedo ou não ser capaz de dormir sozinha). Isso mostra a perda de confiança. Nestas situações, as relações estáveis e seguras são recursos muito importantes (Emergency Response Unit – ERU).
Ainda no decorrer da sessão foram esclarecidas outras dúvidas, também elas de cariz psicossocial. No final da sessão, foi percetível a sensação de alívio, de agradecimento. Não obstante, o medo do que poderia vir a seguir continuava refletido nos seus olhos. Perfeitamente normal, uma vez que a situação de crise (incêndios) ainda não se encontrava controlada.

Num outro momento, fomos (eu e minha colega Assistente Social) destacadas para prestar apoio a um Padre que fez todos os funerais em Figueiró dos Vinhos. A equipa de intervenção psicossocial encontrava-se preocupada que este pudesse descompensar emocionalmente, pelo que nos pediu que fossemos avaliar a situação e poder prestar algum suporte.
Quando chegamos ao local, a comunicação social já lá estava para entrevistar o Sr. Padre. Tentámos falar com ele, mas encontrava-se agitado nos preparativos para outro funeral. Percebemos que se encontrava num estado de embotamento afetivo e que se estava a refugiar no álcool para lidar com o sofrimento. Procuramos desviá-lo da comunicação social e tentar falar confidencialmente, num local mais reservado, mas o mesmo não se demonstrou recetivo. Ouvimos os jornalistas presentes tecer comentários negativos a nosso respeito e percebemos que a nossa presença não era adequada no momento, pelo que decidimos retirar-nos, adiando a intervenção para outro momento mais oportuno e menos “agitado”.

No dia 23 a equipa deixou o Teatro de Operações de Figueiró dos Vinhos e foi destacada para uma entidade residencial que tinha acolhido os desalojados, em Pedrogão Grande. À chegada deparamos com uma grande quantidade de pessoas: voluntários, desalojados, profissionais de saúde, exército e agentes de autoridade. Quando entrei nas instalações estava uma sala-de-estar completamente lotada de desalojados a dormir em colchões no chão, desde crianças a idosos, acompanhados de animais de estimação. Procurei falar com algumas pessoas, mas ficou-me gravada na memória a agitação de um cão a ganir, cuja dona idosa se encontrava a tentar descansar deitada no chão. Quando abordei a senhora, reparei que era invisual e que estava preocupada com o seu animal de estimação, pois não conseguia levá-lo a passear à rua para o acalmar um pouco. Disponibilizei-me imediatamente para o fazer, de modo a poder deixá-la descansar tranquilamente, durante um período, e poder tranquilizar o animal, visivelmente agitado.
Passeamos um pouco e ambos descontraímos no meio da agitação! Verificamos que as pessoas se encontravam desorientadas, embora já estivessem pouco a pouco, com orientação dos profissionais da área social, a retomar às suas casas (aqueles que ainda as tinham habitáveis).

Encontrava-me cansada, estava muito calor nesse dia e o ar estava irrespirável devido ao fumo, tínhamos tido pouco tempo para fazer uma alimentação adequada (embora nos tivesse sido sempre disponibilizada alimentação) e o meu corpo começou a ressentir-se. Optei, incentivada pelas colegas, a descansar um pouco e depois retomar adequadamente o trabalho.

Embora todo o cenário despertasse em nós (profissionais) a vontade de estar sempre ativos, de modo a ajudar quem necessitava, esta ajuda deixava de ser frutífera caso não existisse da nossa parte um postura e descanso adequados. Presenciei, vários colegas, que pela falta de descanso e adrenalina, se encontravam agitados, entrando em conflitos desnecessários. Depois de algumas horas de descanso e após outras tantas intervenções, fui destacada para outra Escola, desta vez uma escola secundária, onde se encontravam professores que tinham eles próprios sofrido perdas pessoais e materiais significativas. A intervenção incidiu na partilha de experiências, na normalização de emoções que estavam a experienciar e na entreajuda. Mais uma vez o resultado foi bastante favorável, a curto-prazo. A longo prazo estavam a ser tomadas as diligências necessárias para que pudessem contar com apoio psicossocial.

No dia 24 retomamos a Figueiró dos Vinhos e no final do dia, tivemos indicação que a situação estava controlada e que o Teatro de Operações daquele concelho poderia ausentar-se.

Após regressar a casa, iniciamos um novo procedimento, desta vez no sentido de prestar apoio e fazer uma supervisão aos profissionais voluntários que estiveram presentes desde o primeiro dia nos diversos Teatros de Operações. Na vida diária, o apoio dos pares (colegas) é importante para se estar bem. Este apoio pode assumir diversas formas: manter contato e conviver com os colegas; trocar experiências, reações e preocupações; e apoiar o outro. O apoio dos pares envolve, também, a intervenção quando um colega parecer angustiado ou manifestar um comportamento perigoso. Nestes casos, podemos aproximar do colega, incentivá-lo a procurar ajuda e, se necessário, informar o seu supervisor.
Estar envolvido no trabalho humanitário na sequência de uma situação de emergência na maioria das vezes é positivo, pois significa fazer algo ativo e construtivo no contexto de uma situação caótica. No entanto, geralmente significa trabalhar em condições muito stressantes. Os trabalhadores humanitários devem cuidar de si para evitar o stress e outras doenças relacionadas. O stress é um estado de pressão ou tensão sobre o corpo e a mente. Ele pode ser causado por qualquer mudança – positiva ou negativa. O stress é uma característica comum da vida quotidiana, mas se não for gerido de forma adequada pode afetar seriamente a saúde, a capacidade de trabalho e a vida privada.

Alguns trabalhadores humanitários sofrem reações de stress, pois não são capazes de responder às necessidades das pessoas ou por enfrentarem dilemas morais ou éticos relacionados com o seu trabalho (Emergency Response Unit – ERU).

Quando chegamos a casa e o tempo passa, pensamos que tudo passou arrastado pelo tempo, mas é nos pequenos acontecimentos do quotidiano que percebemos que existiram coisas que nos marcaram emocionalmente. No meu caso, estava no funeral do avô de uma amiga, à qual fui prestar o meu apoio num momento difícil da sua vida. Obviamente que num funeral geralmente encontramos um ambiente de tristeza e choro, mas a verdade é que não sentia vontade de chorar por não existir uma relação de proximidade com o falecido. Não obstante, a certo momento decidi afastar-me do local para dar mais privacidade aos familiares e amigos próximos e sem me aperceber aproximei-me dos jazigos das cinzas, onde constavam mensagens dos familiares dos falecidos. Comecei a ler as mensagem e dei por mim com as lágrimas a escorrerem pela minha cara, sentindo tristeza pelas pessoas que ali estavam em cinzas, e pela família que sofria com a sua perda….tal como as vítimas dos incêndios que morreram queimadas e agora estão em cinzas, tal como os familiares dessas pessoas que ainda sofrem profundamente a sua perda e tentam diariamente renascer, como uma fénix.

Texto de Marta Abreu

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Palavras e Fotografia

As Raízes da Saudade – III (Parte I)

Segunda-feira, 12 de Julho de 2010. Acho que foi a primeira vez, ao fim de tantos anos, que te dei um abraço. Ela tinha morrido no Domingo e eu tinha acabado de chegar a Lisboa para o velório. Estava tão preocupada contigo, procurava por ti em todas as pessoas, em todos os rostos. Sabia que devias estar desamparado, tinhas perdido a tua companheira de 63 anos. Quando te vi vinhas a chorar, com uma mão na bengala que te amparava os passos e na outra um dos teus característicos lenços de pano. Mal saí do carro corri na tua direcção.

Olhaste para mim com o olhar mais triste que alguma vez te vi… Abracei-te e tu disseste apenas:

– Oh filha…já ficaste sem a tua avó.

Naquele momento senti que o teu desespero também era por mim. Naquele momento a tua preocupação era comigo. Apercebi-me de que sempre foi assim, podias pôr-te primeiro que toda a gente, menos primeiro que eu. Para ti eu estava sempre primeiro! Lembro-me de ter pensado que agora te restava tão pouco e que por isso também te havia de perder em breve. Chorei…chorei por ela e chorei por ti. Nunca te tinha visto chorar daquela forma e partiu-me o coração. Recordava-te sempre de sorriso no rosto e de repente apareceste como que desfigurado pela dor que sentias. Estavas “sozinho”. Não sabias quem eram os teus pais, o nome não te estava escrito no bilhete de identidade. Filho de pais incógnitos, dizia. A tua única referência era uma tia que te criou, mais ninguém. A tua história tinha sido apagada, era como se só tivesse sido escrita a partir do momento em que te casaste. E mesmo assim, apesar de tudo, tinhas sempre um sorriso pronto, um abraço guardado para quando eu chorava, uma mão para me ajudar a saltar nas poças de água.

Aqueles foram dias desgastantes. Vi-te chorar em cada um deles e sentia que não podia fazer nada para te aliviar a dor de perder a tua companheira de uma vida. Sabia que te sentias sozinho, que não sabias o que ia acontecer a seguir e que acreditavas que te íamos pôr num lar…

No final do dia, já sentado no sofá da sala junto à janela, depois de quase toda a gente ter ido embora disseste:

– Agora é que acabou tudo…

O pai pôs-se de joelhos à tua frente, agarrou-te na mão e disse-te:

– Pai, eu não vou o vou por num lar. O pai não vai a lado nenhum. Vamos procurar um sítio para poder ficar durante o dia, enquanto eu estou a trabalhar, mas à noite vem para casa para ao pé de mim. Pode ser assim?

– Está bem. Assim pode ser. – Disseste tu, enquanto fungavas e limpavas as lágrimas.

– Eu não o vou pôr num lar enquanto tiver alternativa e o poder ter em casa.

– Está bem.

Respiraste fundo, vi os teus ombros relaxarem e paraste de chorar.

– Depois vou contigo ver o sítio quando encontrarmos pode ser? – Perguntei com esperança de te dar algum alento.

– Sim… – Tinhas a cabeça baixa enquanto dobravas o lenço nas mãos e uma lágrima te caia pela face.

Nessa noite mal dormi… Tinha um nó na garganta, doía-me o peito. Chorei por ela, por ti, pelo meu pai. O mundo mudou radicalmente e as nossas vidas iam mudar também. Ela era a matriarca. Tudo girava em torno dela, das suas necessidades, das suas vontades, das suas dores. Ela era a organizadora de tudo, tratava da casa, da lista das compras, das limpezas e às vezes de nos fazer a cabeça em água. Mas era ela… a tua mulher e a minha avó-mãe. Nesse dia também eu perdi uma parte de mim. Teríamos que descobrir como viver sem ela.

Demorei dois dias até cair em mim, passei dois dias em modo automático. Não me lembro desses dias, do que disse, do que fiz. Lembro-me apenas de te ver chorar… E lembro-me de ao terceiro dia estar no computador e a bateria ter avariado. Irritei-me. Tentei resolver o problema mas nada corria bem. Atirei o carregador ao chão e virei costas, saí da sala a correr e atirei-me para o chão na divisão ao lado. Chorei! Chorei verdadeiramente, num sufoco inigualável. Tinha perdido…estava perdida! Não me pude despedir dela. Na última vez que falei com ela era Quinta-feira e ela dizia-me para eu ir a casa no fim-de-semana. Ela fazia anos no dia 13 de Julho!

 

Texto de Cláudia da Silva Mousinho

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claudia.s.s.x.silva@gmail.com