Memórias e Fotografia

[Saudade]

Fim de Semana @ Vila Real 20-23.07.2007 012

Há uma saudade que sempre espreita,
Um abraço esquecido,
Um beijo perdido.
Há uma saudade que se esconde,
que se arruma,
que se apaga.
Uma janela aberta,
Uma porta fechada.
Há uma saudade que se estende,
Que perdura,
Que esvoaça.
E em três fases, meu amor…
O vento sopra,
O dia amanhece,
E as palavras morrem.

 

Texto de Joana Almeida

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Fotografia de Nuance Fotografia by Cláudia da Silva Mousinho

Memórias e Fotografia

As Raízes da Saudade – I (Parte II)

Eu tinha 5 anos, era o meu primeiro dia de escola. Foste comigo de mãos dadas até à sala de aula, eu estava nervosa, entusiasmada com a ideia de ir para a escola e ao mesmo tempo cheia de medo. Apertava-te as mãos com força como quem diz “por favor, não me deixes sozinha”. Entrámos na sala e de repente estavam aqueles olhos pequenos todos voltados na minha direcção e naquele momento quis voltar para casa.

Queria ficar, fazer amigos, aprender, mas tinha tanto medo. Tinha medo que os meninos não gostassem de mim. Tinha medo que gozassem comigo.

Estivemos da sala de aula um tempo, não me lembro ao certo do que falámos. Sei que se tratou de uma forma de nos prepararmos devagarinho para aquele novo desafio. De repente a professora pediu aos pais e avós que saíssem da sala para poder estar connosco, conhecer-nos. Aí o mundo parou. As lágrimas vieram aos olhos, agarrei a tua mão e comecei a chorar.

– Não quero ficar aqui sozinha! Não vás embora, por favor.

– Oh filha, a avó vai só ao pão e vais ver que daqui a pouco já aqui estou outra vez para irmos para casa. – disseste tu enquanto me limpavas as lágrimas que insistiam em cair acompanhadas de soluços.

– Mas eu não quero! Quero ir contigo para casa!

– Oh minhas querida, então. A avó daqui a pouco já volta para te vir buscar. Já estiveste comigo uma vez não te lembras? – disse a professora Júlia com uma ternura na voz que me tranquilizou.

– Lembro… – disse eu hesitante enquanto limpava as lágrimas envergonhada, olhando à minha volta e percebendo que estavam todos a olhar para mim.

– Então. Vais ver que vais gostar. Estão aqui tantos meninos como tu. Vão dar-se bem e vais aprender muitas coisas novas. E hoje vão ficar só um bocadinho para se conhecerem e depois já vais poder voltar para casa com a avó.

Eu respirei fundo e limpei as lágrimas novamente. Tu olhaste para mim e sorriste. Pegaste no lenço que trazias preso no cós da tua saia e limpaste-me a cara. Deste-me um beijo e saíste. Acompanhei-te com o olhar até a porta se fechar atrás de ti. O coração apertou e eu voltei a chorar.

Acompanharam-me à casa de banho, fizeram-me acalmar e voltei à sala de aula. Eu sabia que tu ias voltar para me vir buscar, sabia que ia voltar para casa. Sabia que tinha só que aguentar aquelas horas e tudo ia compor-se.

– Emprestas-me as tuas canetas? – perguntou uma colega que estava sentada ao meu lado.

Olhei para ela intimidada, agarrei no meu estojo e coloquei-o junto ao peito. Não estava habituada a deixar que ninguém mexesse nas minhas coisas.

– Não! São minhas. Usa as tuas! – disse eu, zangada e assustada por estarem a falar comigo, quando eu só queria fazer os meus desenhos metida no meu mundo.

– Vais ter muitos amigos assim. És má.

Estremeci… Achava que ela tinha razão, que não ia fazer amigos e que aquele percurso ia sempre ser um inferno.

Com o passar das horas fui perdendo o medo. Levantei-me da cadeira, com uma caneta azul na mão e fui ter com a colega que tinha mudado de lugar.

– Desculpa… Não queria ser má para ti. Podemos ser amigas? – perguntei envergonhada.

Ela pegou na caneta, olhou para mim:

– Está bem. – disse sorrindo enquanto me dava para a mão um lápis de cor também ele azul.

Umas horas depois estava a guardar as canetas dentro do estojo, as folhas dentro da mochila e a correr novamente na tua direcção, com a certeza de que amanha o dia ia correr muito melhor.

 

Texto de Cláudia da Silva Mousinho

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Memórias e Fotografia

As Raízes da Saudade – III (Parte I)

Segunda-feira, 12 de Julho de 2010. Acho que foi a primeira vez, ao fim de tantos anos, que te dei um abraço. Ela tinha morrido no Domingo e eu tinha acabado de chegar a Lisboa para o velório. Estava tão preocupada contigo, procurava por ti em todas as pessoas, em todos os rostos. Sabia que devias estar desamparado, tinhas perdido a tua companheira de 63 anos. Quando te vi vinhas a chorar, com uma mão na bengala que te amparava os passos e na outra um dos teus característicos lenços de pano. Mal saí do carro corri na tua direcção.

Olhaste para mim com o olhar mais triste que alguma vez te vi… Abracei-te e tu disseste apenas:

– Oh filha…já ficaste sem a tua avó.

Naquele momento senti que o teu desespero também era por mim. Naquele momento a tua preocupação era comigo. Apercebi-me de que sempre foi assim, podias pôr-te primeiro que toda a gente, menos primeiro que eu. Para ti eu estava sempre primeiro! Lembro-me de ter pensado que agora te restava tão pouco e que por isso também te havia de perder em breve. Chorei…chorei por ela e chorei por ti. Nunca te tinha visto chorar daquela forma e partiu-me o coração. Recordava-te sempre de sorriso no rosto e de repente apareceste como que desfigurado pela dor que sentias. Estavas “sozinho”. Não sabias quem eram os teus pais, o nome não te estava escrito no bilhete de identidade. Filho de pais incógnitos, dizia. A tua única referência era uma tia que te criou, mais ninguém. A tua história tinha sido apagada, era como se só tivesse sido escrita a partir do momento em que te casaste. E mesmo assim, apesar de tudo, tinhas sempre um sorriso pronto, um abraço guardado para quando eu chorava, uma mão para me ajudar a saltar nas poças de água.

Aqueles foram dias desgastantes. Vi-te chorar em cada um deles e sentia que não podia fazer nada para te aliviar a dor de perder a tua companheira de uma vida. Sabia que te sentias sozinho, que não sabias o que ia acontecer a seguir e que acreditavas que te íamos pôr num lar…

No final do dia, já sentado no sofá da sala junto à janela, depois de quase toda a gente ter ido embora disseste:

– Agora é que acabou tudo…

O pai pôs-se de joelhos à tua frente, agarrou-te na mão e disse-te:

– Pai, eu não vou o vou por num lar. O pai não vai a lado nenhum. Vamos procurar um sítio para poder ficar durante o dia, enquanto eu estou a trabalhar, mas à noite vem para casa para ao pé de mim. Pode ser assim?

– Está bem. Assim pode ser. – Disseste tu, enquanto fungavas e limpavas as lágrimas.

– Eu não o vou pôr num lar enquanto tiver alternativa e o poder ter em casa.

– Está bem.

Respiraste fundo, vi os teus ombros relaxarem e paraste de chorar.

– Depois vou contigo ver o sítio quando encontrarmos pode ser? – Perguntei com esperança de te dar algum alento.

– Sim… – Tinhas a cabeça baixa enquanto dobravas o lenço nas mãos e uma lágrima te caia pela face.

Nessa noite mal dormi… Tinha um nó na garganta, doía-me o peito. Chorei por ela, por ti, pelo meu pai. O mundo mudou radicalmente e as nossas vidas iam mudar também. Ela era a matriarca. Tudo girava em torno dela, das suas necessidades, das suas vontades, das suas dores. Ela era a organizadora de tudo, tratava da casa, da lista das compras, das limpezas e às vezes de nos fazer a cabeça em água. Mas era ela… a tua mulher e a minha avó-mãe. Nesse dia também eu perdi uma parte de mim. Teríamos que descobrir como viver sem ela.

Demorei dois dias até cair em mim, passei dois dias em modo automático. Não me lembro desses dias, do que disse, do que fiz. Lembro-me apenas de te ver chorar… E lembro-me de ao terceiro dia estar no computador e a bateria ter avariado. Irritei-me. Tentei resolver o problema mas nada corria bem. Atirei o carregador ao chão e virei costas, saí da sala a correr e atirei-me para o chão na divisão ao lado. Chorei! Chorei verdadeiramente, num sufoco inigualável. Tinha perdido…estava perdida! Não me pude despedir dela. Na última vez que falei com ela era Quinta-feira e ela dizia-me para eu ir a casa no fim-de-semana. Ela fazia anos no dia 13 de Julho!

 

Texto de Cláudia da Silva Mousinho

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claudia.s.s.x.silva@gmail.com

Memórias e Fotografia

À minha querida Marta.

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A vida ensinou-me que há muitas formas de se estar presente.

Quando a doce lembrança do teu sorriso nos cerca a memória logo pela manhã, é sinal que estás por perto. Quando aquela música que passa na radio me lembra de ti, eu fecho os olhos e vejo-te sorrir e sei que estás por perto.

Desculpa… hoje não te faço um bolo de fubá para comemorar o teu dia, mas desenho-te junto a mim.

Feliz aniversário à Dra. mais querida deste mundo e do outro!

 

 

Texto e desenho de Joana Almeida

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Memórias e Fotografia

As Raízes da Saudade – IV (Parte II)

Lembro-me do barulho da colher a bater na cafeteira enquanto misturavas a cevada com a água quente. Recordo aquele cheiro delicioso que envolvia a casa toda logo pela manhã. E lembro-me de ir contigo comprar a cevada numa velha e pequenina loja nos Restauradores.

Saíamos cedo de casa para ir apanhar o primeiro autocarro. Lembro-me de estar frio e de estar enrolada na minha capa cor-de-rosa e de ter as minhas luvas nas mãos. Ia de mão dada contigo. Levavas na outra mão o teu saco preto que imitava pele, que usavas para colocar as compras. Dentro do saco levavas migalhas de pão que eu sabia muito bem para o que serviam.

Saíamos do autocarro e o meu entusiasmo crescia à medida que nos dirigíamos para o comboio. Adorava andar de comboio, adorava ver as pessoas, observar os seus gestos. Adorava o som do comboio a avançar na linha e adorava ver os grafitis nas paredes ao longo do caminho.

Chegávamos ao Rossio, davas-me a mão e encaminhávamo-nos para fora da estação. Atravessávamos ruas e praças, passando em cada esquina pelos carros dos assadores de castanhas, e lá estava a loja do café com o seu cheiro tão característico e delicioso. Compravas a cevada enquanto eu olhava a minha volta fascinada com a quantidade de diferentes tipos de café expostos nas prateleiras, completamente inebriada por aquele cheiro que recordo até aos dias de hoje. Davam-te a cevada numa embalagem de papel, agrafada na parte de cima, pagavas e saíamos. Lembro-me de pôr o pé fora da loja, olhar para trás e respirar fundo numa tentativa de guardar em mim aquele cheiro que eu adorava. Talvez por isso goste tanto de café nos dias de hoje.

O passo seguinte era ir comprar bacalhau. Numa loja igualmente pequena mas nem de perto tão mágica como a loja de café. Ali não havia cheiros deliciosos nem prateleiras carregadas de embalagens de café com cores diferentes. E eu continuava a sonhar com a loja do café, a rever mentalmente as prateleiras e a respirar fundo numa tentativa de reavivar o cheiro na minha memória.

Quando pagavas e dizias “Anda filha. Vamos embora” eu voltava à realidade porque sabia o que se seguia. Sabia que agora era o momento em que as migalhas de pão cumpriam a função para qual havia sido destinadas. Dirigíamo-nos ao centro da praça, que naquela altura me parecia menos escura e suja do que nos dias de hoje, e eu com a minha capa cor-de-rosa corria na direcção dos pombos para os ver voar à minha volta. O barulho do bater das asas misturava-se com o barulho da minha gargalhada. Tu olhavas para mim e sorrias. Era das poucas vezes em que te via sorrir e em que me deixavas ser eu.

– Toma filha. Toma as migalhas. Põe assim na mão. – dizias tu entusiasmada.

Eu tirava as luvas roxas que te entregava, pegava nas migalhas, abria as mãos e encolhia-me toda sempre que os pombos subiam para os meus braços. E ria… ria com vontade.

Atirava migalhas para o chão para os ver comer e uma vez peguei nas migalhas e coloquei-as nos ombros. Quando dei por mim estava coberta de pombos e tu rias ao observar aquele espectáculo. Lembro-me de ver meia dúzia de pessoas a parar para tirar fotografias.

As migalhas acabavam e eu voltava para o teu lado.

-Então, foi giro? – perguntavas tu com um sorriso no rosto.

– SIIIIM – gritava eu de alegria.

– Agora temos que ir embora. A avó tem que ir fazer o almoço. – Dizias enquanto sacudias o resto das migalhas que tinham ficado agarradas à minha capa cor-de-rosa.

Eu dava-te a mão e dirigíamo-nos à estação dos comboios.

Lembro-me de estar feliz!

 

Texto de Cláudia da Silva Mousinho

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