Palavras e Fotografia

As Raízes da Saudade – VII (Parte I)

Eu tinha 6 anos.

Estava um dia de sol e de calor e íamos dar uma das nossas voltas pelo bairro. Saíamos de casa de mãos dadas, tu com o teu boné na cabeça e eu com o meu, que levava sempre muito contrariada. Subíamos a rua e eu observada os cães dos vizinhos que latiam à nossa passagem. Lembro-me de pensar que nos estavam a dizer olá, e sorria enquanto lhe acenava com a minha mãozinha pequenina. Enquanto subia a rua, sentia os raios de sol tocarem-me a pele das costas que espreitava por entre as alças do meu top branco, ouvia as cães a latir e os pássaros. Ao cimo da rua virávamos à esquerda e seguíamos caminho. Olhei para o chão e estava uma cobra a passar à nossa frente.

– Avô! Uma cobra! – dizia assustada ao mesmo tempo que te agarrava a mão com mais força.

– Não faz mal. Ela tem mais medo de ti do que tu dela! – disseste tu com um sorriso.

Com uma enorme rapidez tiravas o boné, pegavas na cobra e atirava-la para o mato. Eu admirava a tua coragem. Uma vez vimos uma tão grande que me agarrei ao teu braço. Tu repetiste o gesto de sempre e disseste:

-Anda cá ver! Não tenhas medo.

Eu aproximei-me devagar. Tinhas a cobra nas mãos como que morta. Quis tocar para saber o que se sentia. Lembro-me que parecia escorregadia e era fria! Tirei a mão muito depressa pela estranheza daquela sensação. Tu rias. Aquele sorriso ternurento que sempre te conheci.

– Vês, não te faz mal nenhum. As cobras aqui não são venenosas e têm mais medo das pessoas do que as pessoas deviam ter delas. E para além disso são óptimas para apanhar os ratos. – disseste enquanto me olhavas nos olhos, transmitindo uma segurança que nunca senti nos olhos de mais ninguém.

Atiraste-a para o mato, deste-me a mão e continuámos o nosso passeio. Talvez por isso ainda hoje adore cobras.

Lembro-me de pararmos sempre para cumprimentar os vizinhos. Não havia quem não te conhecesse.”Olhó ti Jaime” diziam eles com um sorriso enquanto estendiam a mão. “Estás uma mulherzinha”, diziam quando me viam ao teu lado. Eu encolhia-me ao lado da tua perna na esperança de passar despercebida.

Gostava daqueles passeios contigo. Gostava de ser criança naquele momento. Perguntava-te pelas pessoas, quem eram, o que faziam e em qual das casas é que viviam. Dizias-me os nomes e os graus de parentesco de quem vivia em cada casa por onde passávamos e eu criava histórias de encantar na minha imaginação. Conhecias toda a gente e toda a gente gostava de ti.

Ali, de mão dada contigo, ou simplesmente a caminhar ao teu lado, sentia que ninguém me podia fazer mal porque tu nunca ias deixar. Ali criava histórias de encantar e contos de fadas. Ali aprendia coisas sobre a vida, sobre o amor e sobre a amizade. Aprendia sobre paciência, resiliência e simpatia. Ali era feliz.

Os anos passaram e os passeios foram deixando de acontecer. Hoje faço longos passeios contigo nas minhas memórias,choro e sorrio ao mesmo tempo,pela saudade e por ter tido a oportunidade de viver todos estes momentos contigo!

Quando preciso de encontrar o meu centro saio de casa e vou dar esse mesmo passeio. As pessoas já não são as mesmas, já não param para cumprimentar e já não lhes sei os nomes nem os graus de parentesco, os cheiros mudaram muito, mas continuo a ouvir o latir dos cães à minha passagem e o chilrear dos passarinhos e de vez em quando até aparecem cobras.

Nesses momentos caminho sozinha, mas é como se ali estivesses ao meu lado. De novo a ensinar-me sobre a paciência, sobre a calma e sobre o que é realmente importante na vida. De novo a fazer-me sentir que vai tudo correr bem e que tanto as cobras, como algumas pessoas “elas têm mais medo de mim do que eu delas”.

 

Texto de Cláudia da Silva Mousinho

14125715_1155467937809556_3378696756477860058_o

Palavras e Fotografia

As Raízes da Saudade – V (Parte II)

Estava calor.

Eu tinha talvez uns quatro ou cinco anos e tu estavas a tirar do saco a minha piscina de plástico. Eu dava pulos e gargalhadas de excitação na expectativa do que aí vinha.

Enquanto o avô abria a piscina, eu e tu colocávamos no chão o cobertor que servia para que a piscina não fosse furada pelas pedras do chão.

Colocavam a piscina em cima do cobertor e eu saltava lá para dentro munida do meu fato de banho roxo e da minha bóia de cintura que servia apenas para acrescentar à diversão.

Pegavas na mangueira e abrias a água. O som da água a correr misturava-se com as minhas gargalhadas e com o chapinhar das minhas pequenas e rechonchudas mãos. Ao mesmo tempo, dançava de felicidade. Imagina, pequenina, de barriguinha rechonchuda rodeada pela bóia de cintura a dar saltinhos de alegria e abanar os braços.

Tu rias, como tão poucas vezes te vi fazer.

– Senta-te filha. Já tens água que chegue para brincar. – dizias tu com o olhar brilhante, ainda que sempre envolvido pela tristeza de todas as tuas perdas.

As saudades que tenho desse olhar que era tão raro. O quanto eu desejei que ele se tornasse mais frequente…Mas a verdade é que por mais que fizesse, por mais que tentasse não conseguia fazê-lo aparecer mais vezes.

Eu sentava-me com a minha bóia azul e branca pontuada com desenhos de bolas de praia coloridas, e ria!

À minha volta andava sempre a nossa cadela Pastor Alemão, a Farrusca. Lembro-me de ter cães desde que me lembro de ser gente, de também eles serem a minha companhia.  Ainda hoje os tenho. São uma espécie de botão de memória para um passo mais ou menos feliz. Recordo-me que por vezes ela se aproximava da piscina para beber água e tu a afastavas, como que para me proteger.

Tu pegavas na água com as mãos enrugadas em concha e molhavas-me a cabeça.

– Tens que molhar a cabeça. O sol está muito quente e depois ficas doente e temos que ir à Senhora Doutora.

Eu aceitava de bom agrado a água fresca que me escorria pelo cabelo curto e pelos ombros. O sol estava, de facto, muito quente e queimava-me a pele frágil mas ávida daquele calor.

Deixavas a água encher a piscina e desligavas a mangueira que o avô voltava agilmente a enrolar. Lembro-me de ficares ali comigo a observar cada gesto. Penso que aqueles eram os poucos momentos em que estavas feliz…ou pelo menos em que a tua tristeza era abafada pelo som das minhas gargalhadas.

Na altura não sabia, mas hoje penso “só por isso já valia a pena rir”.

 

Texto de Cláudia da Silva Mousinho

14125715_1155467937809556_3378696756477860058_o

Palavras e Fotografia

As Raízes da Saudade – V (Parte I)

Estávamos em 2004. Tu, como sempre acontecia quando eu vinha das aulas, ias buscar-me ao pé da estrada e acompanhavas-me na travessia do descampado que nos levava a casa. Estava escuro e nesse dia eu apercebi-me de que estavas diferente.

Não sei se a mudança foi repentina ou se naquele dia eu olhei para ti com olhos de ver. Tropeçavas nas pedras, andavas rapidamente mas com passos estranhamente mais curtos. Parecias ter medo do chão que pisavas apesar de o fazeres quase todos os dias. Alguma coisa estava a mudar em ti. “Cada vez vejo pior” – dizias tu. Tinhas diabetes e consequentemente glaucoma. Pensei que era apenas a progressão desse problema, mas sabia que ias ser operado e que depois disso passarias a ver melhor.

Não dei importância talvez porque para mim eras eterno. Nunca me passou pela cabeça a possibilidade de te perder. Estarias sempre lá para dizer “Olá Netinha” e por isso, tudo se ia compor.

Nunca imaginei que um dia tudo ia mudar radicalmente e que eu teria que me confrontar com a mortalidade da pessoa que nunca pensei que um dia fosse morrer, apesar de saber que toda a gente morria. Os meses foram passando, os anos foram passando e aos poucos tu foste mudando.

Foste operado, ficaste a ver melhor, mas havia qualquer coisa que não batia certo. Alguma coisa estava a mudar de dia para dia, lentamente, mas ainda assim a uma velocidade demasiado acelerada para o que eu gostaria. Os teus passos eram rápidos e muito curtos, a tua postura estava a mudar. A tua mão começou a perder a sensibilidade, dizias não ter força, mas se pegasses num ovo desfazia-lo num piscar de olhos.

Mudei de cidade para lutar por um sonho e lembro-me que de cada vez que vinha a casa estavas diferente. Alguma coisa se tinha perdido naquela semana. Não sabia o que era. O brilho no olhar era o mesmo sempre que me vias chegar, a tua cara iluminava-se sempre com o mesmo sorriso, mas alguma coisa estava diferente.

Chegou o dia em que essa diferença recebeu um nome. Lembro-me de estar de braço dado contigo a caminho do gabinete médico e lembro-me do ar de preocupação que ele fez quando te viu chegar. “Está com uma passada tão curta… Temos que ver isso”. A consulta decorreu com uma serie de perguntas, falaste da tua falta de sensibilidade na mão direita e eu falei das quedas que eram cada vez mais frequentes. Naquela altura havia em mim sempre uma secreta esperança de que tudo aquilo ia passar. O médico estranhou tudo, ponderou muitas possibilidades e achou por bem fazer exames de diagnóstico. Parkinson era a possibilidade mais sonante e por sinal a mais assustadora.

Estava lá tudo, os tremores, a passada curta, a postura curvada, a falta de equilíbrio e coordenação. Tudo apontava para esse destino e aí foi quando o coração se apertou. Eu tinha estudado essa doença há pouco tempo, toda a informação estava bem fresca na minha cabeça. Revi todas as aulas e artigos que li no espaço de 10 segundos e as conclusões foram terríveis. Ias morrer um pouco mais todos os dias e eu pouco podia fazer para o evitar.

Digerir toda aquela informação foi difícil. Confrontei-me com a realidade de que mais cedo ou mais tarde já não ias estar aqui. Não estava preparada para isso. Nunca estamos preparados para perder os que amamos.

A verdade é que foste piorando com os anos e na última memória que tenho de ti, estás sentado na cadeira de rodas que te levava a todo o lado nos últimos anos da tua vida.

Na altura era difícil entender o porquê. Passamos a vida a procurar os porquês de tudo e nunca nos lembramos que eles só aparecem quando deixamos de procurar. Hoje sei porquê. Passar por tudo isto contigo fez-me reequacionar a vida. É demasiado curta e num piscar de olhos muda tudo. Hoje posso correr, saltar, passear, amanhã tudo isso pode acabar. Aprendi a pensar todos os dias “Estou a viver no meu potencial máximo? Estou a fazer a diferença na minha vida? Estou a amar em verdade? Estou a ser honesta?”

Graças a ti hoje faço um exercício com muita frequência. Lembro-me de te ver sentado no teu cadeirão da sala de olhos no pequeno horizonte que vias pela janela e de pensar “dava um euro pelos teus pensamentos”. Talvez estivesses a pensar no futuro que não ias ter ou talvez estivesses só a passar revista à vida que tiveste. Hoje faço esse exercício. Sento-me comigo no meu cadeirão de fim de vida e olho para a vida que estou a construir. Procuro perceber o que sinto quando olho para ela. Estou a fazer tudo o que posso? Estou a amar o suficiente? Estou a gastar tempo a chatear-me com coisas que eu sei que amanhã não são nada? Estou a guardar rancor ou a ser capaz de aceitar?

É o meu guia. És o meu guia.

Ainda há dias em que a tua ausência me dói. Ainda há dias em que dava muito para te trazer de volta nem que por apenas 1 hora, só para te poder perguntar se te orgulhas de mim e de tudo o que aprendi contigo.

 

Texto de Cláudia da Silva Mousinho

14125715_1155467937809556_3378696756477860058_o

Palavras e Fotografia

As Raízes da Saudade – III (Parte II)

– Oh Sofia, anda lanchar! – chamavas tu da porta da cozinha.

Eu corria na tua direcção com um sorriso nos lábios. Sabia que me tinhas feito um pão com manteiga para o lanche e que ias sentar-te comigo. Enquanto eu lanchava tu abrias a caixa da costura e sentavas-te na cadeira ao lado da minha a coser as meias pretas do meu pai.

Enquanto mastigava, admirava a precisão de cada um dos pontos que davas.

– Cuidado! Olha que ainda deitas o copo do leite ao chão e fazes chiqueiro. – Dizias tu já a antever o que ia acontecer.

De repente o copo estilhaça-se no meio do chão da cozinha e eu paro de mastigar e encolho-me na cadeira. Sabia que ias ralhar comigo. Sabia que ias fazer-me levantar da cadeira e dar-me uma palmada. E assim foi.

Eu fiquei paralisada, com as lágrimas a correrem pela cara e de repente rompi num prato, saí porta fora e fui procurar o avô. Sabia sempre onde o encontrar – na casinha das ferramentas. Lá estava ele pronto a receber-me, a deixar-me chorar e a fazer-me voltar para te pedir desculpa.

Eu voltava, com as pernas a tremer, abria a porta da cozinha e lá estavas tu, sentada numa das cadeiras com a agulha e o dedal no dedo a coser as meias pretas do meu pai. Já tinhas apanhado os cacos e limpo o chão. Não havia vestígios do leite entornado nem das migalhas do meu pão com manteiga. Mas o resto do pão que não tinha comido estava em cima da mesa à espera que eu voltasse. Eu aproximava-me a medo, de cabeça baixa e punha-te a pequenina mão na perna como que a pedir desculpa.

Respiravas fundo, pousavas a meia e a agulha, punhas a mão na minha cabeça e dizias:

– A avó às vezes zanga-se contigo porque te diz as coisas muitas vezes e depois tu vais fazer na mesma. Aviso-te de que te vais magoar e tu continuas e depois magoas-te mesmo.

Eu olhava para baixo e recomeçava a chorar. Tinha medo que fosses ralhar comigo outra vez.

– Vá, pronto. Já passou. Olha para a avó, anda lá. – dizias enquanto pegavas no lenço de pano que trazias sempre no bolso do avental e me limpavas as lágrimas. Eu envolvia-te com um abraço e respirava fundo. Tudo tinha voltado ao normal e eu podia voltar a sorrir. Sentava-me na cadeira ao lado da tua a acabar o meu pão com manteiga e a ver o que estavas a fazer. Absorvia cada gesto. Tudo o que sei hoje fazer, aprendi contigo. Admirava a agilidade com que pegavas na agulha e davas pontos certeiros no tecido ao ponto de quase não se perceber que ali tinha existido um buraco. Outras vezes estavas a passar a ferro e eu montava a minha tábua de engomar e o meu ferro de plástico atrás de ti e fingia estar também a passar a ferro. Talvez por isso hoje em dia seja das coisas que mais gosto de fazer. Davas-me os lenços de pano para passar que eu dobrava com todo o cuidado e punha em cima da tábua. Mantinhas os lenços dobrados e limitavas-te a passar o ferro quente por cima. Eu sentia que tinha feito qualquer coisa de muito importante.

 

Texto de Cláudia da Silva Mousinho

14125715_1155467937809556_3378696756477860058_o

Palavras e Fotografia

As Raízes da Saudade – VI (Parte I)

Há meses tínhamos tomado uma das decisões mais difíceis da nossa vida. Tínhamos que procurar uma instituição onde pudesses ficar a tempo inteiro. Já não tínhamos condições para continuar a dar resposta às tuas necessidades na casa onde vivíamos.

Depois de meses que pareceram anos, tínhamos finalmente recebido notícias da Unidade de Cuidados Continuados que tinha vaga para te receber. Depois de tantos meses de desespero, finalmente surgiu uma vaga. Sabíamos que podias ir parar a qualquer ponto do país, porque não havia preferência de escolhas, mas quando nos disseram o sítio o tempo parou. Ourém… Ias para Ourém.

– Olha, lá vamos nós passear todas as semanas. – disse eu numa tentativa de aligeirar o ambiente.

Tínhamos que te contar naquele dia. Tínhamos o fim-de-semana para estar contigo e na segunda-feira seguinte tinhas que dar entrada. Tudo tão depressa.

Naquele dia, chegaste do centro de dia e vinhas muito calado. Eu olhei para o meu pai como que a comunicar-lhe que alguma coisa se passava contigo. Ele já tinha informado o centro de dia, pedindo que não te dissessem nada por ser uma conversa a ter em família. Mas por certo alguém te deu a entender alguma coisa. Sentado no sofá a ver as notícias de repente dizes:

– Hoje estava a dar nas notícias à hora de almoço um lar que foi fechado porque não tinha condições. Batiam nas pessoas e tudo.

Eu e o meu pai olhámos um para o outro, o meu pai ficou de lágrimas nos olhos e naquele momento percebemos que já sabias o que te íamos dizer.

Fomos jantar, acompanhados de um silêncio nada comum nas nossas refeições de família e de um aperto no peito por saber o que se ia passar a seguir. Mal tocaste na comida – a verdade foi assim com todos nós – e não quiseste a tua fruta de sobremesa.

Depois de arrumada a cozinha, com uma lentidão maior do que o normal, quase que como numa tentativa desesperada de adiar o inadiável, fomos para a sala ter contigo. Engolimos em seco, o meu pai ajoelhou-se à tua frente e disse:

– Pai, o pai sabe que temos andando à procura de vagas em lares para o pôr. Não conseguimos ter condições para o ter em casa, não pode continuar a passar tantas horas sozinho. E ali vai ser melhor tratado. Hoje ligaram-nos para nos dizerem que existe uma vaga.

Começas-te a chorar… Senti o peito apertar e as lágrimas começaram a escorrer-me pela cara. Ajoelhei-me à tua frente e deitei a cabeça no teu colo.

– O lar é em Ourem. O pai vai passar este fim-de-semana connosco, mas na segunda-feira tenho que o ir lá deixar. Nós vamos lá ver tudo, ver as condições e vamos vê-lo sempre que podermos. Até se adaptar estamos lá consigo todas as semanas.

Choraste, pegaste no lenço e levaste-o à cara. Soluçavas como se te tivessem arrancado o coração do peito e eu chorei contigo. Disse-te em tom de brincadeira que ias ter uma estadia abençoada, estavas perto de Fátima. Tu olhaste para mim com um leve sorriso no meio das lágrimas. Eu disse-te que ia ver-te sempre que pudesse e que ia tudo correr bem. Ias ser bem tratado e se não fosses iríamos trazer-te de volta para casa. Nunca íamos permitir que fosses mal tratado sem nada fazermos para o evitar.

Respiraste fundo. Eu deitei a cabeça no teu colo e chorei. Eu sabia que dali para a frente tu ias piorar, e sabia que talvez no ano seguinte naquela data já não me dirias “Bom dia netinha”.

Não me lembro do que aconteceu depois. A última memória que tenho desse dia é de estar sentada aos teus pés, com a cabeça no teu colo enquanto me fazias festas na cabeça com uma mão e limpavas as tuas lágrimas com a outra. Nesse momento recordei todos os momentos em que isto havia acontecido por eu estar triste e como sempre seres o único capaz de me suportar a chorar sem dizer nada nem fazer perguntas.

Ia perder isso também…

 

Texto de Cláudia da Silva Mousinho

14125715_1155467937809556_3378696756477860058_o

Palavras e Fotografia

As Raízes da Saudade – II (Parte II)

Eu era adolescente. Como todos os outros lutava pela minha autonomia, pela minha liberdade. Queria sair das aulas e ainda ter tempo para conversar com as amigas mais quinze minutos, mas contigo, esses quinze minutos eram quase sempre interrompidos.

Ligavas-me para o telemóvel:

– Onde é que tu andas? – perguntavas furiosa por eu ainda não ter chegado.

– Estou a caminho. Ainda há bocado saí das aulas. – respondia eu já irritada por nunca sentir que me davas espaço para crescer.

– Já devias estar em casa há mais de vinte minutos! – praguejavas qualquer coisa e desligavas-me o telefone na cara.

Eu respirava fundo e fazia-me ao caminho, com a certeza de que chegar a casa ia valer uma discussão, como tantas outras vezes. Era certo, quando descia a rua estavas tu ao portão à espera de me ver chegar. Eu enchia-me de coragem e enfrentava-te com a certeza de que não estava a fazer nada de errado.

Estavas quase sempre vermelha de raiva por te deixar preocupada, apenas por me atrasar vinte minutos para além do que era habitual.

Só anos mais tarde vim a compreender a tua preocupação. As perdas que não controlamos fazem-nos temer o mundo.

Entrava em casa contigo a praguejar e eu numa tentativa inútil de me fazer entender. Até que desistia. Pousava a mochila, tomava um banho e vestia o pijama. O resto da tarde era passada a tentar evitar discutir. Eu isolava-me nos meus livros e cadernos a fazer deveres que não existiam, apenas para não ter que voltar a discutir.

Vinhas de vez em quando ter comigo para saber como estava, já com outro tom, mas eu continuava tão zangada que te respondia com meia palavras e tu nunca soubeste entender.

– Raios partam a miúda! Tu pões-me doente – dizias tu enervada com a minha tentativa de marcar o meu território, de pôr a minha palavra no mundo.

E eu chorava… depois de muitas horas a tentar manter-me forte chorava. Porque nunca percebia o que havia feito de tão grave para que ficasses sempre tão zangada comigo. Era como se nada fosse o suficiente. Por mais que tentasse ficava sempre aquém do que esperavas de mim, que no fundo, eu não sabia bem o que era.

 

Texto de Cláudia da Silva Mousinho

14125715_1155467937809556_3378696756477860058_o

Palavras e Fotografia

As Raízes da Saudade – IV (Parte I)

Passaram meses e finalmente encontrámos um centro de dia para onde podias ir passar o tempo enquanto o meu pai estava a trabalhar e eu na Universidade.

Não me lembro do teu primeiro dia no centro, mas lembro-me que nos primeiros dias voltavas sempre desanimado. Fazias queixas da comida, dos funcionários, dos companheiros. Estavas num sítio estranho, com pessoas que não conhecias.

– São uns velhos. E são uns malucos. Qualquer dia quem fica maluco sou eu. – dizias.

Foram meses difíceis. Sabíamos que eras bem tratado lá e que não havia razão de queixa dos funcionários. Faziam o que podiam com as condições que tinham. Os teus companheiros eram velhinhos, alguns deles senis. Sabíamos que de cabeça estavas bem, com melhor memória do que qualquer um de nós e no fundo, isso só te tornava tudo mais difícil.

Com o tempo regressavas mais animado, foste abandonando a postura curvada e sofrida que trazias nos últimos meses e já sorrias.

– Hoje estive sentado ao pé da Rosa – disseste com um sorriso malandro.

– Da Rosa? Quem é a Rosa? – perguntei em tom de brincadeira.

– É uma que mora ali para os lados de Belas. Hoje veio meter-se comigo. “Jaiminho, hoje sentas-te aqui ao pé de mim para o almoço.”

– Ai a malandra da Rosinha. A querer arranjar namorado.

– Ela é brincalhona. Andava lá de roda de outro mas lá se chateou com ele…

Estavas a reagir, recomeçaste a brincar, já te via menos lágrimas no rosto. Estavas mais falador, brincavas, contavas o que acontecia no teu dia. Nos dias mais difíceis tentava animar-te, pôr-te a pensar nas coisas boas que ainda te restavam.

Estava a estudar fora nesta altura, tinha iniciado o meu Mestrado. Todas as semanas vinha a casa ver como estavas, ajudar o meu pai nesta tarefa árdua de trabalhar 8 horas por dia e vir para casa a correr cuidar de ti.

Um dia o meu pai ligou.

– Olá pai. Está tudo bem?

– Não. O avô caiu. Partiu o braço.

– Mas como é que isso aconteceu? – perguntei enquanto senti o coração acelerar. Tinhas 88 anos. Qualquer fractura podia ser perigosa.

– Foi ao quarto para fechar as persianas e de repente oiço a chamar por mim. Quando lá cheguei estava caído de lado no chão. Levantei-o, perguntei se estava bem, se lhe doía alguma coisa. Disse que lhe doía o braço mas nada de especial. Passado um bocado disse-me que não estava bem, que o braço estava a doer mais e vim com ele ao hospital. Está partido. Vai ter que ser operado.

Senti o peito gelar, a cabeça andar à roda. Respirei fundo e pensei: “vai tudo correr bem. É uma cirurgia simples e ele vai recuperar.” Não calculei as consequências que isto ia trazer para tua vida e consequentemente para a nossa.

O que é certo, é que foste operado, estiveste mais ou menos um mês no hospital. No dia em que te fomos buscar estavas bem-disposto, ias voltar para casa. Mal nós sabíamos do que se avizinhava. Sair do hospital foi um suplício. Felizmente o pai já tinha comprado a cadeira de rodas como que a prever a falta que nos ia fazer… Não conseguias andar, estavas tão fraco que tive medo que nunca mais fosses capaz de dar um passo. Estiveste um mês de cama, o teu corpo perdeu a pouca força que lhe restava e agora teríamos um enorme desafio pela frente: conseguir que voltasses a andar.

Nos meses seguintes estiveste com gesso no braço. Não podias mexer o braço, tinha que se manter numa determinada posição para garantir que sarava bem e por isso não podias estar deitado na cama. Dormias no sofá. Era inverno e estava frio. O pai mantinha o aquecedor ligado no mínimo para evitar sustos de maior, tapava-te com as mantas e tentava que pudesses ficar o mais confortável que era possível. Foram longas semanas nesta situação. Sempre em sobressalto, atentos ao mínimo sinal de desconforto. A dada altura estavas com tosse. Uma tosse que às vezes quase te sufocava. Fomos contigo ao médico e disseram-nos que tinhas uma infecção respiratória. Fomos assolados por um sentimento de culpa avassalador. Tinhas passado semanas a dormir no sofá da sala, tentámos manter-te o mais quente e confortável possível com as condições que tínhamos mas não tinha sido suficiente. Estavas doente, muito doente.

Travaste batalhas de gigante no final da tua vida e esta era mais uma delas. Pouco tempo houve de paz desde que ela morreu. Eu sabia que tudo ia acontecer depressa e que as nossas vidas iam mudar, mas nunca pensei que fosses passar por tanto.

Eu voltei para a Universidade, em Évora, como tinha que ser e a preocupação era constante, estavas demasiadas horas sozinho depois de voltares do centro e já não andavas sem ajuda. Não eras capaz de te levantar para ir ao wc e por isso também tinhas que usar fralda. O meu pai deixava-te sempre um copo de água e qualquer coisa para poderes comer até ele chegar, na mesinha de centro da sala, que tinha sido posicionada ao lado do teu sofá. Aí tinhas o comando da televisão, o teu lenço, os teus óculos e o telemóvel para podermos ir falando contigo ao longo do tempo. Não consigo imaginar como será estar tanto tempo sozinho, sentado no mesmo sítio sem liberdade para simplesmente ir ao quintal apanhar sol e ar. Forçava-me a não pensar demasiado nisso enquanto estava fora, obrigava-me a viver a minha vida naquela cidade mágica mas era como se na verdade não estivesse lá.

Vinha a casa à Sexta-feira, com uma ambivalência difícil de pôr em palavras. Queria chegar a casa, pousar as malas e dar-te um beijo e um abraço, mas ao mesmo tempo não queria ter de me confrontar com a tua degradação. Estavas pior a cada semana que passava e era como se de cada vez que te visse me despedisse de ti. Estavas a desaparecer aos poucos.

Sempre que vinha a casa recebias-me com um sorriso.

– Então netinha, já cá estás? – dizias de olhos brilhantes e sorriso aberto.

– Olá avô! Já cheguei!

– Quando vais? – perguntavas numa vã expectativa que te dissesse que já não ia.

– No Domingo, sabes que tenho aulas na segunda-feira – dizia ao mesmo tempo que pensava que todo o tempo era pouco para estar contigo.

– Pois. Tem que ser assim não é… – dizias com o olhar triste de quem sabe que lhe resta tão pouco tempo.

– Como correu a tua semana no centro?

– Oh correu…

– E a Rosinha?

– Oh chateou-se comigo – dizias com o teu ar de malandro.

– Ora essa. Porquê?

– Ela é maluca. Estava com ciúmes lá de uma senhora com quem me dou muito bem. E eu não estou para me chatear.

Eu ria contigo. Admirava a tua capacidade de brincar e rir mesmo sentado numa cadeira de rodas e com a plena consciência de tudo o que estavas a perder. E o que estavas a perder era o bem mais essencial de todos….a vida.

 

Texto de Cláudia da Silva Mousinho

14125715_1155467937809556_3378696756477860058_o

Palavras e Fotografia

[Saudade]

Fim de Semana @ Vila Real 20-23.07.2007 012

Há uma saudade que sempre espreita,
Um abraço esquecido,
Um beijo perdido.
Há uma saudade que se esconde,
que se arruma,
que se apaga.
Uma janela aberta,
Uma porta fechada.
Há uma saudade que se estende,
Que perdura,
Que esvoaça.
E em três fases, meu amor…
O vento sopra,
O dia amanhece,
E as palavras morrem.

 

Texto de Joana Almeida

IMG_7718

Fotografia de Nuance Fotografia by Cláudia da Silva Mousinho

Palavras e Fotografia

As Raízes da Saudade – I (Parte II)

Eu tinha 5 anos, era o meu primeiro dia de escola. Foste comigo de mãos dadas até à sala de aula, eu estava nervosa, entusiasmada com a ideia de ir para a escola e ao mesmo tempo cheia de medo. Apertava-te as mãos com força como quem diz “por favor, não me deixes sozinha”. Entrámos na sala e de repente estavam aqueles olhos pequenos todos voltados na minha direcção e naquele momento quis voltar para casa.

Queria ficar, fazer amigos, aprender, mas tinha tanto medo. Tinha medo que os meninos não gostassem de mim. Tinha medo que gozassem comigo.

Estivemos da sala de aula um tempo, não me lembro ao certo do que falámos. Sei que se tratou de uma forma de nos prepararmos devagarinho para aquele novo desafio. De repente a professora pediu aos pais e avós que saíssem da sala para poder estar connosco, conhecer-nos. Aí o mundo parou. As lágrimas vieram aos olhos, agarrei a tua mão e comecei a chorar.

– Não quero ficar aqui sozinha! Não vás embora, por favor.

– Oh filha, a avó vai só ao pão e vais ver que daqui a pouco já aqui estou outra vez para irmos para casa. – disseste tu enquanto me limpavas as lágrimas que insistiam em cair acompanhadas de soluços.

– Mas eu não quero! Quero ir contigo para casa!

– Oh minhas querida, então. A avó daqui a pouco já volta para te vir buscar. Já estiveste comigo uma vez não te lembras? – disse a professora Júlia com uma ternura na voz que me tranquilizou.

– Lembro… – disse eu hesitante enquanto limpava as lágrimas envergonhada, olhando à minha volta e percebendo que estavam todos a olhar para mim.

– Então. Vais ver que vais gostar. Estão aqui tantos meninos como tu. Vão dar-se bem e vais aprender muitas coisas novas. E hoje vão ficar só um bocadinho para se conhecerem e depois já vais poder voltar para casa com a avó.

Eu respirei fundo e limpei as lágrimas novamente. Tu olhaste para mim e sorriste. Pegaste no lenço que trazias preso no cós da tua saia e limpaste-me a cara. Deste-me um beijo e saíste. Acompanhei-te com o olhar até a porta se fechar atrás de ti. O coração apertou e eu voltei a chorar.

Acompanharam-me à casa de banho, fizeram-me acalmar e voltei à sala de aula. Eu sabia que tu ias voltar para me vir buscar, sabia que ia voltar para casa. Sabia que tinha só que aguentar aquelas horas e tudo ia compor-se.

– Emprestas-me as tuas canetas? – perguntou uma colega que estava sentada ao meu lado.

Olhei para ela intimidada, agarrei no meu estojo e coloquei-o junto ao peito. Não estava habituada a deixar que ninguém mexesse nas minhas coisas.

– Não! São minhas. Usa as tuas! – disse eu, zangada e assustada por estarem a falar comigo, quando eu só queria fazer os meus desenhos metida no meu mundo.

– Vais ter muitos amigos assim. És má.

Estremeci… Achava que ela tinha razão, que não ia fazer amigos e que aquele percurso ia sempre ser um inferno.

Com o passar das horas fui perdendo o medo. Levantei-me da cadeira, com uma caneta azul na mão e fui ter com a colega que tinha mudado de lugar.

– Desculpa… Não queria ser má para ti. Podemos ser amigas? – perguntei envergonhada.

Ela pegou na caneta, olhou para mim:

– Está bem. – disse sorrindo enquanto me dava para a mão um lápis de cor também ele azul.

Umas horas depois estava a guardar as canetas dentro do estojo, as folhas dentro da mochila e a correr novamente na tua direcção, com a certeza de que amanha o dia ia correr muito melhor.

 

Texto de Cláudia da Silva Mousinho

14125715_1155467937809556_3378696756477860058_o

Palavras e Fotografia

As Raízes da Saudade – III (Parte I)

Segunda-feira, 12 de Julho de 2010. Acho que foi a primeira vez, ao fim de tantos anos, que te dei um abraço. Ela tinha morrido no Domingo e eu tinha acabado de chegar a Lisboa para o velório. Estava tão preocupada contigo, procurava por ti em todas as pessoas, em todos os rostos. Sabia que devias estar desamparado, tinhas perdido a tua companheira de 63 anos. Quando te vi vinhas a chorar, com uma mão na bengala que te amparava os passos e na outra um dos teus característicos lenços de pano. Mal saí do carro corri na tua direcção.

Olhaste para mim com o olhar mais triste que alguma vez te vi… Abracei-te e tu disseste apenas:

– Oh filha…já ficaste sem a tua avó.

Naquele momento senti que o teu desespero também era por mim. Naquele momento a tua preocupação era comigo. Apercebi-me de que sempre foi assim, podias pôr-te primeiro que toda a gente, menos primeiro que eu. Para ti eu estava sempre primeiro! Lembro-me de ter pensado que agora te restava tão pouco e que por isso também te havia de perder em breve. Chorei…chorei por ela e chorei por ti. Nunca te tinha visto chorar daquela forma e partiu-me o coração. Recordava-te sempre de sorriso no rosto e de repente apareceste como que desfigurado pela dor que sentias. Estavas “sozinho”. Não sabias quem eram os teus pais, o nome não te estava escrito no bilhete de identidade. Filho de pais incógnitos, dizia. A tua única referência era uma tia que te criou, mais ninguém. A tua história tinha sido apagada, era como se só tivesse sido escrita a partir do momento em que te casaste. E mesmo assim, apesar de tudo, tinhas sempre um sorriso pronto, um abraço guardado para quando eu chorava, uma mão para me ajudar a saltar nas poças de água.

Aqueles foram dias desgastantes. Vi-te chorar em cada um deles e sentia que não podia fazer nada para te aliviar a dor de perder a tua companheira de uma vida. Sabia que te sentias sozinho, que não sabias o que ia acontecer a seguir e que acreditavas que te íamos pôr num lar…

No final do dia, já sentado no sofá da sala junto à janela, depois de quase toda a gente ter ido embora disseste:

– Agora é que acabou tudo…

O pai pôs-se de joelhos à tua frente, agarrou-te na mão e disse-te:

– Pai, eu não vou o vou por num lar. O pai não vai a lado nenhum. Vamos procurar um sítio para poder ficar durante o dia, enquanto eu estou a trabalhar, mas à noite vem para casa para ao pé de mim. Pode ser assim?

– Está bem. Assim pode ser. – Disseste tu, enquanto fungavas e limpavas as lágrimas.

– Eu não o vou pôr num lar enquanto tiver alternativa e o poder ter em casa.

– Está bem.

Respiraste fundo, vi os teus ombros relaxarem e paraste de chorar.

– Depois vou contigo ver o sítio quando encontrarmos pode ser? – Perguntei com esperança de te dar algum alento.

– Sim… – Tinhas a cabeça baixa enquanto dobravas o lenço nas mãos e uma lágrima te caia pela face.

Nessa noite mal dormi… Tinha um nó na garganta, doía-me o peito. Chorei por ela, por ti, pelo meu pai. O mundo mudou radicalmente e as nossas vidas iam mudar também. Ela era a matriarca. Tudo girava em torno dela, das suas necessidades, das suas vontades, das suas dores. Ela era a organizadora de tudo, tratava da casa, da lista das compras, das limpezas e às vezes de nos fazer a cabeça em água. Mas era ela… a tua mulher e a minha avó-mãe. Nesse dia também eu perdi uma parte de mim. Teríamos que descobrir como viver sem ela.

Demorei dois dias até cair em mim, passei dois dias em modo automático. Não me lembro desses dias, do que disse, do que fiz. Lembro-me apenas de te ver chorar… E lembro-me de ao terceiro dia estar no computador e a bateria ter avariado. Irritei-me. Tentei resolver o problema mas nada corria bem. Atirei o carregador ao chão e virei costas, saí da sala a correr e atirei-me para o chão na divisão ao lado. Chorei! Chorei verdadeiramente, num sufoco inigualável. Tinha perdido…estava perdida! Não me pude despedir dela. Na última vez que falei com ela era Quinta-feira e ela dizia-me para eu ir a casa no fim-de-semana. Ela fazia anos no dia 13 de Julho!

 

Texto de Cláudia da Silva Mousinho

14125715_1155467937809556_3378696756477860058_o

 

claudia.s.s.x.silva@gmail.com