Psicologia

Sobre o stress e as suas consequências.

Olá caro leitor, espero que este verão esteja a ser do seu agrado. Dado que já entrámos no período em que muitos milhares de portugueses tiram o seu tempo de descanso para recuperar das pressões do seu dia-a-dia, decidi escrever um pouco sobre este assunto que tantas vezes ouvimos (corriqueiramente) falar. O termo “stress” é hoje em dia um vocábulo típico da nossa língua, é fácil ouvi-lo ou invocá-lo ao mínimo indício de situações de pressão. A psicologia e as restantes ciências da saúde têm vindo a alertar para os seus efeitos adversos, em situações prolongadas, e hoje em dia não escasseiam as opções com vista à sua eliminação. Mas pergunto-lhe então: O que é o stress? Será um estado emocional? Ou uma reacção física que temos a determinadas situações que exigem mais de nós? Serão todas as reacções de stress iguais? Serão também todas nocivas? Vejamos então:

Que coisa é essa a que chamamos “Stress”?

Embora inicialmente o Stress tenha sido visto como puramente biológico, a psicologia avançou o seu estudo mostrando que – dado que não é um fenómeno comum e igual em todas as pessoas – existem diferenças psicológicas que são importantes a ter em conta. Hoje em dia sabemos que, grosso modo, o stress surge quando uma situação é vista como demasiado exigente face aos recursos (internos ou externos) que temos para lidar com ela. Se o leitor se está a questionar “E como se expressa ele?” podemos dizer que através dos nossos pensamentos (Ex. “Estou sempre a fazer tudo mal”, “Vou ser prejudicado com isto”, entre outros), Comportamentos (poderemos ficar mais agitados, tender a discutir mais e a descarregar em terceiros), Emoções (Raiva, medo, ansiedade, angústia, irritação) ou nas nossas reacções corporais (Aumento da transpiração, sensação de falta de ar, dores e tensão muscular constante, por exemplo). Por motivos de espaço, dado que não me poderei alargar, concluo com uma ideia que quero partilhar com o leitor: Em situações prolongadas e com intensidade constante, a exposição ao stress predispõe-nos a desenvolver um vastíssimo conjunto de doenças físicas e mentais, compromete a qualidade de vida e faz-nos envelhecer mais cedo. Por essa razão, se queremos zelar pela nossa saúde, olhar para esta questão pode ser importante. Abaixo seguem algumas indicações:

Algumas recomendações

  1. Pare por um instante e reflicta: O que é mais comum em si em situações exigentes?

Como pudemos ver, as reacções de stress que cada um apresenta são relativamente diferentes de pessoa para pessoa. Por essa razão não  há um perfil típico que seja aplicável a todos nós, mas sim um conjunto de reacções que podem estar mais ou menos presentes conforme a pessoa.

  1. Esteja atento aos sinais que o corpo e a mente lhe dão.

Pessoalmente, o meu primeiro indicador de uma situação potencialmente stressante é o súbito arrefecimento das minhas mãos – mas este sinal esteve durante bastante tempo fora da minha capacidade de reconhecer os sinais. Pense no seu organismo como um termómetro: Podem existir reacções mais insignificantes que lhe sinalizam que está a ficar sob pressão e perante exposição prolongada poderá começar a notar outras manifestações mais acentuadas. O primeiro passo para que possamos olhar por nós passa por saber quais são os nossos sinais de stress e conseguir nota-los à medida que surgem.

  1. Que soluções o revigoram?

O que resulta para si? Descansar? Falar com alguém sobre as situações mais difíceis? Fazer algo de forma diferente? Parar por um instante e dedicar-se àquela coisa que adora fazer? É importante perceber quais são as actividades que nos fazem sentir recompensados e reestabelecidos, pois elas podem servir como uma maneira de recuperar do desgaste que as situações mais difíceis nos podem trazer. Poderá ser útil ao leitor criar uma lista de opções para “recarregar baterias” –  é no entanto importante que lhes dedique algum tempo e atenção regulares, pois recorrer a elas apenas esporadicamente poderá não ser suficiente para o ajudar.

  1. A situação é recorrente? Se sim, considere em procurar um profissional especializado.

Como referi há pouco, se existem circunstâncias na sua vida que estão a interferir significativamente com o seu bem-estar e a que leitor sente que está sistematicamente a retornar, poderá ser um sinal de que é necessário analisar a situação com a ajuda de um especialista. Um psicólogo poderá ser uma ajuda preciosa para o ajudar a voltar a sentir-se de novo restabelecido e com uma sensação de bem-estar continuamente renovada. Saiba também que nos dias de hoje sabemos que esse tipo de assistência profissional não necessita de ser muito prolongado para lhe trazer benefícios, pelo que poderá negociar com o profissional a que recorrer um tempo que lhe pareça sensato para dar resposta à situação que o levou a recorrer a uma ajuda especializada.

Vá de férias sem stresses

Se se identifica com algumas das coisas que aqui partilhei, caro leitor, poderá esta ser uma oportunidade para reflectir sobre a atenção que está a dedicar ao seu estado de saúde e bem-estar. Caso conheça alguém nesta situação, sinta-se à vontade para partilhar o texto ou fazer algumas das recomendações que aqui deixei. Esta é uma questão de saúde pública e como tal será tanto mais útil quanto maior número de pessoas alcance. Quero no entanto fazer uma última ressalva: nem todo o stress é necessariamente mau para o nosso organismo. Em algumas situações ajuda-nos a funcionar mais eficazmente, contudo, devemos estar atentos ao momento em que este deixa de nos ajudar e nos passa a encostar à parede – fazendo-nos ter maiores dificuldades em funcionar no dia-a-dia ou levando a que a nossa saúde física e mental possa ficar comprometida. Se já foi de férias, espero que se sinta como novo neste momento, caso ainda não tenha ido, desejo-lhe que seja um momento verdadeiramente reparador para si.

 

Bibliografia:

Lazarus, R. S., & Folkman, S. (1984). Stress, appraisal, and coping. Nova Iorque: Springer

Pires, R, M, B. (2018) Avaliação Da Eficácia De Um Programa De Intervenção Para A Gestão Do Stresse Em Enfermeiros De Cuidados Continuados (Dissertação de Mestrado). Retirado de: http://dspace.uevora.pt/rdpc/handle/10174/23170

 

Texto de Rodrigo Pires

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Coaching e Desenvolvimento Pessoal

“A única forma de te encontrares é perderes-te primeiro.”

Quando comecei o meu processo de desenvolvimento estava longe de pensar que ia fazer-me tão bem ou que ia transformar-me tanto. Quando decidi que queria fazer mais por mim nem estava bem consciente das mudanças maravilhosas que viriam com isso. A frase que dá título a este meu primeiro texto sempre me marcou muito e hoje em dia entendo-a ainda melhor.

No início é duro. Não posso iludir-vos. Mas temos de perceber que a mudança implica remexer em algumas feridas. Implica reaprender, reanalisar, resignificar, “re-re-re” muita coisa. Muitas delas já nem nos lembramos que estão dentro de nós.

O que mais aprendi foi que ter um muro à nossa frente, não traz nada de positivo. Mas acreditamos tanto que com ele nos protegemos de tudo o que existe de mau que ele acaba por ficar cada vez maior.

Agora gostava de te perguntar…desde quando é que é agradável esconder o quanto de bom existe em nós só porque nos podemos eventualmente magoar? As emoções são o que dá alento e cor à vida. Não interessa se são “boas” ou “menos boas”, interessa que mudes o teu olhar sobre elas. Uma vez que o faças, entendes que aquelas menos boas te ensinam muito. Entendes que sem elas nem desfrutas das boas, porque já não tens termo de comparação.

Deixa que o mundo te surpreenda, deixa que a vida te vá levando. E deixares-te levar, não é ficares parado no tempo. É viveres uma vida da qual tiras o melhor proveito. É descobrires-te a cada momento. É acreditares e confiares que aconteça o que acontecer, vais conseguir sempre ver os ensinamentos que podes tirar de tudo o que te acontece.

Não sou demasiado optimista! Sou é demasiado apaixonada pela vida. Vida que me foi concedida para que tire dela e do que me rodeia, o melhor que existe. Estou longe de saber tudo e, no entanto, cada vez mais perto de me encontrar. Quando te valorizas, quando te conheces, descobres qual é o teu propósito. Compreendes que todos temos algo a acrescentar e que (auto)-conhecimento não tem fim. E que bom!

Disse-me uma vez uma pessoa muito sábia que tinha de fazer dos meus buracos um trampolim. Que posso cair, na certeza que voltarei mais forte. Que ter emoções e vivê-las faz parte, vejam bem! Acreditei e confiei de tal forma que hoje sei que o meu propósito é ajudar pessoas a entenderem o mesmo. Aceitar que podes ser o que quiseres é no mínimo assustador, eu sei! Porque aí a responsabilidade aumenta. Aí vais ter mesmo que andar para a frente e sair da zona confortável, de te vitimizares e culpares o mundo por algo que é TUA responsabilidade – seres a tua melhor versão.

Sempre foi mais fácil fazer conversa fiada, reclamar da vida e colocar as culpas em alguém. Sei tão bem! Já lá estive e nesse campo, acreditem, era uma expert. Hoje em dia comprometo-me a responsabilizar-me 100% pela minha vida. Sem desculpas nem muros.

Viver é uma bênção e quero ser um orgulho para mim. Quero partilhar aquilo que sou e quero aprender mais e mais. Cada pessoa que se cruza no meu caminho não aparece por acaso. Por isso mantenho-me alerta para o que posso aprender em cada situação.

Espero que a cada dia te descubras um pouco mais, te apaixones um pouco mais, abraces e sorrias um pouco mais. Apaixona-te pela vida todos os dias e diz-lhe tantas e quantas vezes forem necessárias o quanto és apaixonado por ela. Porque querendo ou não, a vida é como os votos de casamento, para o bem e para o mal. E com o bem (quase) todos sabemos lidar.

Texto de Marta Pico do COA

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Psicologia

Quer falar-me melhor sobre isso? Relações Sociais: O Inferno sem os Outros.

Uma das características que definiu a história evolutiva dos seres humanos, foi a sua propensão e aptidão para funcionar em pequenos grupos. Há centenas de milhares de anos atrás, a pertença a um grupo ditaria de forma quase certa, o futuro de um elemento da nossa espécie e o isolamento seria uma sentença de morte imediata. É esta a razão pela qual ouvimos frequentemente chamar ao Ser Humano, um “animal social”. Contudo, com o avanço das eras e das formas de vida em sociedade, é hoje consideravelmente diferente viver em grupo. O isolamento continua a estar presente na nossa sociedade, contudo, numa parte considerável das zonas em que habitamos não teremos predadores que possam ameaçar a nossa sobrevivência. Antes que respiremos todos de alívio perante esta constatação aparentemente optimista, a investigação científica tem mostrado que os efeitos da solidão estão bem para lá do que nos parece mais aparente.

A solidão no século XXI

O isolamento social é cada vez mais considerado um problema dos nossos dias, de tal maneira que até alguns países, como é o caso do Reino Unido, já criaram especificamente novos ministérios dedicados à sua erradicação. Mas porque é o isolamento social um problema tão importante e qual é a sua relevância para o leitor? Comecemos por analisar algumas evidências:

  1. O ambiente social tem influência na saúde psicológica dos seres humanos: Segundo o Inquérito Social Europeu (citado por Nós e os Outros), quem mantém boas relações com os outros apresenta maiores níveis de felicidade do que aqueles que não mantêm.
  2. O ambiente social tem influência na saúde física dos seres humanos: Aqueles que têm melhores relações com os outros tendem a ter menos doenças e uma maior esperança de vida comparativamente a quem não tem boas relações com os outros. Mais ainda, o isolamento social pode aumentar o risco de morte prematura em cerca de 45%. O que nos permite afirmar que, estar isolado e sentir-se sozinho é tão nocivo quanto fumar 15 cigarros por dia (Holt-Lundstad, Smith & Layton citado por Lima, 2018).
  3. Portugal é um dos países que apresenta maiores taxas de isolamento social. Estima-se que cerca de 22% dos portugueses com 65 ou mais anos viva sozinho. O inquérito social europeu de 2014 mostrou ainda que cerca de 12,5% dos Portugueses se sentiram na última semana, muitas vezes ou quase sempre sós. Embora nos jovens adultos este valor seja baixo, no caso dos mais velhos sobe para cerca de 18%, isto é, quase 1 em cada 5 portugueses com idade igual ou superior a 65 anos referiu sentir-se sozinho na grande maioria do tempo. Estes dados tornam-se consternadores se nos recordarmos que Portugal é dos países da Europa com maiores taxas de envelhecimento populacional.

Asseguro ao leitor que existem muitas mais evidências para outros problemas associados ao isolamento e solidão, mas que infelizmente, por questões de espaço não poderei abordar aqui. Contudo, a principal conclusão que devemos retirar é que um mau ambiente social tem sérias implicações na saúde dos seres humanos. Por este motivo, ao falar em autocuidado é de extrema importância lembrar que as nossas relações sociais devem também ser elas alvo de investimento.

Relações Sociais – A sua importância

Como referi no inicio desta rúbrica, as relações sociais são um dos ingredientes que ditaram e influenciaram a nossa sobrevivência e evolução enquanto espécie. Por esta razão, o contexto social tem influência contínua não apenas na nossa satisfação com as nossas relações, mas também com o nosso funcionamento em geral ao longo do ciclo vital – influindo sobre os nossos estados de humor, níveis de stress, bem-estar, persecução de objectivos, sensação de segurança, sentido de propósito e de significado da nossa vida. Isto significa que as relações sociais modelam-nos, influenciando o nosso comportamento e o nosso bem-estar (Holman, Kanter, Tsai & Kohlenberg, 2017). A qualidade das nossas relações sociais pode ser uma fonte de resiliência ou uma agravante do risco de desenvolvimento de problemas de saúde físicos e psicológicos – algo que se verifica especialmente na maioria dos principais casos de doença mental (Beck citado por Holman, Kanter, Tsai & Kohlenberg, 2017, ; Leach & Kauzler citado por Holman, Kanter, Tsai & Kohlenberg, 2017; Pettit & Joiner citado por Holman, Kanter, Tsai & Kohlenberg, 2017)

Implicações práticas

O leitor poderá estar a questionar-se que soluções existem para combater o problema da solidão e do isolamento social. Quero começar por concordar com Lima (2018) dizendo que “a solidão não se cura com um psicólogo ou com uma linha de apoio 24 horas por dia” – embora a psicologia seja uma das ciências que tanto tem ajudado a compreender as implicações deste problema nas nossas vidas, a sua resolução transcende-se para todos nós. Por esta razão, defendo que é imperativo cuidar das nossas relações sociais. Contudo, tal não significa tornar-se a nova estrela em ascensão com milhares de seguidores nas redes sociais, ou coleccionar uma legião de amizades apenas porque sim. O cuidado implica reciprocidade – não apenas para que possamos falar sobre o que sentimos, mas sim criar um espaço onde o cuidado se dá e recebe (Lima, 2018). Este maior contacto psicológico que pauta as relações de proximidade (Holman, Kanter, Tsai & Kohlenberg, 2017) permite-nos desenvolver a sensação de que iremos ter o apoio e suporte quando mais necessitarmos (Lima, 2018) – eliminando assim o sentimento de isolamento e solidão e todos os seus agravantes para a nossa saúde e bem-estar.

Em suma caro leitor, a solidão é de tal forma corrosiva para a nossa saúde e bem-estar, que vivê-la é, parafraseando Sartre, sentir não que “O inferno são os Outros” mas sim “O inferno sem os Outros”. Não deixe de assegurar um espaço no seu dia-a-dia para cuidar e usufruir das relações com quem sente que lhe faz bem – sejam os seus amigos, família, colegas de trabalho ou qualquer outra actividade de grupo da qual faça parte – pois cuidando deles, cuidará também de si.

 

Texto de Rodrigo Pires

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Psicologia

O sabor dos (loucos) vinte de hoje.

Lembraste quando eras adolescente e sentias que não eras carne nem peixe, mas estavas à beira de ser servido/a numa bandeja anyway? Pois é. Bem-vindo aos teus vinte e tais, onde a única coisa que muda é que tens (na maioria dos casos) uma identidade profissional parcialmente delineada. O que não quer dizer que não a questiones todos os dias e não acabes, até, por ingressar noutro trajeto completamente diferente.

Aos vinte e tais começas, também, a renovar o teu guarda-roupa. Os vestidos de festa aumentam e o teu roupeiro torna-se mais apelativo, digno de uma verdadeira socialite. São vestidos que só vestes uma vez, mas com os quais vais andar de “peito inchado” a tirar fotos que te vão garantir uma boa centena de likes no instagram. E porque é que os vestidos de festa aumentam? Porque (aí vem a grande diferença) as tuas amigas começam a casar! Deparas-te com o calendário de Junho a Setembro cheio e dás por ti a esperar que a onda casamenteira tenha uma interrupção de um aninho ou dois porque a tua carteira precisa de engordar novamente até ao próximo presente.

Nos teus vintes quase intas também começas a ter mais contacto com bebés. Seres dos quais há muito que não ouvias falar mas que, num ápice, voltam a estar no centro das dinâmicas das tuas amizades. As tuas amigas dividem-se entre as que se tornam tias e invadem o teu facebook com páginas de artigos de bebé e convites para concertos da patrulha pata, e aquelas que se tornam mães e te começam a desejar os parabéns terminando com um orgulhoso e maduro “são os votos da família Santos-Silva”. E até te sentes mais crescidinha quando deixas de ser cumprimentada com um “que saudades minha atrasada” e passas a ouvir e a viver um “diz olá à tia Pipa”. Confesso que os gugudádás não são conversas menos cognitivamente estimulantes que os “ele mandou-me uma mensagem para o face. O que faço?”. Na verdade, começas a sentir-te bem por alastrares os teus laços familiares e te deixares ser tia da criançada.

Começas a dar por ti a pensar numa lista de nomes infindáveis para menino e menina. (sim, vais dar por ti a divagar neste assunto!). E eis quando acabas por ter um cão chamado Bernardo ou uma gata chamada Clarinha.

Aos vinte e tais, vais sentir que não terminaste nem começaste nada e vais-te dar conta que os teus amigos estão a começar uma família enquanto tu ainda andas a estorvar a tua, ou porque lhes deixas o cão ao fim de semana ou porque continuas a pedinchar tupperwares. Vais sentir uma certa ansiedade relativamente ao futuro (não, não te tornas mais saudável ao nível mental, pelo menos até à entrada nos intas). De um lado tens ainda alguns resquícios da vida universitária e as party people. E olhas para essas pessoas já com uma certa distância … já não tens fígado nem estomago para tanta festa regada a tudo menos água. As séries passam a estar novamente no centro dos teus serões (já não recorres às séries só para procrastinar no estudo para uma frequência daquela cadeira que achas insuportável). Do outro lado, tens os teus amigos a enveredar numa nova aventura, a do casamento e dos filhos. E sentes-te ainda tão distante dessa realidade. Estás num impasse … vais começar a sentir-te um tanto ao quanto desintegrada. Tão welcome my dead adolescent me. Vais querer viver intensamente, mas substituis o capítulo 8 e a praxis por um bilhete de avião para Praga.

Nos teus vintes vais viajar muito. Vais-te viciar em viagens e vais começar a pensar que é isso que queres fazer para sempre. Embora também acabes por compreender que isso requer fundos e que os fundos requerem que vás aceitando estagiar ao abrigo de uns 500€ ao mês (que até te vão parecer muito, até começares a chegar ao segundo dia após o dia de S. Receber com apenas 10€ na conta).

Resumindo, sim! É tão difícil sair da casa dos vintes como foi entrar.

O meu conselho para ti: tudo tem o seu tempo. Este é o tempo de ser sem ser. O que traz uma boa novidade para ti. Podes continuar a descobrir-te por mais um bocadinho. A psicologia do desenvolvimento permite-te isso ao chamar-te Adulto (a) Emergente. Vive, controla essa ansiedade. Dizem, por aí, que os intas são diferentes!

 

Texto de Filipa da Piedade Rosado

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Psicologia

Quer falar-me melhor sobre isso? Auto cuidado.

Olá de novo caro leitor, espero que se encontre bem. Até agora tenho escrito sobre a utilidade da psicologia ao serviço do ser humano, na tentativa de desmistificar ou clarificar algumas concepções que possam ser ter vindo a ser criadas por outras fontes fora da psicologia. Começarei a rúbrica de hoje com uma pequena analogia: Todos os anos, por volta do inicio da época do inverno começam a surgir as recomendações de vacinação contra a gripe – com especial foco nos grupos vulneráveis. A prevenção é uma estratégia muito eficaz de redução dos problemas de saúde, poupança de recursos e com a qual todos saímos a ganhar. Contudo, a vacinação não é uma realidade aplicável ao campo da saúde mental…ou será que sim? Existirão formas de nos protegermos a nós e à nossa saúde mental? E se, caro leitor, lhe dissesse que elas existem e estão à disposição de qualquer pessoa? Se continua interessado, avancemos então, vou mostrar-lhe um pouco do que estou a falar.

A ciência psicológica tem vindo a dar algumas respostas neste sentido, vejamos: No campo de estudo da saúde mental, os psicólogos têm ao longo das décadas identificado aspectos que, quando presentes, podem aumentar ou reduzir a probabilidade que os seres humanos possuem de desenvolver problemas relacionados com a sua saúde psicológica. Por motivos de espaço, não falarei muito sobre este assunto, mas o importante a reter é que denominamos os factores que reduzem esse risco de “Factores Protectores”. Alguns factores protectores são inerentes aos seres humanos e por essa razão muito complicados de influenciar (pensemos por exemplo nos determinantes biológicos). Contudo, existem outros que podem ser adquiridos ou desenvolvidos (darei aqui como exemplo a prática de exercício físico, que hoje em dia se sabe ser um factor protector da saúde mental (Korge & Nunan, 2018) ).

Portanto, existem certos aspectos que podemos desenvolver para melhor cuidar da nossa saúde psicológica. Estes aspectos, na forma de hábitos, comportamentos ou atitudes podem ser designados de “auto cuidado”. Irei agora falar um pouco melhor sobre alguns aspectos associados a este termo:

Mas como assim “Auto cuidado”?

Eventualmente, alguns dos nossos leitores podem já ter dado por si a ponderar hipóteses de auto cuidado como “Vou começar a praticar desporto” ou “Vou começar a descansar mais”  para no entanto as realizar apenas pontualmente. No entanto, ao invés de pontual, o auto cuidado deve tornar-se parte integrante do nosso dia a dia para que nos seja realmente proveitoso (Pulianda, 2017). É também importante relembrar que quando falamos neste assunto, quantidade e qualidade são conceitos bem diferentes. Muito facilmente poderemos cair na ideia de que para cuidar bem de nós temos de nos envolver em acções, actividades, desenvolver projectos e, em suma, continuar a trabalhar. Contudo, para alguns de nós, o melhor auto cuidado poderá consistir em aprender a desligar: Tirar férias, descansar, conciliar melhor o trabalho com o lazer e no fundo, permitir-se disfrutar a vida. O importante, por isso, é não empreender um plano ambiciosíssimo de desenvolvimento e melhoria pessoal, mas sim perceber o que nos ajuda a viver melhor e a atenteder às nossas necessidades. (Pulianda, 2017).

Epílogo.

Esta rúbrica dá inicio a uma nova série no blog sobre auto cuidado. Nos próximos meses irei escrevendo sobre algumas das suas várias formas. Ao leitor lanço o repto de acompanhar os próximos lançamentos e se lhe aprouver, experimentar algumas das formas que aqui apresentarei. É certo que nenhuma forma de auto cuidado será uma cura para todos os males, nem tão pouco irá substituir a ajuda profissional quando necessário. Contudo, cuidar de nós é um investimento que trará inúmeros ganhos a quem estiver disposto a fazê-lo, ajudando-nos a manter a nossa saúde física e mental mesmo na presença de sobrecargas/dificuldades  – ou como os psicólogos adoram chamar-lhe: ser mais resilientes (Sapienza & Masten citado por Chmitorz et al., 2018)

“Posso ter defeitos, viver ansioso e ficar irritado algumas vezes,

mas não me esqueço de que a minha vida é a maior empresa do mundo,

e posso evitar que ela vá à falência.”

Fernando Pessoa.

 

Referências Bibliográficas:

Chmitorz, A., Kunzler, A., Helmreich, I., Tüscher, O., Kalishc, R., Kubiak, T., … Lieb, K. (2018). Intervention studies to foster resilience –A systematic review and proposal for a resilience framework in future intervention studies. Clinical Psychology Review, 59, 78–100. Doi: https://doi.org/10.1016/j.cpr.2017.11.002

Korge, J. & Nunan, D. (2018). Higher participation in physical activity is associated with less use of inpatient mental health services: A cross-sectional study. Psychiatry Research, 259, 550–553. doi: https://doi.org/10.1016/j.psychres.2017.11.030

Pulianda, M. (2017, Maio 25). The Self-Care Reality Check – I don’t really like yoga, and other confessions. Retirado de: https://www.psychologytoday.com/blog/the-in-between/201705/the-self-care-reality-check

 

Texto de Rodrigo Pires

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Psicologia

Quer falar-me melhor sobre isso? Algumas reflexões sobre a mudança.

Olá de novo caro leitor, bom ano novo! É frequentemente nesta altura que nos encontramos a planear os próximos 365 dias, alguns traçam até objectivos para a atingir no ano vindouro (as chamadas “Resolutions” pelos anglo saxónicos) e por essa razão iremos hoje debruçar-nos sobre o conceito da mudança.

A mudança é um conceito central em psicologia e em psicoterapia. Porém, no mundo académico ainda hoje nos debruçamos sobre a pergunta “Como mudam as pessoas?”. Existem hoje diversas teorias que tentam explicar esse fenómeno e hoje apresento uma que nos poderá ajudar a pensar um pouco sobre “O que é mudar?”.

O modelo em questão denomina-se “O Modelo Transteórico dos Estágios de Mudança” e foi criado por James Prochaska e Carlo DiClemente, dois psicólogos norte americanos. Actualmente, este é um dos modelos mais conhecidos da mudança e defende que a mudança é um processo que ocorre por intermédio de um conjunto de etapas pelas quais um individuo passa. São elas [1]:

  1. Pré contemplação – não existe uma intenção de mudar num futuro próximo.
  2. Contemplação – Inicio do reconhecimento da necessidade de mudança e ponderação dos prós e dos contras da mesma.
  3. Preparação para Acção – Preparação para iniciar a mudança; começo dos primeiros passos na sua concretização.
  4. Acção – A pessoa toma passos concretos para alterar o seu comportamento ou desenvolver novos hábitos mais saudáveis.
  5. Manutenção – A acção mantém-se há pelo menos seis meses e existe um investimento na prevenção da recaída.
  6. Recaída – Existe uma regressão para fases anteriores do processo de mudança.

Devemos pensar nas seguintes etapas como parte de um ciclo. Idealmente, a mudança conclui-se na fase da manutenção, onde se consolida até se tornar um novo hábito. O facto da recaída ser mencionada por este modelo não significa que ela ocorra sempre, mas sim que pode ser uma consequência possível do processo da mudança (ex. – alguém que volta a fumar após décadas de abstinência).

Um pequeno passo para o Homem, um grande passo para a mudança

Coloquemos agora a teoria de parte e façamos agora a questão que realmente importa: “Em que é que isto me pode ser útil?”. Na minha opinião, o leitor está perante um bom exercício mental que poderá realizar consigo mesmo em qualquer altura em que deseje mudar algo em si. Como? Em seguida explicarei:

Se bem se lembra, comecei por falar nas resoluções de ano novo no início deste texto porque muitos de nós começam o ano com aspectos da sua vida que desejam melhorar. No entanto, no plano das nossas ideias as coisas correm sempre de forma mais fácil do que na prática e muitas vezes acabamos por desistir de mudar coisas que gostaríamos, ou reorientar os nossos desejos de modo a atingir um nível intermédio entre o nosso estado inicial e o nosso estado ideal.

O importante é perceber que a mudança é um processo e não um estado. Ou seja, não passamos de estar “não mudados” para “plenamente mudados”. A mudança é gradual, implica esforço, tentativas, falhas, mas também sucessos. Implica começar a desenvolver esforços para chegar onde queremos e acima de tudo, perceber aquilo que resulta para nós. Por essa razão, a mudança não é um processo igual para todos, algumas pessoas terão mais facilidade em trabalhar sobre determinados aspectos, outros nem tanto, mas isso não significa que seja impossível mudar. Acima de tudo, se queremos mudar algo em nós mas por alguma razão nos sentimos constantemente a regressar à estaca zero, talvez seja um sinal de que precisamos de ajuda a chegar onde queremos.

É aqui que a Psicologia pode entrar ao serviço do leitor. As intervenções psicológicas (nas quais se inserem a psicoterapia, por exemplo e na qual temos vindo a falar nos últimos tempos) são uma ferramenta que se encontra ao serviço do cliente para o guiar na direcção que mais lhe aprouver: Seja uma mudança com vista ao próprio bem-estar, à alteração de formas de pensar, sentir ou agir, padrões de relacionamento, adopção de novos hábitos de vida, mudança de carreira, melhor gestão do tempo, conciliação entre o trabalho e a família e muitas outras finalidades. Como já referi outras vezes por aqui: se o leitor está em dúvida ou com dificuldades, consulte um psicólogo!

Em suma, as mensagens que pretendo passar ao leitor com esta pequena rúbrica são:

  1. Mudar implica um processo contínuo de investimento nos nossos objectivos.
  2. No entanto, a mudança é algo em constante transformação: Poderemos estar plenamente motivados em alguns momentos, noutros poderemos ver-nos tentados a deixar o progresso que já alcançámos. Para além disso, existirão alturas em que mudar será mais fácil do que noutras. Tudo isso é normal e faz parte do processo.
  3. O processo de mudar algo em nós não é universal: algumas pessoas terão mais dificuldades do que outras em determinadas áreas, ou até, em fases diferentes do processo. É importante que não nos deixemos levar por comparações com terceiros ou até com as nossas próprias expectativas sobre o que seria “o ideal” para nós.
  4. A mudança é uma aprendizagem: Através dos nossos esforços e/ou do apoio de outros vamos aprendendo o que nos ajuda a chegar onde queremos e o que não resulta para nós.
  5. Por vezes podemos querer mudar coisas que fazem parte de nós e da nossa vida mas reparar que voltamos constantemente à estaca zero. Nestes casos poderá ser uma boa altura para procurar o auxílio de um profissional especializado que nos ajude a chegar onde queremos.

Referências:

  1. Prochaska, J., O. & Prochaska, J., M. (2016). Changing to thrive: Using the Stages of Change to Overcome the Top Threats to your Health and Happiness. Minnesota: Hazelden Publishing.

 

Texto de Rodrigo Pires

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rodrigopiresuevora@hotmail.com

Psicologia

Quer falar-me melhor sobre isso? A relação terapêutica.

Olá de novo caro leitor, se tem acompanhado a minha rúbrica no Life Quadrants lembrar-se-á de que este é o último de uma série de três textos que procuram iluminar um pouco o conceito de “Psicoterapia”. Ao longo do tempo tenho referido várias vezes a importância do conceito de relação terapêutica na concepção de “psicoterapia”, contudo, até ao momento esse conceito não foi ainda aprofundado. Por essa razão, o propósito desta rúbrica é o de elucidar, o melhor possível, que tipo de relação caracteriza esta prática. Não esconderei ao leitor que não será tarefa fácil, uma vez que este assunto é tema de debate há várias décadas na comunidade científica de psicologia e que tem dado origem a muitas páginas sobre o assunto. Preparado? Aqui vamos então:

Como ponto de partida, comecemos por dizer que a psicoterapia funciona como um “microcosmo” da vida do cliente (Spinelli citado por Finlay, 2016). Tal significa que é através dela que, momento-a-momento, o terapeuta consegue observar como os seus clientes sentem, pensam e vêem o seu mundo psicológico e social – ou ainda, de que forma se relacionam com o mesmo. Este processo estende-se também para o terapeuta, e neste sentido, é na relação terapêutica que a vida relacional do cliente se revela. Mas quererá isso dizer que a relação terapêutica é sinónimo de uma relação de proximidade e amizade? Bem, a resposta é sim e não. Na relação terapêutica o terapeuta mostra-se como uma figura presente, segura, constante e incondicionalmente disposta para estar com o cliente (Filnlay, 2016), o que significa que independentemente do sucedido, ele estará lá para o escutar e aliviar o seu sofrimento. O terapeuta procura também comunicar genuína e honestamente, permitindo-se ser emocionalmente “tocado” pelo cliente (Jacobs citado por Finlay, 2016).

Outra qualidade da relação terapêutica é o seu cariz colaborativo, o que significa que é uma relação que implica não uma postura assimétrica entre um “especialista” e um “doente”, mas sim uma relação em constante transformação, evolução e negociação que é co-criada por dois seres humanos que se encontram com o objectivo de promover o desenvolvimento e o bem-estar daquele que procura ajuda (Evans & Gilbert citado por Finlay, 2015). Ainda assim, devemos pensá-la como uma relação que implica alguma desigualdade, pois o centro das atenções reside em última instância no cliente e no seu bem-estar. Para além disso, salvo raras e devidas excepções, a relação terapêutica é circunscrita ao contexto específico da terapia – algo a que nós psicólogos denominamos de setting terapêutico.

Em suma, a relação terapêutica que caracteriza a psicoterapia, é uma relação que procura criar as condições ideais para fomentar a mudança e o bem-estar do cliente. É uma relação que implica segurança, empatia, respeito, compaixão e de ausência de julgamento de qualquer aspecto que o cliente leve à terapia.

Ao longo da história da psicoterapia, o papel da relação terapêutica tem sido cada vez mais estudado e investigado, sendo que, como já referi em textos anteriores, actualmente existem evidências que parecem indicar que a qualidade da relação terapêutica contribui mais do que a utilização de técnicas específicas no alívio do sofrimento humano. Por esta razão e como já começa a ser tradição nas minhas rúbricas do LQ, termino com uma citação de John Norcross (2011) sobre o assunto:

A psicoterapia é na sua essência uma relação humana. Mesmo quando feita à distância ou via computador, a psicoterapia é, irredutivelmente, um encontro humano. Ambas as partes trazem aspectos de si – as suas origens, culturas, personalidades, psicopatologia, expectativas, vieses, defesas e forças – para a relação humana. Alguns defenderão que a relação é um pré-requisito da mudança e outros um processo da mudança, no entanto, todos concordam de que se trata de um investimento relacional. (p.429) “

 

Referências:

            Finlay, L. (2016) Relational Integrative Psychotherapy: Engaging Process and Theory in Practice. West Sussex: John Wiley & Sons Ltd.

            Norcross, J. C. (2011) Psychotherapy Relationships that Work: Evidence-Based Responsiveness. Nova Iorque: Oxford University Press.

 

Texto de Rodrigo Pires

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Psicologia

Quer falar-me melhor sobre isso? O propósito da psicoterapia.

Olá de novo caro leitor, se tem acompanhado o meu trabalho lembrar-se-á de que na minha última rúbrica começámos a explorar o conceito de psicoterapia falando sobre as várias maneiras de a praticar. Concluímos que existem diversos modelos teóricos, com diferentes formas de realizar o trabalho psicoterapêutico e que, segundo a investigação, parecem ter níveis de eficácia equivalente. Para continuarmos a explorar o conceito, hoje pretendo focar-me na questão “Qual o propósito da terapia?”. O leitor poderá neste momento estar a pensar “A cura/alivio dos sintomas de problemas de saúde mental!”, embora concorde parcialmente torno a lançar a dúvida: será apenas esse? Trago hoje três estudos que nos fornecem algumas conclusões interessantes sobre o assunto.

Para começar, considero que ninguém melhor para nos ajudar a compreender o propósito da psicoterapia que os seus próprios clientes. Um estudo de 2015 desenvolvido por Olivera, Penedo e Roussos propôs-se a estudar em antigos clientes de psicoterapia, a percepção do que mudou e as razões que os levou a procurar a terapia. Através de entrevistas a antigos clientes de psicoterapia descobriram que as principais razões de consulta foram: Problemas interpessoais (i.e. problemas conjugais, com a família etc), Problemas emocionais (nomeadamente depressão, ansiedade, entre outros) e Crises Relacionadas a eventos de vida (i.e. Divórcios, entre outros). Os autores classificaram os tipos de mudança referidos pelos participantes como: Mudanças cognitivas (i.e. mudança da forma de pensar ou de processar os acontecimentos à sua volta); Mudanças emocionais (i.e. diminuição de depressão ou ansiedade); Melhoria da qualidade de vida (i.e. melhoria do bem-estar e da vontade de viver); Mudanças interpessoais (i.e. mudanças nas relações com os outros); Mudanças intrapessoais (i.e mais aceitação de si, maior autoconfiança) e Mudança de comportamentos (i.e mudança da forma de responder às situações). A maior parte dos participantes referiu notar mudanças em mais do que uma área.

Em 2010, outro estudo desenvolvido por Binder, Holgoersen e Nielsen procurou responder à questão “O que é um bom ganho terapêutico para o cliente de psicoterapia?” e para o efeito entrevistaram antigos clientes de psicoterapia e descobriram cinco temas importantes: Desenvolver novas formas de se relacionar com os outros – nomeadamente, uma maior segurança, autenticidade, assertividade, sensibilidade e empatia nas relações; Redução dos sintomas; Mudanças no comportamento relacionado ao sofrimento; Melhor capacidade de introspecção e auto-compreensão e melhor aceitação e valorização de si próprio.

Estes dois estudos elucidam aspetos importantes relativamente à pergunta que lancei ao leitor no parágrafo anterior. Em primeiro lugar, percebemos que a psicoterapia pode servir não apenas para redução ou gestão de sintomas do nosso sofrimento psicológico, mas também como forma de suporte e amparo a problemas de relação com os outros ou a eventos de vida que nos causem impacto. Em segundo, podemos perceber que os ganhos psicoterapêuticos não se limitam exclusivamente à eliminação do sofrimento. De facto, estendem-se bem para lá disso, permitindo mudar a nossa forma de pensar sobre nós, os outros e o mundo, mudar os nossos estados emocionais, ajudar-nos a viver melhor e melhorar a nossa relação connosco e com os outros.

Há no entanto outra pergunta que me parece ser pertinente fazer se queremos perceber as implicações do propósito da psicoterapia. Se por um lado a investigação parece apontar para o potencial de uma panóplia de mudanças, até que ponto a terapia pode verdadeiramente mudar-nos? Roberts e colaboradores publicaram este ano uma meta análise[1] sobre o efeito da psicoterapia nos traços de personalidade que traz algumas conclusões interessantes a esse respeito. Em mais de 200 estudos diferentes, os autores verificaram que existem mudanças nos traços de personalidade após intervenção psicoterapêutica, sendo que os dois traços de personalidade que mostraram uma mudança positiva mais acentuada denominam-se de estabilidade emocional[2] e extraversão[3]. Os autores referem que os seus dados corroboram a ideia de que a psicoterapia pode levar a uma alteração duradoura da personalidade e que esta não parece estar associada a um típico específico de modalidade terapêutica. Os autores referem ainda que embora exista a possibilidade de que as mudanças se desvaneçam com o tempo, a evidência parece apontar que tal não sucede.

Considerações finais

            Como o leitor certamente poderá imaginar, este pequeno texto não pode fazer jus a toda a literatura existente sobre psicoterapia, pelo que poderão existir outros estudos igualmente relevantes que não estão aqui incluídos. No entanto, o propósito da apresentação destas três investigações é apenas testar algumas concepções que podemos ter sobre esta área, influenciadas pela ideia socialmente construída daquilo que é a psicoterapia.

            Mais uma vez reitero, a psicoterapia (e por conseguinte, a psicologia) é uma poderosa forma de nos ajudar a viver melhor, mais estáveis e mais livres. Embora a ideia de eliminação de sintomas não esteja totalmente errada, para alguns modelos teóricos não é sequer o foco da intervenção (i.e. pode ser encarada como um subproduto da mudança). Como pudemos ver, há uma grande quantidade de situações que podem ser indicadas para trabalhar em psicoterapia sem que tal implique uma gestão ou eliminação de sintomas. Se ainda estiver céptico, ficam então as palavras de Norcross, um reconhecido investigador na área, sobre o conceito de psicoterapia: “A psicoterapia é a aplicação intencional e informada dos métodos clínicos e posturas interpessoais derivadas de procedimentos psicológicos estabelecidos para o propósito de assistir pessoas na modificação dos seus comportamentos, pensamentos, emoções e/ou outras características pessoais na direcção considerada desejável pelos participantes” (Norcross citado por APA, 2013).

Referências Bibliográficas:

American Psychological Association. (2013). Recognition of psychotherapy effectiveness. Journal of Psychotherapy Integration, 23(3), 320-330. http://dx.doi.org/10.1037/a0033179

Binder, P. E., Holgersen, H., & Nielsen, G. H. (2010). What is a “good outcome” in psychotherapy? A qualitative exploration of former patient’s point of view. Psychotherapy Research, 20, 285-294. doi:10.1080/10503300903376338

Olivera, J., Braun, M., Gómez Penedo, J. M., & Roussos, A. (2013). A qualitative investigation of former clients’ perception of change, reasons for consultation, therapeutic relationship, and termination. Psychotherapy: Theory, Research, & Practice, 50, 505–516. http://dx.doi.org/10 .1037/a0033359

Roberts, B. W., Luo, J., Briley, D. A., Chow, P. I., Su, R., & Hill, P. L. (2017). A systematic review of personality trait change through intervention. Psychological Bulletin, 143(2), 117-141. doi:10.1037/bul0000088

[1] Tipo de estudo que procura analisar um grande número de estudos diferentes sobre um determinado tema de modo a integrar e resumir os seus resultados.

[2] A capacidade de manter um equilíbrio emocional em circunstâncias stressantes.

[3] Grau de sociabilidade e assertividade de um individuo.

 

Texto de Rodrigo Pires

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Psicologia

Geração One-Night Stand

Hoje venho falar-vos de um tema que se insere dentro de um dos Life Quadrants que considero ser, simultaneamente, um dos pilares da nossa civilização: a Relação. Mais concretamente, venho falar-vos de um fenómeno polémico e provocador que, ao longo da última década, tem vindo a captar o interesse da comunidade cientifica, ao ter ganho uma expressão tremenda nas dinâmicas relacionais dos (as) nossos (as) jovens. Hoje, venho falar-vos do fenómeno do One-Night Stand.

Os One-Night Stands (ONS) – encontros breves de sexo ocasional – têm vindo a enraizar-se no seio das dinâmicas dos (as) estudantes no Ensino Superior. Contexto onde diversos estudos têm encontrado uma taxa de prevalência desta prática superior a 50% (Claxton & vanDulmen, 2013; Garcia, Reiber, Mass & Merriwether, 2012; Stinson, 2010). As relações românticas (como o namoro), que outrora dominavam o campus académico, hoje praticamente despareceram do reportório comportamental dos (as) estudantes (Glenn & Marquardt, 2001) que substituíram os afetos pelo sexo e o compromisso pela diversão. Popularizando e normatizando as práticas de Sexo Ocasional (Paul, McManus & Hayes, 2000; Garcia, Reiber, Massey & Merriwether, 2012), colocando o One-Night Stand como a principal forma de interação íntima entre jovens heterossexuais no Ensino Superior (Bogle, 2008; Grello, Wesh & Harper, 2006; McAnulty, 2012; Townsend & Wasserman, 2011).

Embora estes dados sejam consistentes com a Teoria da Adultez Emergente (Arnett, 2000) que defende que este período de desenvolvimento, rico em oportunidades de transformação do self, leva a que os (as) jovens sucumbam à ânsia da experimentação sem olhar às consequências, a incursão em ONS não está isenta de riscos. Associada a elevados consumos de álcool e à prática de sexo desprotegido, coloca os (as) jovens em rota de colisão com DSTs, gravidezes indesejadas, violações e agressões, e despoleta sentimentos de arrependimento, culpa e vergonha (Campbell, 2008). Foi a consciencialização do paradoxo entre esta alteração na estrutura das relações sociais dos (as) jovens e os riscos que poderão advir da prática de ONS, que deu o mote ao estudo que realizei no âmbito da minha dissertação de mestrado e que, em seguida, vos descrevo de forma breve.

OBJETIVO DO ESTUDO: Explorar a vivência do fenómeno do ONS. Compreender as suas definições e funções, os sentimentos e pensamentos associados às suas dinâmicas e explorar o papel do Ensino Superior na prática de sexo ocasional.

MÉTODO: A amostra contou com a participação voluntária de 11 estudantes do sexo masculino (subgrupo masculino) e 11 estudantes do sexo feminino (subgrupo feminino) de 1o ciclo da Universidade de Évora, com idades compreendidas entre os 18 e os 25 anos. Todos (as) os (as) participantes reportaram já ter incorrido, pelo menos uma vez, num ONS.

Selecionámos como instrumento principal a entrevista semiestruturada e realizámos um pequeno estudo piloto com o fim de averiguar o caráter unívoco dos itens o guião. As entrevistas foram realizadas presencialmente. Os dados foram analisados através da análise de conteúdo com o seguinte procedimento: (1) leitura flutuante e análise te- mática do corpus, (2) agrupamento diferencial dos dados em termos de conteúdo e (3) repetição do processo de codificação para averiguar a estabilidade temporal dos resultados. Recorremos a um juiz independente, com o qual refletimos, conjuntamente, o processo.

RESULTADOS: Ambos os subgrupos consideraram a prática uma interação física. No entanto, tanto rapazes como raparigas se mostraram confusos relativamente ao caráter exclusivamente sexual desta interação e algumas diferenças de género começaram a ganhar forma através das definições que os (as) jovens atribuem ao ONS. As funções que o ONS subjaz na vida relacional dos (as) jovens apareceram muito centradas no Self, desvalorizando e instrumentalizando o (a) parceiro (a), que é utilizado (a) unicamente para gratificar este Self. Parecendo a experiência não contribuir para a descoberta do Outro ou para a descoberta de um Eu relacional. O momento que antecede o encontro foi realçado como o mais gratificante para os rapazes, com 73% a relatarem sentir desejo sexual, contra apenas 27% das raparigas. Para estas é a adrenalina e a ausência de pensamentos que domina este momento pré-incursão. Durante o encontro, 63% dos rapazes e 54% das raparigas reportam não ter qualquer sentimento ou pensamento, parecendo sugerir que a passagem ao ato leva ao desvanecimento do prazer. Após o ONS, a experiência parece remeter 73% dos rapazes para um paradoxo entre o sentimento de bem estar (físico e psíquico) e o aparecimento de sentimentos de arrependimento

Para 82% dos rapazes e 73% das raparigas é a universidade que incita e promove a incursão em One-Night Stand. Ambos os subgrupos destacaram o facto de terem mais autonomia e menos controlo parental, a pluralidade (na oferta) de interações sociais, a falta de imposição de responsabilidades adultas e a normatização das práticas sexuais como as principais caraterísticas que, neste contexto, promovem o ONS.

Em suma, o estudo pareceu sugerir que a incursão em ONS é mais intencional nos rapazes do que nas raparigas, dado que para estas o consumo de álcool e a ausência de pensamentos são os propulsores que levam à experiência. O ONS não parece ser sentido como uma experiência gratificante nem pessoal nem sexualmente, particularmente para as raparigas. Embora a falta de proteção tenha sido referida como comum nestes encontros, apenas 18% dos rapazes e 45% das raparigas afirmaram que não usar preservativo os (as) levaria ao arrependimento.

Ainda que os resultados do estudo não possam ser generalizados a toda a comunidade académica, esperamos ter fomentado a critica entre os nossos leitores, a quem deixamos uma reflexão de Mario Vargas Llosa (na sua obra “La Civilización del Espectáculo)

o ato sexual retorna a ser un ejercicio puramente físico (…)en el organismo humano de la que el hombre y la mujer son meros instrumentos pasivos (…) desacralizar la vida sexual convirtiéndola en una práctica tan común y corriente como comer, dormir e ir al trabajo, tengan como consecuencia desilusionar precozmente a las nuevas generaciones de la práctica sexual. Ésta perderá misterio, pasión, fantasía y creatividad y se habrá banalizado hasta confundirse con una mera calistenia(Vargas Llosa, 2012).

  • Arnett, J. (2000). Emerging adulthood: A theory of development from the late teens through the twenties. American Psychologist, 55, 469-480. doi:10.1037/0003066X.55.5.469
  • Bogle, K. A. (2008). Hooking-Up: Sex, Dating and Relationships onCampus.NewYork:NewYorkUniversityPress.
  • Campbell,A.(2008). AffectivereactionstoOne-NightStandsamongMatedandUnmatedWomenandMen.HumanNature,19,157-173.doi:10.1007/s12110-008-9036-2.
  • Claxton, S. & van Dulman, M. (2013). Casual Sexual Relationships and Experiences in Emerging Adulthood. Society for the Study of Emerging Adulthood, 1, 138-150. doi: 10.1177/2167696813487181 // Garcia, J., Reiber, C., Massey, S. & Merriwether, A. (2012). Sexual Hookup Culture: A Review. Review of General Psychology, 16, 161-176. doi: 10.1037/a0027911 // Stinson, R. (2010). Hooking Up In Young Adulthood: A Review of Factors Influencing the Sexual Behavior of College Students. The Journal of College Stu- dents Psychotherapy, 24, 98-115. doi: 10.1080/87568220903558596
  • Mario Vargas Llosa. La civilización del espectáculo. Santillana Ediciones Generales, S.L. Alfaguara.

 

Texto de Filipa da Piedade Rosado

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filipa.p.rosado@gmail.com

Psicologia

Quer falar-me melhor sobre isso? Psicoterapia(s).

Embora possamos não ter recorrido a ela, a psicoterapia é parte integrante do nosso imaginário, pelas várias exposições a uma visão de si que nos é apresentada pela via da literatura, televisão, rádio ou cinema. É certo que todos, ou quase todos, conseguimos representar na nossa imaginação o típico psicoterapeuta na casa dos 50’s ou 60’s anos que senta os seus clientes num divã, estrategicamente posicionado numa sala luxuosamente decorada, enquanto desvenda os desígnios da mente alheia. Essa é uma reminiscência daquilo que ela já foi (e em alguns casos ainda é), porém, desde o seu nascimento a psicoterapia foi sofrendo diversas alterações ao longo dos anos. Com este texto, espero ajudar o leitor a conhecer um pouco melhor esta área.

O dicionário Priberam da Língua Portuguesa diz-nos que a palavra Psicoterapia significa “Tratamento de doenças e problemas psíquicos através de um conjunto de técnicas que se baseiam numa relação interpessoal entre o paciente e o terapeuta.”. Esta frase permite-nos perceber várias coisas: primeiro, como o nome indica, a psicoterapia permite aliviar o sofrimento psicológico dos seres Humanos; segundo, a psicoterapia insere-se num tipo específico de relação interpessoal; e terceiro, o alívio do sofrimento psicológico é conseguido através de um conjunto específico de técnicas. Podemos então através desta definição referir três pontos de exploração do conceito de psicoterapia: Propósito – Para que serve?, Teorias – Como se faz? e Contexto – Que tipo de relação existe neste processo? sendo que hoje iremos focar-nos apenas no segundo ponto:

Para que possamos ter uma ideia: a psicoterapia é realizada através de um determinado modelo teórico que orienta o profissional no que concerne à origem e manutenção das dificuldades do cliente, fornecendo também as ferramentas necessárias para o ajudar a superá-las. Possivelmente poderá estar neste preciso momento a surgir-lhe a questão “Mas então, quantas são as formas de fazer terapia?”. Na verdade não sabemos exactamente o número total, mas estima-se que existam cerca de 500 modelos psicoterapêuticos diferentes. Isso mesmo caro leitor, pelo menos 500 formas diferentes de trabalhar uma determinada situação (Norcross citado por Lillienfield & Arkowitz, 2012). E quais são os modelos mais eficazes? Essa é uma pergunta para a qual também ainda não temos uma resposta clara, porém, parecem existir evidências que apontam para níveis de eficácia relativamente equivalentes em vários modelos teóricos (Lillienfield & Arkowitz, 2012). Vejamos então quatro dos modelos mais disseminados no nosso país:

Modelo cognitivo comportamental – Este modelo defende que o pensamento disfuncional está na base do sofrimento humano, influenciando as nossas emoções, que por sua vez influenciam a forma como nos comportamos. Este é um modelo tradicionalmente mais estruturado e directivo, no qual o terapeuta e o cliente trabalham em conjunto para desenvolver um plano terapêutico, à medida que exploram os aspetos que estão a contribuir para as dificuldades que levaram o cliente a procurar ajuda em primeiro lugar (Datillio & Hanna, 2012). O trabalho psicológico neste modelo implica tanto os nossos pensamentos e ideias, como os processos inconscientes que estão envolvidos no acto de pensar e dos quais muito frequentemente não temos qualquer consciência. Ao ajudar o cliente a reconhecer e alterar todo o pensamento disfuncional é possível produzir uma mudança emocional ou comportamental (Evans, 2015).

 

Modelo psicodinâmico – O modelo psicodinâmico, deriva da Psicanálise criada por Sigmund Freud no início do século XX, sendo um dos modelos mais disseminados em Portugal. Os modelos psicodinâmicos procuram perceber em que medida os motivos que levaram o cliente a procurar ajuda se relacionam com aspetos da sua história de vida. Tradicionalmente pode existir menor estruturação da terapia, sendo o cliente incentivado a explorar livremente as suas emoções, pensamentos, desejos ou receios. Tal permite ao terapeuta compreender a forma como o cliente se vê a si e aos outros ou como interpreta, atribui significado ou evita as suas experiências. Procura-se que o terapeuta e o cliente consigam identificar padrões na sua forma de pensar, agir e de se relacionar ou nas experiências que passa ao longo da vida, de forma a compreender a sua relação com o motivo de procura de ajuda (Schedler, 2010)

Modelo Sistémico – O modelo sistémico defende que o sofrimento tem a sua origem e manutenção nos contextos relacionais do individuo (Flanagan & Flanagan, 2015). Este modelo pressupõe que as relações familiares são um aspecto basilar da saúde emocional de cada um dos seus membros, procurando assim ajudar a encontrar formas de lidar com a dor, sofrimento e incompreensão que está a causar atrito nas relações familiares. Embora este modelo possa ser aplicado individualmente, a casais ou numa variedade de outros contextos, é frequentemente aplicado em contexto familiar, pelo que não procura trabalhar ao nível individual e sim compreender os problemas a partir de uma visão contextual. Por esta razão, a terapia sistémica pode auxiliar a melhor compreender a forma de funcionamento de uma família, identificar forças e fraquezas dentro de um sistema familiar e desenvolver objetivos e estratégias com vista à resolução com vista ao fortalecimento da família como um-todo (“Family/Systemic therapy”, 2017).

Modelo Existencial – Este modelo de psicoterapia olha para o ser humano e para o seu sofrimento a partir de uma perspetiva filosófica, segundo a qual as dificuldades psicológicas e emocionais são vistas como reflexo de conflitos internos com questões existenciais. Deste modo, um dos principais objetivos das terapias existencialistas consiste em ajudar o cliente a enfrentar ansiedades da sua vida e a abraçar a liberdade de escolha, tomando total responsabilidade pelas suas escolhas à medida que o fazem. Por essa razão, o trabalho existencial é focado no presente – também conhecido por “aqui e agora” – ao invés de no passado, na exploração da condição humana como um todo e no seu significado para o cliente. Os terapeutas existenciais procuram ajudar o cliente a definir o que é realmente importante para si de modo viver de forma mais autêntica e congruente consigo mesmo, encorajando-o também a tomar a posse da sua própria vida, a encontrar significado na sua vida e a viver de forma mais plena no presente (Vann Deurzen-Smith citado por Spinelli, 2006; “Existential Therapies”, 2017).

Para terminar, quero deixar uma nota sobre o assunto: os diferentes modelos podem ter resultados diferentes com pessoas diferentes, pelo que não será adequado pensar que apenas um modelo específico será o adequado para lidar com uma determinada situação. Em ultima instância, essa decisão deve ser tomada por um especialista devidamente qualificado, sendo que para o leitor, este texto tem apenas a função de ilustrar a diversidade de perspetivas de trabalho dentro do campo da psicoterapia. Caso se sinta inclinado a iniciar um processo terapêutico deverá procurar um profissional que se proponha a trabalhar de uma forma que lhe faça também a si sentido. Por outras palavras: Se está em dúvida, experimente!

Referências:

“psicoterapia”, in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2013, https://www.priberam.pt/dlpo/psicoterapia [consultado em 06-10-2017].

Dattilio, F. M., & Hanna, M. A. (2012). Collaboration in cognitive‐behavioral therapy. Journal of clinical psychology68(2), 146-158.

Evans, I. M. (2015). How and why Thoughts Change: Foundations of Cognitive Psychotherapy. Oxford University Press.

Existential Therapy (2017, Outubro 17).Retirado de: http://www.counselling-directory.org.uk/existential-therapy.html

Family/Systemic Therapy (2017, Outubro 17). Retirado de: http://www.counselling-directory.org.uk/family-therapy.html

Lillienfed, O, S. & Arkowitz, H. (2012) Are all psychotherapies created equal?. Scientific American. Retirado de: https://www.scientificamerican.com/article/are-all-psychotherapies-created-equal/

Shedler, J. (2010). The efficacy of psychodynamic psychotherapy. American psychologist65(2), 98-109.

Sommers-Flanagan, J., & Sommers-Flanagan, R. (2015). Counseling and psychotherapy theories in context and practice: Skills, strategies, and techniques. John Wiley & Sons.

Spinelli, E. (2012). Existential psychotherapy: An introductory overview. Análise Psicológica24(3), 311-321.

 

Texto de Rodrigo Baptista

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rodrigopiresuevora@hotmail.com